quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Verdades Secretas - Parte Final

Parte 1 - Parte 2

Parte Final 


Arlete / Angel
Camila Queiroz

A protagonista da trama, Arlete é a adolescente do interior que sonha com as passarelas. Esquecida pelo pai, esnobada pelos riquinhos da escola, logo no início da novela é drogada e abusada por um deles, em uma cena onde o abuso todo é romantizado como uma linda noite de amor, e da perda da virgindade. Recrutada por uma agência de modelos, é pressionada pela dona da agência a se prostituir, que depois de relutar, ela acaba aceitando devido às dificuldades financeiras enfrentadas por sua avó, que está prestes a perder seu apartamento por causa de dívidas.

A trama de Arlete é o supra sumo do machismo. A começar, ela é uma menina menor de idade pobre do interior que inicia uma relação romantizada de abusos e assédio com um homem muito rico e muito mais velho. Deixando o romantismo do roteiro de lado, homem que paga por sexo com uma menor de idade está cometendo crime. Ponto final. 

Arlete logo se apaixona mas é esnobada pelo ricaço, que coloca os pingos nos is e diz: estou te pagando. Ela se decepciona e se afasta. Mas depois de um tempo ele muda de opinião e se diz apaixonado, e resolve tê-la a qualquer preço, então seduz e casa com a mãe de Arlete, Carolina, para assim poder ficar próximo e assediá-la a vontade. Pior ideia do mundo.

A idéia de mãe e filha disputarem um mesmo homem é tão misógina e absurda que não há sequer adjetivos para classificá-la. E não é a primeira vez que isso acontece em novelas. Só pra citar um caso recente, quem não se lembra do triângulo amoroso de Carolina Dieckmann, Vera Fisher e Reynaldo Gianecchini em Laços de Família? Para evidenciar o machismo da trama, coloquemos em perspectiva: alguém imaginaria uma novela que fosse pai e filho disputando o amor de uma mesma mulher? Impossível. 

Arlete foi julgada e castigada por todos que souberam do seu envolvimento com prostituição: 
  • Hilda, sua avó, que a mandou para morar com o pai e a nova esposa. Lá, Arlete ficou dormindo no quartinho de empregada e era maltratada pela madrasta, que inclusive contou para amigas que Arlete se prostituiu, e acabou sendo assediada por um dos amigos da família. Óbvio que Arlete foi culpada pelo incidente. Como de habitual, interações entre mulheres em enredos machistas são sempre de competição e animosidade;
  • Eziel, o melhor amigo, muy amigo, que tentou se aproveitar da situação e ofereceu dinheiro para ela transar com ele e cortou relações quando ela se recusou. Ele se sentiu rejeitado, mimimi;
  • Giovanna, a “melhor amiga”, que silenciosamente arquitetou todas as puxadas de tapete que Arlete levou.
  • Guilherme, o noivo, que a tratou como cão sarnento, pois descobriu que ele não foi o único a se deitar com ela. Inclusive é o mesmo sujeito que a estuprou no início da trama;

Depois de ser mais uma vez esnobada por Guilherme, Arlete se atira de vez nos braços de Alex e passa a dividir de fato o homem com a mãe. Quando Carolina finalmente descobre o caso dos dois (sob intervenção de Giovanna e Guilherme), e os ameça com uma arma, Arlete se joga na frente de Alex dizendo “não o mate, mãe; eu o amo”. Depois disso só restava Carolina dar um tiro na cabeça, mesmo. 

Foi preciso algo tão drástico para Arlete se dar conta do ciclo de abusos que vivia. Mais uma punição para a sua coleção. Desta vez ela foi punida pela mãe, que depositou nela a culpa do seu suicídio, quando na minha modesta opinião, o principal culpado de tudo era Alex. Ele era o lado forte e manipulador das duas relações, com a mãe e com a filha. Arlete então mata Alex (em um plano pra lá de mequetrefe) para se libertar da relação de abuso.

E para depois recomeçar, viver uma vida livre e feliz, o que Arlete faz? Vai estudar, viajar pelo mundo, investir na carreira de modelo? Claro que não. Nenhuma mulher pode ser feliz se não se casar, não é mesmo? Um homem ao seu lado é fundamental. Mesmo se ela APENAS tiver 17 anos de idade e uma vida inteira pela frente. Arlete reata e se casa com Guilherme, a outra relação extremamente doentia que ela cultivou durante a novela inteira.

Uma relação que começa com abuso sexual, abuso de poder, com desrespeito e violência jamais será amor. Mas foi o final de conto de fadas da mocinha da novela.


Alex
Rodrigo Lombardi

Alexandre Ticiano, o milionário que compra tudo e todos. Mas como todo rico caprichoso, só quer aquilo que não pode comprar. Alex é um personagem sem nuances e sem profundidade. É a própria encarnação do mal, sem quaisquer qualidades redentoras. Esnoba a prostitua menor de idade que se apaixona por ele, Angel. Após sentir falta, resolve seduzir e se casar com a mãe dela, Carolina, para se manter próximo à ela. Ideia de jerico nível master, que até poderia ter passado pela cabeça de qualquer pessoa (amoral) na situação dele por um segundo, mas só alguém muito burro para levar o plano adiante, convenhamos. Mas sem isso não teria história, nem novela.

Não existe julgamento e prisão de ricos no Brasil, apenas daqueles que são ligados ao PT. O filho do Eike Batista que o diga. Mas se a dramaturgia tem licença poética, por que não usá-la para levar Alex aos tribunais e pagar pelo crime que cometeu? Infelizmente a gente vive na sociedade em que bandido bom é bandido morto, e os exemplos que os autores de Verdades Secretas estavam dispostos a dar são os que o público já endossa. Então a morte sempre foi o destino certo de Alex.


