quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Verdades Secretas - Parte Final

Parte 1 - Parte 2

Parte Final 


Arlete / Angel
Camila Queiroz

A protagonista da trama, Arlete é a adolescente do interior que sonha com as passarelas. Esquecida pelo pai, esnobada pelos riquinhos da escola, logo no início da novela é drogada e abusada por um deles, em uma cena onde o abuso todo é romantizado como uma linda noite de amor, e da perda da virgindade. Recrutada por uma agência de modelos, é pressionada pela dona da agência a se prostituir, que depois de relutar, ela acaba aceitando devido às dificuldades financeiras enfrentadas por sua avó, que está prestes a perder seu apartamento por causa de dívidas.

A trama de Arlete é o supra sumo do machismo. A começar, ela é uma menina menor de idade pobre do interior que inicia uma relação romantizada de abusos e assédio com um homem muito rico e muito mais velho. Deixando o romantismo do roteiro de lado, homem que paga por sexo com uma menor de idade está cometendo crime. Ponto final. 

Arlete logo se apaixona mas é esnobada pelo ricaço, que coloca os pingos nos is e diz: estou te pagando. Ela se decepciona e se afasta. Mas depois de um tempo ele muda de opinião e se diz apaixonado, e resolve tê-la a qualquer preço, então seduz e casa com a mãe de Arlete, Carolina, para assim poder ficar próximo e assediá-la a vontade. Pior ideia do mundo.

A idéia de mãe e filha disputarem um mesmo homem é tão misógina e absurda que não há sequer adjetivos para classificá-la. E não é a primeira vez que isso acontece em novelas. Só pra citar um caso recente, quem não se lembra do triângulo amoroso de Carolina Dieckmann, Vera Fisher e Reynaldo Gianecchini em Laços de Família? Para evidenciar o machismo da trama, coloquemos em perspectiva: alguém imaginaria uma novela que fosse pai e filho disputando o amor de uma mesma mulher? Impossível. 

Arlete foi julgada e castigada por todos que souberam do seu envolvimento com prostituição: 
  • Hilda, sua avó, que a mandou para morar com o pai e a nova esposa. Lá, Arlete ficou dormindo no quartinho de empregada e era maltratada pela madrasta, que inclusive contou para amigas que Arlete se prostituiu, e acabou sendo assediada por um dos amigos da família. Óbvio que Arlete foi culpada pelo incidente. Como de habitual, interações entre mulheres em enredos machistas são sempre de competição e animosidade;
  • Eziel, o melhor amigo, muy amigo, que tentou se aproveitar da situação e ofereceu dinheiro para ela transar com ele e cortou relações quando ela se recusou. Ele se sentiu rejeitado, mimimi;
  • Giovanna, a “melhor amiga”, que silenciosamente arquitetou todas as puxadas de tapete que Arlete levou.
  • Guilherme, o noivo, que a tratou como cão sarnento, pois descobriu que ele não foi o único a se deitar com ela. Inclusive é o mesmo sujeito que a estuprou no início da trama;

Depois de ser mais uma vez esnobada por Guilherme, Arlete se atira de vez nos braços de Alex e passa a dividir de fato o homem com a mãe. Quando Carolina finalmente descobre o caso dos dois (sob intervenção de Giovanna e Guilherme), e os ameça com uma arma, Arlete se joga na frente de Alex dizendo “não o mate, mãe; eu o amo”. Depois disso só restava Carolina dar um tiro na cabeça, mesmo. 

Foi preciso algo tão drástico para Arlete se dar conta do ciclo de abusos que vivia. Mais uma punição para a sua coleção. Desta vez ela foi punida pela mãe, que depositou nela a culpa do seu suicídio, quando na minha modesta opinião, o principal culpado de tudo era Alex. Ele era o lado forte e manipulador das duas relações, com a mãe e com a filha. Arlete então mata Alex (em um plano pra lá de mequetrefe) para se libertar da relação de abuso.

