sábado, 25 de março de 2017

A Bela e a Fera (2017)

A Bela e a Fera

(Beauty and The Beast)

Dir.: Bill Condon


Os contos de fada têm origens muito provavelmente milenares. Traçar um histórico correto deles tem sido praticamente impossível, porque os seus registros mais antigos são de quando eles começaram a ser publicados, por volta dos séculos 16 e 17, com o advento da prensa móvel e a massificação dos livros e meios de comunicação, mas eles já eram contados por diversos povos, e diversas culturas diferentes muito antes disso. A função desses contos sempre foi transmitir valores e lições de moral de geração para geração, ensinando crianças sobre a vida. Notórios escritores de contos eram os irmãos Grimm, Hans Christian Andersen e Perrault. Na primeira metade do século 20, Walt Disney começou a investir no potencial de entretenimento dos contos de fadas e outras fábulas, tranformando-os em longas metragem de animaçâo, começando com Branca de Neve e os Sete Anões em 1937. Com o sucesso de Branca de Neve, Disney logo produziu outros contos, como Pinóquio, Dumbo, Bambi e Cinderela.


A estratégia era repaginar os contos, trazendo o formato dos musicais da Broadway, com muitas canções cativantes, além de introduzir (ou omitir) detalhes à narrativa que os deixassem mais atraentes, como os animaizinhos que ajudavam Cinderela nos serviços domésticos, as fadas coloridas que cuidavam da Aurora, ou a mobília com vida de A Bela e a Fera. Finais felizes eram obrigatórios também, pois muitos desses contos eram originalmente muito mais sombrios e chocantes.


A Bela Adormecida, de 1959, foi por muito tempo o último filme das sagas de "princesas" da Disney, retomada apenas em 1989 com A Pequena Sereia. Desde então elas deixaram de ser só belas, indefesas e passivas, onde suas recompensas vinham apenas por elas suportarem anos de agrura. Tornaram-se mais ambiciosas, faziam suas próprias escolhas (quase sempre...) e tinham mais voz ativa. Logo em seguida vieram A Bela e a Fera, Pocahontas, Mulan, etc.


Um dos preços que se paga ao crescer e desenvolver consciência social é "arruinar" alguns ícones infantis. Então, por mais que a nostalgia de infância conte muitos pontos ao ver esses filmes, para ter uma visão crítica deles, a gente releva a forma: o sotaque cockney em uma aldeia francesa do século 16, a presença de negros nessa aldeia, o castelo nevado no meio do verão, etc. Mas precisamos atentar ao conteúdo: há questões problemáticas que se contrapõem com o que o marketing Disney vende, que é mais progressista e inovador do que essas produções normalmente são. Vê-se então que essa repaginação em muito se limitava à forma, e não ao conteúdo. A moral da história ainda é século 16 e 17, e nossos valores sociais não são mais os mesmos.


O desenho animado de 1991 tem pouco mais 80 minutos, e o filme tem uns 40 minutos a mais. A principal diferença dessa versão live-action para o desenho é o acréscimo de alguns números musicais da versão para a Broadway e contar sobre o passado dos dois protagonistas. Mas do ponto de vista dramatúrgico, a canção da Fera, e as cenas dele criança são descartáveis para a narrativa. O mesmo vale para a história da mãe da Bela. Em resumo: o que era coeso e sucinto ficou arrastado e delongado demais. Um dos pontos fracos dessa versão.

A noviça rebelde?

A história todos conhecem, então sinopses são redundantes a essa altura. Mas vamos exercitar a empatia: imagine ser mantido em cárcere privado por uma criatura amedrontadora e agressiva. Avalie a violência psicológica pela qual a Bela passa. A lição de "enxergar beleza além da superfície" é praticamente uma lição de naturalização da violência de gênero, ensinando meninas a tolerar relações abusivas, pois no fundo, o cara tem bom coração. Os empregados da Fera apaziguando o seu comportamento soam como os parentes de um homem agressor tentando fazer uma mulher desistir de denunciá-lo para as autoridades. Eles terem interesse direto na presença da menina lá, para quebrar o feitiço, só piora.


O reverso jamais seria tolerado. Qual homem iria aguentar uma relação com uma criatura apavorante e que se comporta terrivelmente, na busca de encontrar nela alguma qualidade redentora? Nenhum. Mas isso é imposto para as mulheres. E isso acaba se sobrepondo ao viés empoderador que a Disney quer dar à Bela e vende para o público. Qual a diferença entre a Fera e Gastón, por exemplo? Muito pouca. Ambos são cortezes quando agradados, mas rudes e violentos se contrariados. 


Como George Lucas e Spielberg já haviam dito, com o advento de novas formas de ver filmes (streams online, Netflix, etc.), e o crescimento da qualidade dos seriados de TV, só faria diferença para as pessoas sair de casa para ver um filme se fossem superproduções pirotécnicas e fantásticas que proporcionasse uma experiência que elas não poderiam ter na sala de casa por muito menos custo. O cinema tem se tornado um entretenimento caro. Os dramas e comédias cotidianos estão ficando cada vez mais relegados a TV e streams. Com isso a Disney está investindo pesado em versões live-action dos seus fantasiosos longas de animação.