Carolina
Drica Moraes

Mãe de Arlete, Carolina descobre que o marido mantém outra família em outra cidade. Decepcionada, ela se separa e vem com a filha morar em São Paulo na casa da mãe. Logo ela arruma um emprego de secretária em um escritório médico. Mas em uma reunião de pais e mestres ela conhece o seu príncipe encantado, Alex, pai de uma amiga da escola de Arlete. Eles logo começam a namorar e rapidamente já se casam, o que vira a vida de Carolina de cabeça para baixo devido à toda transformação social.  

Carolina é descrita como o retrato da ingenuidade, completamente alheia a tudo que a cerca. Como Everaldo, o seu ex-chefe, disse, ela é a esposa que não suspeitava que o marido tinha outra família, que não percebeu que o médico que ela assistia realizava abortos, que achava que a filha ainda era uma quase-virgem. 

Já no meu ponto de vista, o que pesava contra ela era não desconfiar que o segundo marido assediava e abusava da filha adolescente e achar Fanny uma santa. Segundo Fanny, Carolina é a classe média baixa, que acha que é dona da moral e dos bons costumes. Francamente, Fanny, essa novela inteira é a própria cartilha da moral e dos costumes, disfarçada de Cine Privê.

Carolina, por ser "a santa", é a que menos sofre de fato no processo, mas é a que leva o golpe mais duro na novela, e acaba dando um tiro na cabeça, por não aguentar tamanha trairagem.


Guilherme
Gabriel Leone

Guilherme é primo de Giovanna, sobrinho de Pia e Alex, que seduz Arlete quando ela chega em São Paulo. Assim que ela sofre a metamorfose do raio fashionizador e vira Angel, ele a leva para uma festa, que por acaso era na casa da Giovanna, e batiza a água dela, para que ela faça sexo com ele. Uma cena onde “boa noite Cinderela” vira uma linda noite de amor, onde a moça apaixonada perde a sua virgindade. No dia seguinte ele já está com outra menina na escola, uma namorada de longa data, e a esnoba solenemente. Depois que ele acaba seu relacionamento e a procura, ela então passa a evitá-lo por um bom tempo. 

Quando Giovanna convida Arlete para um fim de semana na casa de praia do pai dela em Angra, e Arlete/Angel se reencontra com Alex, descobrindo o parentesco entre ele e Giovanna, ela passa então a ceder às investidas de Guilherme novamente para se afastar do ex-cliente.

O relacionamento vai evoluindo até ele a pedir em casamento, o que enfurece Alex, que como está casado com a mãe dela, não tem como externar os reais motivos de sua reação. Giovanna, que já tinha ciúme da proximidade que o pai tinha com a enteada, passa a desconfiar da relação de Alex com Angel e arquiteta para Eziel, o ex-melhor amigo de Arlete (o que sofre bullying por ser pobre e gordo), revelar a Guilherme que ela se prostituiu.

Ao descobrir a verdade, Guilherme se decepciona e a diz:
Eu pensei que por eu ter sido seu primeiro, você tinha se ligado em mim. Você era a única que não namorava no colégio, era a mais certinha, a mais santa. Eu tinha orgulho de pensar que você tinha me esperado.
Tão comovente o orgulho ferido do macho sexista estuprador, não é mesmo, minha gente? Com esse discurso, e mais algumas falácias arcaicas grotescas similares, Guilherme diz que ela não é mais a “mulher para casar” que ele apresentou aos pais e expulsa Arlete de sua vida aos prantos e aos gritos. 

O fim da relação deixa Angel fragilizada, que vira presa fácil nas mãos de Alex, e eles acabam retomando o caso. E talvez para se vingar e ainda castigá-la mais, quando Giovanna o revela do caso entre Alex e Angel, eles dois arquitetam planos para Carolina descobrir, que ao fim terminam levando ao seu suicídio.  

E no final das contas, é com esse aprendiz de biltre calhorda machistóide que Angel termina se casando. Mais um castigo para ela?


Everaldo
Mouhamed Harfouch

Everaldo é o médico que contrata Carolina para ser sua secretária assim que ela chega em SP. Um homem tranquilo e aparentemente honesto e de boa índole. Chega a flertar com Carolina e até se ensaia um início de romance que nunca se concretiza. Depois que Carolina começa a se envolver com Alex, Everaldo some da trama e ressurge de uma forma um tanto abrupta: ele é preso.

Descobrimos que Everaldo realizava abortos, que no nosso Estado laico (sqn) ainda é crime. Uma de suas pacientes vem a falecer, o que o leva a ser detido. 

Aborto é um caso de saúde pública no Brasil. O caso de Everaldo não corresponde à realidade. É um retrato desonesto e proselitista. Pacientes de médicos qualificados não costumam morrer em um procedimento relativamente simples como esse, mas sim as pacientes de clínicas clandestinas que fazem o procedimento com cureteiros. 

Já vivemos em um país onde o aborto é altamente estigmatizado devido à forte influência religiosa na nossa sociedade. Uma novela que sequer discute o caso, que apenas usa um tema polêmico, que inclusive foi pautado nas últimas eleições, pra espelhar e fortalecer a opinião senso comum e clichê sobre o tema é um desserviço. Deseduca. Não gera debate. E quem perde com isso são as milhares de mulheres, principalmente as pobres e negras, que todos os anos recorrem a clandestinidade para realizar seus procedimentos, e acabam pagando com a própria vida. 

Já as mulheres ricas, as que têm condições financeira de recorrer a Everaldos para abortar, continuam anônimas e sãs por aí. Há duas décadas atrás, quando a Veja não existia exclusivamente para ser anti-PT, ela publicou uma capa onde diversas famosas confidenciavam terem abortado uma gravidez indesejada. Dá pra se ter uma ideia de que muito mais gente do que nós imaginamos já abortou alguma vez. Pessoas com quem convivemos diariamente e estimamos. Elas merecem a cadeia?