E para depois recomeçar, viver uma vida livre e feliz, o que Arlete faz? Vai estudar, viajar pelo mundo, investir na carreira de modelo? Claro que não. Nenhuma mulher pode ser feliz se não se casar, não é mesmo? Um homem ao seu lado é fundamental. Mesmo se ela APENAS tiver 17 anos de idade e uma vida inteira pela frente. Arlete reata e se casa com Guilherme, a outra relação extremamente doentia que ela cultivou durante a novela inteira.

Uma relação que começa com abuso sexual, abuso de poder, com desrespeito e violência jamais será amor. Mas foi o final de conto de fadas da mocinha da novela.


Alex
Rodrigo Lombardi

Alexandre Ticiano, o milionário que compra tudo e todos. Mas como todo rico caprichoso, só quer aquilo que não pode comprar. Alex é um personagem sem nuances e sem profundidade. É a própria encarnação do mal, sem quaisquer qualidades redentoras. Esnoba a prostitua menor de idade que se apaixona por ele, Angel. Após sentir falta, resolve seduzir e se casar com a mãe dela, Carolina, para se manter próximo à ela. Ideia de jerico nível master, que até poderia ter passado pela cabeça de qualquer pessoa (amoral) na situação dele por um segundo, mas só alguém muito burro para levar o plano adiante, convenhamos. Mas sem isso não teria história, nem novela.

Não existe julgamento e prisão de ricos no Brasil, apenas daqueles que são ligados ao PT. O filho do Eike Batista que o diga. Mas se a dramaturgia tem licença poética, por que não usá-la para levar Alex aos tribunais e pagar pelo crime que cometeu? Infelizmente a gente vive na sociedade em que bandido bom é bandido morto, e os exemplos que os autores de Verdades Secretas estavam dispostos a dar são os que o público já endossa. Então a morte sempre foi o destino certo de Alex.


Carolina
Drica Moraes

Mãe de Arlete, Carolina descobre que o marido mantém outra família em outra cidade. Decepcionada, ela se separa e vem com a filha morar em São Paulo na casa da mãe. Logo ela arruma um emprego de secretária em um escritório médico. Mas em uma reunião de pais e mestres ela conhece o seu príncipe encantado, Alex, pai de uma amiga da escola de Arlete. Eles logo começam a namorar e rapidamente já se casam, o que vira a vida de Carolina de cabeça para baixo devido à toda transformação social.  

Carolina é descrita como o retrato da ingenuidade, completamente alheia a tudo que a cerca. Como Everaldo, o seu ex-chefe, disse, ela é a esposa que não suspeitava que o marido tinha outra família, que não percebeu que o médico que ela assistia realizava abortos, que achava que a filha ainda era uma quase-virgem. 

Já no meu ponto de vista, o que pesava contra ela era não desconfiar que o segundo marido assediava e abusava da filha adolescente e achar Fanny uma santa. Segundo Fanny, Carolina é a classe média baixa, que acha que é dona da moral e dos bons costumes. Francamente, Fanny, essa novela inteira é a própria cartilha da moral e dos costumes, disfarçada de Cine Privê.

Carolina, por ser "a santa", é a que menos sofre de fato no processo, mas é a que leva o golpe mais duro na novela, e acaba dando um tiro na cabeça, por não aguentar tamanha trairagem.


Guilherme
Gabriel Leone

Guilherme é primo de Giovanna, sobrinho de Pia e Alex, que seduz Arlete quando ela chega em São Paulo. Assim que ela sofre a metamorfose do raio fashionizador e vira Angel, ele a leva para uma festa, que por acaso era na casa da Giovanna, e batiza a água dela, para que ela faça sexo com ele. Uma cena onde “boa noite Cinderela” vira uma linda noite de amor, onde a moça apaixonada perde a sua virgindade. No dia seguinte ele já está com outra menina na escola, uma namorada de longa data, e a esnoba solenemente. Depois que ele acaba seu relacionamento e a procura, ela então passa a evitá-lo por um bom tempo. 

Quando Giovanna convida Arlete para um fim de semana na casa de praia do pai dela em Angra, e Arlete/Angel se reencontra com Alex, descobrindo o parentesco entre ele e Giovanna, ela passa então a ceder às investidas de Guilherme novamente para se afastar do ex-cliente.

