segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Crítica de Estrelas Além do Tempo

 
Estrelas Além do Tempo // Hidden Figures

Dir.: Theodore Melfi

Nota: 9,5

Apenas em 2017 chega aos cinemas uma história antiga que quase ninguém sabia: durante a corrida espacial dos anos 60 entre americanos e soviéticos, um grupo de cientistas negras foram essenciais para a NASA desenvolver seu programa espacial? Katherine Goble Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson foram as três principais delas. É imprescindível citar esses nomes. É um tipo de história tão fantástica (devido às condições sociais da época) que a gente se pergunta como que a gente nunca ouviu falar nisso antes. Mas aí a gente que cai na real e se lembra quem que escreve a história (até hoje!), seja nos livros didáticos, nos jornais, redações, noticiários de TV, ou roteiros de cinema: o homem branco, e, em sua maioria, heterossexual. São obras como essa que nos lembram como a minorias (no sentido dos direitos humanos) são carentes de representação, de voz, de delegação da sua importância social, de dignidade em sua humanidade.


O filme não tem uma sinopse mais elaborada do que eu já contei, nem é inovador na abordagem, ou estrutura dramatúrgica. Mas em filmes desse conteúdo, é muito fácil cair no sentimentalismo e cenas lacrimejantes, e essa é a diferença dessa história: o humor, sem se desfazer da responsabilidade social do seu relato. Ela conta tudo sem se vitimizar (não que as histórias comoventes sejam vitimistas), e mostra as nossas protagonistas como mulheres como quaisquer outras nos seus hábitos e costumes e cotidiano, mas que enfrentam ainda a segregação da época, e fogem do clichê do retrato da comunidade negra como empobrecida, miserável, marginalizada ou drogada, mas como alguma tão capaz quanto qualquer outra.


Óbvio que, por um lado, isso é prato cheio para quem argumenta contra medidas sociais de reparação, como cotas em universidades, concursos, entre ouras políticas públicas. “Eles são tão capazes quanto qualquer outros”, dirão. Mas é conveniente nesse argumento ignorar que as oportunidades oferecidas não são as mesmas, e nem o ponto de partida é o mesmo também. Essas mulheres ainda são exceção hoje, o que dirá nos anos 60. Na história não é mostrado os percalços que essas mulheres enfrentaram para chegar onde chegaram, mas não é o propósito da história também, porque tudo isso fica mais que claro nas entrelinhas. Basta um pouco de empatia. 


Esse é apenas o segundo longa do diretor Theodore Melfi. Antes ele tinha feito a comédia St. Vincent, com Bill Murray e Naomi Watts. Ele co-produziu e revisou o roteiro também, escrito por Allison Schroeder baseado no livro homônimo (Hidden Figures) da escritora (negra) Margot Lee Shetterly. Melfi e Schroeder receberam indicações ao Oscar pelo roteiro, e o filme é um dos indicados ao Oscar 2017.


O elenco tem nomes já conhecidos como Octavia Spencer, que ganhou o Oscar por Histórias Cruzadas, Taraji P. Henson de O Curioso Caso de Benjamin Button, a cantora Janelle Monae, Mahershala Ali do seriado House of Cards, Kevin Costner, eterno guarda-costas de Whitney, Jim Parsons de The Big Bang Theory e Kristen Dunst, a Mary Jane dos filmes do Homem-Aranha. Estão todos ótimos, sem cair em afetações e exageros. Octavia tem coletado indicações a melhor atriz coadjuvante pelo filme, e o filme ganhou o prêmio do sindicato dos atores (SAG Awards) de melhor elenco. Com certeza é um dos melhores filmes produzidos em 2016.

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