O cúmulo da falta de contraponto é na cena onde Carolina visita Everaldo na cadeia, levando um advogado para ajudá-lo. O advogado diz algo do tipo:
Vai ser difícil reduzir sua pena, você é culpado e tem consciência do que fez.
Fica óbvio que não existe debate, apenas uma lição de moral a se aplicar. Mas o pior de tudo é que Everaldo concorda, e pede pra falar com Carolina a sós, após essa única fala do advogado. Ele pergunta porque Carolina o está ajudando. Ela, como toda boa mocinha de novela mexicana, diz que ele foi bom pra ela, mas não o deixa de repreender e se condenar por nunca ter percebido no período em que trabalhou lá que ele fazia abortos no seu consultório. Everaldo, com olhos mareados, diz que fazia discretamente, porque tinha vergonha que ela descobrisse. Ela pergunta:
Você é um homem bom. Por que você fez isso?
Após mais alguma conversinha mole, Everaldo suplica: Me perdoa, Carolina. Ao que ela responde: 
Quem tem que te perdoar é Deus. 
Só um recado: Todos os países desenvolvidos do mundo separam a lei dos homens da lei de Deus, e dão às suas cidadãs a liberdade de escolher o que fazer com seus próprios corpos. Basta dar uma olhada no mapa-múndi da lei do aborto. Já o brasileiro cidadão de bem, cristão e moralista, aquele que se sente americano, acha “polêmico”e “inovador” quando uma novela aborda o tema, apenas para reforçar os preconceitos já existentes na sociedade.

Criminalizar o aborto jamais impedirá quem quer que seja de realizar o procedimento se achar necessário. Igual ao tráfico de drogas, mesmo criminalizando, ele vai continuar existindo pois existe demanda. Mas a criminalização impede que essas mulheres sem as devidas condições financeiras ao menos o façam com as mínimas condições de higiene e segurança. É apenas mais uma forma encontrada pela trama de castigar mulheres, por não seguirem à risca a cartilha do patriarcado. 

Para coroar a machismo e moralismo da cena, ao fim, como pretexto para poder dar a lição que Carolina precisava ouvir (Carolina, você acredita demais na bondade humana), Everaldo, aproveitando que não é mais médico e pode quebrar o sigilo, revela que quando a filha dela, Arlete/Angel, se consultou com ele, ela afirmava ter acabado de perder a virgindade, mas ele como médico pôde constatar que ela já não era virgem há muito tempo. Além de tudo, ele é fiscal da vida sexual alheia e faz associações negativas ao fato de Arlete ter uma vida sexual ativa. Pra mim, basta.


Pia
Guilhermina Guinle

Pia é a ex-mulher de Alex e mãe dos seus filhos, que moram com ela. Alex, além de pagar a pensão dos filhos, mantém o padrão de vida da ex-esposa, que obviamente fica refém dele e engole todos os sapos em troca disso. Segundo ouvimos de Alex no início da novela, em tom de recriminação, ela costuma se relacionar com os seus prestadores de serviço, como massagista, professor de tênis, de yoga, etc. Dessa vez ela está se relacionando com Igor, seu personal trainer. 

Igor diz ter sentimentos genuínos por ela, e para selar o compromisso (que ela evita para não perder a pensão do ex-marido) ele segue os conselhos de Anthony e, sem ela saber, deixa de usar camisinha nas relações sexuais entre eles para que ela engravide.

Ao descobrir estar grávida, a primeira coisa que Pia faz é avisar a Alex. Ele a avisa que não vai manter seu padrão de vida caso ela tenha o filho, já que o filho não é dele. Ela, então, toma a decisão de procurar Everaldo para interromper sua gestação. Cheia de culpa (um sentimento normal entre as mulheres que abortam), ela acaba se isolando e tomando distância de Igor por um tempo.

Ao se reaproximar de Igor, ela logo confessa sobre o aborto. Igor, indignado, reclama que ela não tinha o direito de tomar tal atitude sem antes consultá-lo. Depois de muito castigá-la, saindo também com outras mulheres, pois ele obviamente foi o grande desrespeitado da história (ironia mode on), Pia percebe que Igor é o amor da sua vida e está disposta a abrir mão do seu padrão de vida para ser feliz com ele.


Igor
Adriano Toloza

Personal trainer e amante/namorado de Pia. Ele quer oficializar o compromisso, ao contrário de Pia, que perderia a pensão polpuda de Alex caso se casasse com outro homem. Igor é amigo de Anthony, que, espírito-de-porco como ele só, o aconselha a engravidá-la para poder virar primeiro-damo de ricaça. Um golpe da barriga às avessas. Então ele passa a transar com ela sem camisinha, para que ela engravide, sem que ela saiba. Desonestidade sem tamanho.

Pia de repente muda seu comportamento e a relação esfria. Ela quer espaço, e um pouco de tempo afastada dele. Ele não compreende. Até que depois de um tempo ela abre o jogo e confessa: ela engravidou, mas não queria ter um outro filho por suas razões particulares, então decidiu por um aborto. 

De repente, o homem que arquitetou um golpe na companheira, se sentiu ofendido e traído, pois ela não quis ter o seu filho, e não o consultou para tomar a decisão, já que ele como pai deveria ter o direito de decidir. Longe de mim querer fazer julgamento moral de alguém, mas ele era a última pessoa que poderia reclamar da atitude tomada por Pia. Ele traiu sua confiança e a desrespeitou, mas sob as leis do patriarcado, a honra masculina, paterna, está acima de qualquer outra. Às favas a sua honra hipócrita, francamente... 

A partir daí ele passa a tratá-la com certo desdém, e interpreta o aborto de Pia como um descompromisso, e começa a sair com outras mulheres também. Quando Pia vê no noticiário que Everaldo foi preso, abalada, procura por Igor para desabafar e ele não a poupa de mais um sermão. Ambos lamentam o risco que ela correu, e culpam Alex por induzi-la a abortar, esse crime tão nefasto.

No último capítulo, Pia reconhece que não precisa de todo esse luxo para viver e abre mão da pensão para se casar com Igor. E foram todos felizes para sempre.