O relacionamento vai evoluindo até ele a pedir em casamento, o que enfurece Alex, que como está casado com a mãe dela, não tem como externar os reais motivos de sua reação. Giovanna, que já tinha ciúme da proximidade que o pai tinha com a enteada, passa a desconfiar da relação de Alex com Angel e arquiteta para Eziel, o ex-melhor amigo de Arlete (o que sofre bullying por ser pobre e gordo), revelar a Guilherme que ela se prostituiu.

Ao descobrir a verdade, Guilherme se decepciona e a diz:
Eu pensei que por eu ter sido seu primeiro, você tinha se ligado em mim. Você era a única que não namorava no colégio, era a mais certinha, a mais santa. Eu tinha orgulho de pensar que você tinha me esperado.
Tão comovente o orgulho ferido do macho sexista estuprador, não é mesmo, minha gente? Com esse discurso, e mais algumas falácias arcaicas grotescas similares, Guilherme diz que ela não é mais a “mulher para casar” que ele apresentou aos pais e expulsa Arlete de sua vida aos prantos e aos gritos. 

O fim da relação deixa Angel fragilizada, que vira presa fácil nas mãos de Alex, e eles acabam retomando o caso. E talvez para se vingar e ainda castigá-la mais, quando Giovanna o revela do caso entre Alex e Angel, eles dois arquitetam planos para Carolina descobrir, que ao fim terminam levando ao seu suicídio.  

E no final das contas, é com esse aprendiz de biltre calhorda machistóide que Angel termina se casando. Mais um castigo para ela?


Everaldo
Mouhamed Harfouch

Everaldo é o médico que contrata Carolina para ser sua secretária assim que ela chega em SP. Um homem tranquilo e aparentemente honesto e de boa índole. Chega a flertar com Carolina e até se ensaia um início de romance que nunca se concretiza. Depois que Carolina começa a se envolver com Alex, Everaldo some da trama e ressurge de uma forma um tanto abrupta: ele é preso.

Descobrimos que Everaldo realizava abortos, que no nosso Estado laico (sqn) ainda é crime. Uma de suas pacientes vem a falecer, o que o leva a ser detido. 

Aborto é um caso de saúde pública no Brasil. O caso de Everaldo não corresponde à realidade. É um retrato desonesto e proselitista. Pacientes de médicos qualificados não costumam morrer em um procedimento relativamente simples como esse, mas sim as pacientes de clínicas clandestinas que fazem o procedimento com cureteiros. 

Já vivemos em um país onde o aborto é altamente estigmatizado devido à forte influência religiosa na nossa sociedade. Uma novela que sequer discute o caso, que apenas usa um tema polêmico, que inclusive foi pautado nas últimas eleições, pra espelhar e fortalecer a opinião senso comum e clichê sobre o tema é um desserviço. Deseduca. Não gera debate. E quem perde com isso são as milhares de mulheres, principalmente as pobres e negras, que todos os anos recorrem a clandestinidade para realizar seus procedimentos, e acabam pagando com a própria vida. 

Já as mulheres ricas, as que têm condições financeira de recorrer a Everaldos para abortar, continuam anônimas e sãs por aí. Há duas décadas atrás, quando a Veja não existia exclusivamente para ser anti-PT, ela publicou uma capa onde diversas famosas confidenciavam terem abortado uma gravidez indesejada. Dá pra se ter uma ideia de que muito mais gente do que nós imaginamos já abortou alguma vez. Pessoas com quem convivemos diariamente e estimamos. Elas merecem a cadeia?