Então o star system, que já foi muito mais forte em Hollywood até o fim dos anos 60, está voltando à voga, e o público voltou a exigir nomes de peso encabeçando essas caras produções. Antigamente os musicais eram estrelados por grandes estrelas, mesmo que elas não soubessem cantar, como Natalie Wood em West Side Story e Audrey Hepburn em My Fair Lady, e elas eram todas dubladas na canções, quase sempre por Marnie Nixon, que tinha voz, mas não tinha cara de estrela. Hoje em dia, com o auto-tune, Emma Watson, Renee Zellweger e Emma Stone não precisam mais serem dubladas, apesar da voz soar artificial e mecânica.


O casal principal é fraco. Apesar de Bela ser a frente do seu tempo, ela ainda é uma princesa de conto de fada. É um perfil para uma jovem Brooke Shields ou Hailee Steinfeld (de Bravura Indômita e Quase 18) daqui a alguns anos. Emma Watson tem um perfil de jovem moderninha cosmopolita que cai como uma luva para a adolescente "pra-frentex" de As Vantagens de Ser Invisível. Adoro esse filme, falando nisso. E em filmes de fantasia, ela está perfeita como a bruxinha sabe-tudo de Harry Potter, que a revelou e tornou estrela. Ela está tão mal-escalada aqui quanto a Natalie Portman imitando Jacqueline Kennedy, mas o seu poder no star system atrai público. Ela interpreta bem, por ser boa atriz, mas não é a opção mais adequada para o papel.


Já Dan Stevens do seriado Downton Abbey, que faz a Fera, está canastrão quase que o tempo todo. Muitas caras e bocas na sua versão humana, e como Fera é um gatinho manhoso se comparado à Fera da animação. E a química entre o casal? Parecia a Bela Gil se deliciando com um prato de bacon da Sadia. Mas o Gaston de Luke Evans é ainda mais problemático. Primeiro porque ele é muito de gay de clube fetichista S&M para o papel, e o roteiro lhe incumbe de cenas que funcionariam em animação, mas ficam forçadas e caricatas em live-actions, como quando ele exercita o seu narcisismo no espelho. Essa cena, inclusive, lhe dá um tom de vilão cômico que não corresponde ao restante do seu comportamento sociopata na história.


Outro marketing do filme foi vender como inovação o fato de LeFou ser a primeira personagem abertamente gay da Disney. Isso fez o filme perder espaço em países institucionalmente anti-diversidade, como Rússia, Malásia e Indonésia, mas é um risco calculado, porque traz mais discussão sobre o filme, multiplicando o interesse. Tudo que é proibido é mais gostoso, como diz o ditado. Acontece que ele não é nem abertamente gay, nem inovador. Ele ganha mais espaço nessa versão, mas sempre dando "bandeira". É o capacho de vilão, obviamente apaixonado por ele, que infla o seu ego e quase sempre se submete à humilhações numa vã esperança de ter seu amor platônico correspondido. LeFou não quer dizer "o bobo" à toa.

 
Como o documentário The Celluloid Closet já mostrou, Hollywood retrata homossexuais de forma caricata desde os seus primórdios, como alívios cômicos, desequilibrados ou vilões cruéis. É o uso da homossexualidade como forma de desqualificar personagem, seja como patético ou como abominável. Então a forma como os (pelo menos dois) gays do filme são retratados não tem nada de inovador, e é só uma repetição do que Hollywood já fazia há um século atrás, mesmo que dessa vez ele não seja punido por ser gay, mas ainda é um estereótipo pejorativo, porque não há profundidade. É só comparar com filmes como A Gaiola das Loucas para constatar a diferença de representação.


Os papéis secundários têm nomes muito bons, excelentes. Kevin Kline, Ewan McGregor, Stanley Tucci, Audra McDonald, Emma Thompson, Ian McKellen, etc. Mas quase todos são praticamente dubladores da mobília animada. Eles obviamente devem ter aceitado os papéis em troca de aparecerem no cartaz principal (eu coloquei aqui o cartaz secundário da rosa, porque sou Saul Bass-iano e gosto de cartazes simples) e ter mais tempo de cena, o que recheou o filme de momentos piegas demais, como quando a gente assiste cada um deles virar gente de novo após o feitiço se desfazer, ou dançando no baile.


Pelo lado bom, como se poderia esperar de qualquer filme como esse, a parte técnica é impecável. Fotografia, cenários, efeitos visuais, figurinos, etc., tudo extremamente bem cuidado e de bom gosto, apesar de não primar pela verossimilhança, e sim pelo aspecto lúdico, peculiar aos contos de fada. As belas canções de Menken e Ashman já são conhecidas de longa data. A produção deve varrer as categorias técnicas das próximas premiações do cinema no começo de 2018, e, com muito lobby dos estúdios Disney, pode disputar as categorias principais, mas não acredito que tenha a mesma repercussão que La La Land teve, por exemplo.


Nota: 6,5