A NOVELA

  • A direção, edição, fotografia e a trilha sonora, com exceções (Los Hermanos, etc.), são de longe o ponto alto da novela. O elenco, também com exceções (Gianecchini), segura muito bem todas as cenas. Destaque para Grazi, pela surpresa. 
  • As personagens são todas introduzidas de forma estereotipada, como Giovanna, que surge julgando e depreciando a aparência e condição social de uma desconhecida, e Visky, que desnecessariamente carrega em todas as tintas pra mostrar que é um gay afeminado, quando só o visual e o tom de voz bastavam pra passar a mensagem. Menos é sempre mais.
  • O início é devagar, até a chegada de Arlete e Carolina a São Paulo, quando novas personagens e núcleos são introduzidos, aí o ritmo fica mais acelerado. Cria um bom contraste entre o ritmo da vida do interior e da capital, a agitação do mundo da moda, e as mudanças que elas sofrem. 
  • A história fica mais instigante a partir do momento que Arlete entra na agência de modelos, mas depois que o Guilherme acaba o noivado com a ela, a trama fica exponencialmente mais moralista, piorando muito. 
  • O pai de Arlete (Tarcísio Filho), que até os dois primeiros capítulos era um bom pai, inclusive incentiva a filha a perseguir seus objetivos, após a separação vira um interesseiro que só procura a família por dinheiro. Um tanto incongruente, já que como ele não precisa mais sustentar duas famílias, sua condição financeira deveria mudar muito. 
  • A nova esposa dele, Viviane, é outro exemplo de personagem feminina mal construída e rotulada, a barraqueira vulgar e insinuante, que vive sempre em uma nota só. 
  • "Eu quero me vingar do amor que ele sente pela Angel e que ele nunca sentiu por mim". Essa é uma fala realmente dita por Giovanna. Ela é o cúmulo da inveja, e é guiada por isso, sem nenhum pudor em expor. Pessoas normalmente não expõem esse tipo de sentimento e motivação, porque isso é altamente repreensível no convívio em sociedade. Pessoas nocivas assim seriam solitárias pois repelem as outras pessoas com tanta negatividade. 
  • O mundo da moda é muito mal retratado. O dia-à-dia da agência também não corresponde à realidade: pouco funcionário, apenas um booker, além de todos aqueles modelos que não têm vida própria e batem ponto todo dia na agência. 
  • As mulheres todas da tramas são tratadas por adjetivos depreciativos: Arlete/pobre/jeca/puta, Carolina/pobre/jeca/cafona, Fanny/velha, Fábia/velha/patética/bêbada, Larissa/puta/drogada, Lourdeca/gorda, etc. 
  • Além disso, as mulheres (e os gays) estão sempre disputando homens entre si: Arlete x Carolina (Alex), Arlete x Patrícia (Guilherme), Giovanna x Fanny (Anthony), Fanny x Maurice (Anthony), Visky x Lourdeca (Léo). Carolina diz "você roubou o meu marido" à nova esposa do ex-marido. Pia diz "estou namorando um homem mais jovem, tem tanta periguete solta por aí que a gente tem que tomar cuidado". A novela jamais passaria no teste de Bechdel
  • Todos os relacionamentos gays da trama (Sam e Bruno, Léo e Visky, Anthony e Maurice) são exemplos negativos das possibilidades de relações homoafetivas. Devido à falta de representatividade de gays e relacionamentos gays na teledramaturgia, trazer apenas exemplos negativos é um reforço ao preconceito. 
  • Crimes como assédio moral são banalizados nas relações de trabalho e vistos de maneira cômica na trama, igual a relação que Félix mantinha com a sua secretária em Amor à Vida
  • A abordagem da prostituição só serve pra estigmatizar e crucificar ainda mais as prostitutas. Jamais se discute porque tantas mulheres são forçadas a viver dela. As prostitutas são sempre apedrejadas, mas elas não existiriam se não houvesse quem pagasse. Ou seja, o sistema cria uma classe de pessoa apenas para discriminar, sem se responsabilizar por isso. Arlete é a única que justificou seus motivos, mas mesmo assim foi flagelada em praça pública a trama inteira por isso. As modelos do book rosa são sempre "desmascaradas" e vilanizadas por isso, tendo uma outra vítima (sempre um homem) que se traumatiza e sofre com isso (como Bruno e Guilherme, que sofrem ao descobrir que suas amadas se prostituíam, mas o outro lado da história nunca foi devidamente mostrado). 
  • Quando Bruno, filho de Alex e Pia, se vicia em cocaína, ele rouba o anel da mãe para comprar mais droga.  Pia, a mãe, mesmo sem provas, culpa a sua empregada doméstica pelo furto, demitindo-a. Quando a situação se esclarece, Pia readmite a empregada, que volta ao antigo emprego de bom grado. No mínimo um mau exemplo em como lidar com esse tipo de episódios. De ambas as partes.
  • Sam, o aspirante a modelo que trafica drogas, não corresponde a um traficante desse meio de playboys e mauricinhos, já que aceita pagamento em celular, anel, relógio, etc. 
  • O autor repete o mau tratamento de temas como herança, vida sexual de pessoas na terceira idade e de pessoas gordas (sempre ridicularizando), como ele fez em Amor à Vida, sua novela anterior. Lourdeca é uma versão mais ácida, mal humorada e sem carisma de Perséfone, por exemplo. 
  • Depois do suicídio da mãe, para se libertar de Alex, Arlete o assassina quando os dois saem para passear sozinhos de iate. Ela atira diversas vezes nele e joga corpo no mar. Limpa o barco e chama por socorro. Depois alega à polícia que ele escorregou, bateu a cabeça e caiu no mar. Nem polícia de conto de fada ia deixar passar um crime tão mal arquitetado, convenhamos.

Como conclusão, deixo esse parágrafo escrito pela jornalista Vanessa Rodrigues, que concordo em sua totalidade:

Sinto-me bastante desapontada quando vejo uma trama que se pretende mais contemporânea repetir os mesmo clichês, ainda que numa roupagem bonita e bem cortada de grife. Mais uma vez, o que vimos foi muito proselitismo. Em grande medida e, principalmente em seu final, Verdades Secretas parece ter sido um grande panfleto conservador, com discurso anti-drogas, anti-prostituição e anti-aborto baseados no senso comum, religioso, com aspectos racista, machista e moralista. Um panfleto com nudes, é verdade. Mas, um panfleto, no final das contas.

domingo, 11 de outubro de 2015

Verdades Secretas - Parte 2


Segunda parte da minhas considerações sobre a novela Verdades Secretas.


Larissa 
Grazi Massafera

A modelo que se frustra com a falta de sucesso, e por fazer mais programas do que desfiles, Larissa acaba se perdendo nas drogas. Larissa tem um caso com Sam, o modelo da agência que também trafica drogas, mas quando seu vício piora e ele não pode mais atender suas necessidade, ela o troca por Roy, um ex-modelo que a leva para o caminho do crack.

Larissa se afasta da família, dos amigos, perde os clientes, tudo em nome vício. Vai parar na rua, na cracolândia. Chega ao fundo do poço. Em uma determinada cena ela é expulsa de uma loja e acaba se vendo no espelho, e se choca com a imagem que vê, com o que ela se tornou. Ela passa a ter consciência de que finalmente chegou no fundo do poço.

Mas para os autores da novela nada disso é suficiente para que Larissa procure forças para sair da cracolândia. Ela precisa ser castigada. E a justiça tarda, mas não falha. Larissa é estuprada por diversos homens em um vagão de trem abandonado.

O estupro é que faz Larissa de fato acordar e procurar ajuda. Dá até pra comparar com o estupro corretivo, aquele que muitos homens fazem com lésbicas, para que elas se curem da homossexualidade. A sociedade patriarcal adota violência até como profilaxia, para justificar seus preconceitos e sua sordidez. Larissa se atira ao chão e suplica para que os homens de Deus a salvem, como Maria Madalena pedindo misericórdia a Jesus.

A prefeitura de São Paulo é reconhecida por fazer um trabalho de recuperação da cracolândia e ressocialização dos usuários da droga, mas nada disso é sequer mencionado na novela. E onde o Estado não está, outra instituição ocupa a sua função. O socorro de Larissa vem pela religião, dos evangélicos que trocam comida pela salvação.

E esses homens ao socorrerem uma mulher debilitada e frágil, que acabara de ser estuprada, o que fazem? A levam para o hospital, para se limpar, tomar um banho, ser examinada? Não. Não sem antes de pedir perdão a Deus e aceitar Jesus em sua vida. Larissa depois, esqueceu da família, dos seus sonhos. da carreira de modelo, e se tornou também mais uma missionária da fé.


Lyris 
Jéssica Córes

Lyris é a única personagem negra da trama. Logo no início da novela, em um diálogo entre Angel e Fanny, onde Angel se recusa a fazer o book rosa, alegando que algumas modelos também não o fazem, como a Lyris, Fanny deixa claro que ela só está no casting por causa das cotas raciais que as agências precisam atender para fazer média no mercado. Racismo evidente, que nunca é problematizado pela trama. Um pouco mais tarde, Lyris chega surrada à agência e acusa ter sido estuprada por Alex. Ela se recusa a prestar queixa, o que é até comum com vítimas de violência, devido à vergonha e ao trauma. O assunto quase morre na trama, salvas as poucas ocasiões onde Angel joga isso na cara de Alex.

Mais tarde o assunto volta à tona na novela para que seja revelado: após o noivo de Lyris tentar assassiná-lo e se sentindo rejeitado por Angel, Alex exige que Fanny faça com que Lyris conte a verdade à Angel e ao noivo, ou então ele denunciaria à polícia o esquema de prostituição da agência (estranho que não passa pela cabeça de Fanny contra-chantagear Alex que ela poderia também delatar a polícia os clientes assíduos das suas pupilas, inclusive aqueles que têm preferência pelas prostitutas menores de idade, como o próprio Alex).

Então Lyris revela: ela nunca foi estuprada de fato. Ela na verdade topou fazer programa com Alex, e pelo estado em que apareceu na agência, inventou essa desculpa pois se viu pressionada a dar uma justificativa ao noivo, que jamais aceitaria que ela tivesse feito programa. Uma desculpa, digamos, tosca, pois Alex seria obviamente confrontado do crime, e negaria. Ela poderia ter alegado mil outras coisas, que foi estuprada ou agredida por desconhecidos na rua, etc.

Estupro é uma questão séria de violência que amedronta todas as mulheres. No Brasil, 1 mulher a cada 11 minutos é estuprada. Além de ser um problema social grave, é um tema quase nunca abordado pela teledramaturgia brasileira. Em um raro momento onde isso acontece, não passa de uma farsa, que corrobora com o senso comum machista que toda mulher estuprada tem que enfrentar nas delegacias de polícia – que ela está mentindo. Pura misoginia dos autores prestar tal desserviço às mulheres, quando eles, mais uma vez, têm a oportunidade de educar o seu público.

Nos últimos capítulos, o noivo de Lyris, Edgar, vê um homem estranho se aproximando dela, e interpreta que ela está novamente se prostituindo. Sem lhe dar a devida chance de defesa, ele a esfaqueia e mata na presença de todos, na porta do Museu Afro Brasileiro, uma ironia, acima de tudo, ofensiva.

Uma morte sem sentido, sem propósitos dramatúrgicos, já que a única coisa que poderia ser esclarecida com a situação seria desmascarar o esquema de prostituição, que inclui menores de idade, montado por Fanny, mas isso não acontece. Lyris foi punida por ter se prostituído. Foi punida por ser mulher. Nenhum dos homens que fizeram programas na trama foram sequer confrontados, mas Lyris foi assassinada.

Lyris foi vítima do machismo da trama, do seu racismo, castigada por ter “se vendido”, o pecado mais grave que qualquer mulher possa cometer à sua honra, segundo a cartilha do patriarcado.


Visky 
Rainer Cadete

Em sua primeira cena, quando Arlete visita a agência de modelos, Visky dispara todas as gírias do seu dialeto gay como uma metralhadora, corre, ri histrionicamente, faz pose no sofá, ofende a gorda que trabalha com ele, destila veneno, chama a modelo magérrima de fabulosa (ou adjetivo que o valha), dá em cima do modelo bonitão, e grita, aumenta o som, dança, bate cabelo, desfila de salto alto e “faz carão” ao tocar Tulipa Ruiz no som. Tudo isso na frente de desconhecidos, no que seria uma reunião de trabalho para sua agência para recrutar um talento promissor, e em menos de 2 minutos de cena.

Ou seja, Visky, a libélula desvairada (alcunha que ele detesta, mas o chamam mesmo assim), não é uma pessoa, mas um compêndio de todos os estereótipos do gay afeminado batidos no liquidificador. O pastiche gay mais antigo usado em dramaturgia para representar a homossexualidade, e uma cópia pobre e fora do armário de Félix de Amor à Vida, do próprio Walcyr Carrasco, se é que Félix esteve no armário em algum momento (ui, abafa! Abafa!).

Visky apenas diverge do pastiche tradicional (assunto tão brilhantemente abordado no documentário The Celluloid Closet, que sempre recomendo) que ele não é assexuado. Mas esse é outro aspecto bastante problemático dessa personagem.

Visky é apaixonado por um modelo hétero bonitão da agência, Léo, assim como Lourdeca, a contadora gorda. Como o machismo afeta a todos, gays afeminados passam a ser competição das mulheres também, e Visky e Lourdeca têm um richa, envolvendo intermináveis e degradantes trocas de ofensas, e uma aposta por um homem-objeto, que na verdade esnoba os dois.

E como mulher gorda e gay afeminado não têm tipo, têm pressa, pois são o que há de mais desprezível e bizarro na fauna da novela, resta a eles se relacionarem entre si, para não ficar no 0x0, em cenas “hilárias” para o deleite do público, tão acostumado ao riso fácil, oriundo da humilhação dos bobos da corte.

Lourdeca
Dida Camero

A contadora da agência de modelos, que para fins obviamente “cômicos” é colocada do lado da porta de entrada da agência, como uma recepcionista. Ou seja, ela é o cão raivoso que recebe a todos com uma patada, principalmente desconhecidos. Um belo cartão de visita... Vive de trocar ofensas com Visky, o booker gay afetado que prepara e acompanha as modelos, e desejar Léo, o modelo bonitão.

Óbvio que Léo não tem olhos para ela, apesar de alimentar o seu desejo. E nem para Visky, e nessa hora eles se esquecem da sua richa e choram suas mágoas juntos, em encontros que sempre acabam na cama, criando cenas pseudo-cômicas, como expliquei ao falar de Visky.


Léo
Raphael Sander

Modelo da Fanny models, Leo é o objeto do desejo de Visky e Lourdeca. Ele deixa claro que jamais nada acontecerá entre eles, mas toma atitudes e adota comportamentos que levam a se interpretar o contrário. O famoso morde e assopra. Com isso ele se aproveita da situação para fechar trabalhos com Visky e conseguir pagamentos antecipados com Lourdeca. Léo é na verdade um projeto de Anthony, tanto é que após Anthony largar Fanny, Visky o entrega embrulhado pra presente à Fanny para que ela esqueça Anthony.

A importância que vejo em Léo é que ele é um exemplo claro os "dois pesos, duas medidas" com que a trama trata suas personagens. Em determinado momento ele confessa a Lourdeca que faz o tal book azul, ou seja, também faz programas, como muitas das modelos mulheres. Mas ao contrário delas, como Arlete/Angel, Larissa e Lyris, ele jamais é punido, ou sequer constrangido, por suas ações e escolhas.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Verdades Secretas - Parte 1


Verdades Secretas foi a novela das 23hs que terminou recentemente. Repercutiu imensamente entre meu círculo social e de trabalho. Devido à uma licença médica, tive tempo sobrando em casa e decidi conferir a novela, assistindo todos os capítulos pela internet. 

Enquanto assistia, eu ia anotando em tópicos observações sobre a novela. Quase todas observações negativas. Minha decepção foi grande, principalmente devido ao conteúdo tão pouco agregador da trama. Tanto que escrevi esse post no meu perfil do facebook:
Todos que comentaram exaustiva e repetidamente Verdades Secretas, louvando tanta excelência, inovação e "quebra de paradigmas", me fazendo dar uma chance e ver de novo algo escrito por Walcyr Carrasco, desejo a todos vocês uma noite bem longa de piriri reinante no trono.

Nunca vi nada tão clichê, estereotipado, moralista, misógino, etarista, elitista e coxinha quanto essa novela odiosa, horrorosa, rasa e sórdida. Um desserviço às mulheres, à moda, a vítimas de estupro e abuso, a negros, a gays e a minorias e direitos humanos em geral. Um LI-XO. Lixo.
Roque Santeiro, saudades.

Então resolvi fazer esse post, onde dou pormenores dá minha drástica opinião. Selecionei as personagens mais importantes da trama, ao meu ver, para desenvolver minhas impressões sobre a trama e fiz uma observação da novela como um todo a parte, que virá por último. Adianto que é um texto cheio de spoilers, e mais indicado para aqueles que já viram a novela, ou para aqueles que sabem do que a novela trata e não querem assisti-la, apenas constatar impressões.

Para não ficar um post gigantesco, estou dividindo em três partes.


Giovanna 
Ágatha Moreira

Filha de Alex, Giovanna nos é apresentada pela primeira vez reproduzindo todos os estereótipos da menina rica, mimada e elitista: se aproximando de uma desconhecida, Arlete, a aluna novata da escola, para julgar em alto e bom som, para que todos pudessem ver e ouvir, o seu visual, classificando-a como “pobre”. Uma cópia sem metáfora da cena das flores malvadas de Alice no País das Maravilhas, pois o pior que pode acontecer para uma mulher é estar mal vestida. 

Giovanna decide que quer ser modelo após a metamorfose de Arlete, e procura a mesma agência que a rival. Lá descobre todos os segredos de Arlete/Angel, e ao contrário de Arlete, aceita com muita satisfação se prostituir, mas acaba sendo mandada para um encontro com seu próprio pai, quando tudo desmorona. A partir de então, finge uma amizade com Arlete, para depois usar tudo a seu favor, capitalizando e punindo a rival por conseguir tudo que ela queria. Na verdade Giovanna nunca soube o que quis, inclusive ela só descobre que quer o amor do pai depois de saber que ele tem um caso com Angel. 

Inicia um relacionamento com Anthony, o modelo internacional fracassado, decadente e obsoleto, sustentado por Fanny Richard, a dona da agência, a quem ela ofende e afronta sem fazer qualquer cerimônia. Com ele, Giovanna trama fugir para o exterior. Como ela é menor de idade, arquiteta com ele formas de usar as informações comprometedoras que colecionam para chantagear pessoas, até mesmo do próprio pai, e conseguirem o que querem, inclusive se emancipar da família. 

Assim como o Alex, Giovanna não tem qualidades redentoras. É só odiosa, invejosa e egoísta. Quando descobre que o pai tem um caso com sua rival, por inveja e ciúmes, arma planos para que Carolina acidentalmente descubra também. Como todos falham, ela mesma se encarrega de contar toda a verdade para a madrasta, o que termina levando ao suicídio de Carolina. Não vemos Giovanna no velório de Carolina e jamais sabemos se ela sentiu culpa por isso. Por ser uma personagem obviamente inverossímil e rasa, provavelmente não sentiu nada. É disparada a pior personagem feminina da novela, a mais cínica e vil. 

Curiosamente, foi a única mulher que não foi punida em toda a trama. Seu desfecho na verdade foi um prêmio: foi embora com o namorado da “velha” Fanny para Paris, ser garota propaganda de uma grife famosa, realizar o seu sonho de infância. Sonho esse que ela na verdade nuance teve, invejou e roubou da rival. 


Fanny 
Marieta Severo

Fanny é a dona da Fanny Models, agência pequena que tira maior parte de seu lucro do book rosa, o catálogo de modelos que também se prostituem. Fanny sobrevive de uma relação conflituosa, marcada por subornos e chantagens com o milionário Alex, que eventualmente contrata suas modelos para catálogos e desfiles de suas empresas e principalmente para programas. Ele se encanta por Angel, a quem ela obriga a se prostituir, ou não investiria na sua carreira de modelo, e usa a dificuldade financeira da sua família como chantagem emocional para convencê-la. 

Fanny também tem um relacionamento amoroso conturbado com Anthony, ex-modelo fracassado que ela sustenta. O bom e velho gigolô. Ele a humilha de todas as formas possíveis, por ela ser mais velha, e a trai com frequencia. Com o argumento de que ele a ama, do jeito dele, mas a ama, e que na idade dela, ela não conseguiria outro igual a ele, ele sempre a convence a mantê-lo. 

Ela não só o sustenta, como também a sua mãe, Fábia. Quando Giovanna, com inveja de Angel, procura a agência para tentar ser modelo, ela logo é cooptada por Fanny, que não tem trabalho em convencê-la de fazer o book rosa. O que Fanny não esperava é que ela se envolvesse com Anthony, criando um triângulo amoroso e uma richa eterna entre as duas. 

Quando Fanny finalmente consegue realizar o evento que vai colocar sua agência entre as grandes do mercado nacional, lançando uma grife estrangeira no Brasil, Anthony a droga e a impede de ir ao evento. Ao acordar, ele afirma que o fez pensando nela, pois o francês não queria dividir holofotes com ela, e evitou um possível escândalo. Além disso ele revela que a está abandonando para ir morar em Paris com Maurice e Giovanna.

Fanny foi punida. Mas não por ser uma criminosa, cafetina, aliciadora de menores. Há crime mais grave que esses. Fanny foi punida por ser uma mulher madura. Uma mulher madura que tem libido. Uma mulher madura que ousa manter um homem. Quem ela pensa que é, não é mesmo? Foi traída pelo homem que a dizia que a amava. Do jeito dele, mas amava. Imagine só se ele a odiasse, o que ele seria capaz de fazer. 

As cenas de Fanny sofrendo por Anthony são constrangedoras e, francamente, revoltantes. Ela se rasteja e se humilha para que ele não parta. Em vão. Consolada por seu fiel braço direito, Visky, ele arruma a solução: abre mão de sua paixão, o modelinho Léo, e o oferece numa bandeja para Fanny. Fanny ri, e examina o rapaz. Ele se despe. Ela quebra a quarta parede (recurso nunca usado em toda a trama), olha para a câmera e diz: 


Viralizou. Bombou nas redes sociais. Uma sociedade que não está acostumada a pensar e a valorizar suas mulheres ri e faz da misoginia meme. “Serve” virou bordão para ser adotado. Não importa que sua empresa esteja no maior sucesso em toda sua história, que Fanny estivesse prestes a se tornar uma Wilhelmina brasileira, a ter êxito profissional como ela jamais teve. Nada disso importa se Fanny não tiver um macho pra chamar de seu. 

Ao invés de comemorar sair de uma relação doentia com um cafajeste usurpador, Fanny só o supera, muito rapidamente, diga-se de passagem, ao substitui-lo por outro similar. Realmente “serve”. Serve sabe pra quê? Serve para escancarar o machismo de cada pessoa que riu dessa cena. E serve pra constatarmos como essa novela e todos os responsáveis por ela repudiam as mulheres. 

Ser mulher é realmente difícil. Ser mulher na terceira idade, mais ainda. 


Anthony 
Reynaldo Gianecchini

Modelo fracassado em fim de carreira, sem nenhum outro talento, porém astuto e maquiavélico. Gigolô sustentado por Fanny, a quem ele trai e maltrata sistematicamente, por ela ser uma mulher mais velha, mas diz sempre que a “ama, do jeito dele, mas ama”. Uma relação marcada por clara misoginia. Na verdade Anthony não ama ninguém além dele mesmo. Usa Fanny como fonte de sobrevivência e extorque dela tudo que pode, em troca oferece sua beleza.

Ao conhecer Giovanna, se encanta e inicia com ela um caso. Ao descobrir que ela na verdade é filha do milionário Alex, o procura para pedir Giovanna em casamento. Ele sabia bem que Alex jamais permitiria e o pagaria para se afastar da sua filha. Ele usa o dinheiro para alugar um flat e continuar a se encontra às escondidas com Giovanna, enganando Fanny e Alex. Juntos eles tramam de usar as informações comprometedoras que possuem de Alex para obrigá-lo a conceder a emancipação de Giovanna, que é menor de idade, e fugirem para a Europa. 

O famoso costureiro francês Maurice Argent se encanta com Anthony e oferece a Fanny lançar sua grife no país em troca de uma noite com Anthony. Traiçoeiro, Anthony aproveita a proposta indecente para fingir se sentir traído e usado por Fanny, para manipulá-la na base da culpa. Enquanto isso ele continua a se encontrar com Maurice às escondidas, já que vê nele o passaporte para concretizar seu plano de fuga. 

Acidentalmente descoberto por sua mãe almoçando com o francês, para que ela não pense mal dele, pois não há nada pior para um homem do que ser gay, ele a apresenta para Fanny. As duas senhoras educadamente trocam ofensas baseadas em idade e sexualidade. Para a lógica machista, nada mais vexatório e vergonhoso que senhoras de idade que têm uma vida sexual ativa. Machismo e homofobia sempre de mãos dadas. 

Por fim, ele concretiza seu plano de trairagem nível master: droga Fanny para que ela perca o seu momento de auge profissional, e em seguida crava de vez o punhal no peito, revelando que a está abandonando para ir viver em Paris, às custas de Maurice, e levando Giovanna à tirca-colo. Afinal ser michê aproveitador é merecedor de prêmio; ser prostituta merece a cruz. Dois pesos, duas medidas, tudo bem de acordo com a cartilha machista. 

Anthony segue a mesma risca de Alex e Giovanna. Personagens superficiais sem nenhuma virtude passível de redenção. Inumanos, inverossímeis. A única diferença entre eles é a forma com que Anthony cuida de sua mãe, sempre visitando e se certificando do seu bem estar, inclusive levando a médicos. Traz a ele um tom de humanidade, que falta a Alex e Giovanna. Mas a forma que ele a abandona sem cerimônias no fim da novela para poder ir para Paris revelam uma falha de criação de personagem mesmo, onde o seu comportamento para com a mãe destoa de todo o resto da trama. 

Em resumo, Anthony é um sociopata ordinário e desprezível. 


Fábia 
Eva Wilma

Mãe de Anthony, Fábia vive sozinha em um apartamento que ela julga minúsculo, relembrando os tempos prósperos que se foram. Fábia bebe para passar o tempo e já não sabe mais viver sem esse vício. Sustentada pelo filho, que ela enche a boca para dizer às amigas ricas que é um modelo internacional que faz todos os seus caprichos, enquanto ela na verdade não sabe como ele ganha dinheiro. 

Sente falta de companhia e principalmente falta de um companheiro. Ela conhece Oswaldo, um senhor idoso também, mas que é na verdade apaixonado por Hilda, mãe de Carolina e avó de Arlete/Angel, por quem ele move montanhas para atender. Fábia investe nesse senhor, o convida para sua casa, mas suas investidas são em vão. Em determinado momento, ela é mais direta e o pergunta: você não acha que eu tenho pernas bonitas? Ele responde: Não seja patética. 

Fábia, assim como Fanny, é uma velha. Uma velha patética. Patética por ser uma mulher velha. Patética por ser uma mulher velha e ainda ter libido. Patética por ousar demonstrar isso. Às mulheres idosas só lhes restam um amor sincero, um único namorado. E é com ele que Fábia tem sua última cena, sozinha no seu quarto de asilo, abraçada ao seu namorado escocês. Uma garrafa de uísque. 

Enquanto isso Stênio Garcia tira selfies nu com sua esposa. Ninguém o chamou de patético. 


Maurice 
Fernando Eiras

Maurice é a “bicha velha”. Detalhe, a bicha velha tem menos de 60 anos. Uma caricatura de costureiro gringo afeminado, elitista, arrogante e excêntrico. Ele vem ao Brasil lançar sua marca, e Fanny não mede esforços para conseguir organizar o desfile que vai introduzi-lo ao mercado nacional. O que ela não contava era o preço que ele cobraria: uma noite com Anthony. 

Ela também não imaginava que secretamente Anthony continuava a sair com Maurice, e arquitetava sorrateiramente seu plano de voltar para a Europa. Maurice dá a Anthony o cargo de relações públicas da sua grife e promete a Giovanna ser garota propaganda de uma linha nova da sua grife, e partem os 3 para a Paris, como um feliz triângulo amoroso. 

Que um estilista ofereça uma modelo desconhecida um trabalho importante até dá para acreditar, mas quem  daria um cargo tão importante quanto o de relações públicas a um ninguém como Anthony? Relações públicas é agora o novo nome para michê? Que derrota para a classe... 

A minha teoria: Maurice é o próprio Walcyr Carrasco. O seu alter-ego. Na verdade, seriam dois alter-egos: Maurice e Giovanna. Maurice é quem ele é, e Giovanna, quem ele gostaria de ser. Ele repudia sua própria imagem de gay velho afetado e excêntrico, e inveja mulheres. Principalmente mulheres mais velhas, da sua idade, que têm tudo aquilo que ele quer. E Fanny é sua Cristo. 

Giovanna e Maurice fazem com ela tudo o que ele gostaria de fazer: insultam, julgam, tripudiam, humilham e no fim, dão o golpe de misericórdia: roubam o seu homem. Ela não o merece. Eles, sim. 

Os únicos recompensados de toda a trama, que atingiram seus objetivos no final, foram eles três.


Em breve, a segunda parte.