O cúmulo da falta de contraponto é na cena onde Carolina visita Everaldo na cadeia, levando um advogado para ajudá-lo. O advogado diz algo do tipo:
Vai ser difícil reduzir sua pena, você é culpado e tem consciência do que fez.
Fica óbvio que não existe debate, apenas uma lição de moral a se aplicar. Mas o pior de tudo é que Everaldo concorda, e pede pra falar com Carolina a sós, após essa única fala do advogado. Ele pergunta porque Carolina o está ajudando. Ela, como toda boa mocinha de novela mexicana, diz que ele foi bom pra ela, mas não o deixa de repreender e se condenar por nunca ter percebido no período em que trabalhou lá que ele fazia abortos no seu consultório. Everaldo, com olhos mareados, diz que fazia discretamente, porque tinha vergonha que ela descobrisse. Ela pergunta:
Você é um homem bom. Por que você fez isso?
Após mais alguma conversinha mole, Everaldo suplica: Me perdoa, Carolina. Ao que ela responde: 
Quem tem que te perdoar é Deus. 
Só um recado: Todos os países desenvolvidos do mundo separam a lei dos homens da lei de Deus, e dão às suas cidadãs a liberdade de escolher o que fazer com seus próprios corpos. Basta dar uma olhada no mapa-múndi da lei do aborto. Já o brasileiro cidadão de bem, cristão e moralista, aquele que se sente americano, acha “polêmico”e “inovador” quando uma novela aborda o tema, apenas para reforçar os preconceitos já existentes na sociedade.

Criminalizar o aborto jamais impedirá quem quer que seja de realizar o procedimento se achar necessário. Igual ao tráfico de drogas, mesmo criminalizando, ele vai continuar existindo pois existe demanda. Mas a criminalização impede que essas mulheres sem as devidas condições financeiras ao menos o façam com as mínimas condições de higiene e segurança. É apenas mais uma forma encontrada pela trama de castigar mulheres, por não seguirem à risca a cartilha do patriarcado. 

Para coroar a machismo e moralismo da cena, ao fim, como pretexto para poder dar a lição que Carolina precisava ouvir (Carolina, você acredita demais na bondade humana), Everaldo, aproveitando que não é mais médico e pode quebrar o sigilo, revela que quando a filha dela, Arlete/Angel, se consultou com ele, ela afirmava ter acabado de perder a virgindade, mas ele como médico pôde constatar que ela já não era virgem há muito tempo. Além de tudo, ele é fiscal da vida sexual alheia e faz associações negativas ao fato de Arlete ter uma vida sexual ativa. Pra mim, basta.


Pia
Guilhermina Guinle

Pia é a ex-mulher de Alex e mãe dos seus filhos, que moram com ela. Alex, além de pagar a pensão dos filhos, mantém o padrão de vida da ex-esposa, que obviamente fica refém dele e engole todos os sapos em troca disso. Segundo ouvimos de Alex no início da novela, em tom de recriminação, ela costuma se relacionar com os seus prestadores de serviço, como massagista, professor de tênis, de yoga, etc. Dessa vez ela está se relacionando com Igor, seu personal trainer. 

Igor diz ter sentimentos genuínos por ela, e para selar o compromisso (que ela evita para não perder a pensão do ex-marido) ele segue os conselhos de Anthony e, sem ela saber, deixa de usar camisinha nas relações sexuais entre eles para que ela engravide.

Ao descobrir estar grávida, a primeira coisa que Pia faz é avisar a Alex. Ele a avisa que não vai manter seu padrão de vida caso ela tenha o filho, já que o filho não é dele. Ela, então, toma a decisão de procurar Everaldo para interromper sua gestação. Cheia de culpa (um sentimento normal entre as mulheres que abortam), ela acaba se isolando e tomando distância de Igor por um tempo.

Ao se reaproximar de Igor, ela logo confessa sobre o aborto. Igor, indignado, reclama que ela não tinha o direito de tomar tal atitude sem antes consultá-lo. Depois de muito castigá-la, saindo também com outras mulheres, pois ele obviamente foi o grande desrespeitado da história (ironia mode on), Pia percebe que Igor é o amor da sua vida e está disposta a abrir mão do seu padrão de vida para ser feliz com ele.


Igor
Adriano Toloza

Personal trainer e amante/namorado de Pia. Ele quer oficializar o compromisso, ao contrário de Pia, que perderia a pensão polpuda de Alex caso se casasse com outro homem. Igor é amigo de Anthony, que, espírito-de-porco como ele só, o aconselha a engravidá-la para poder virar primeiro-damo de ricaça. Um golpe da barriga às avessas. Então ele passa a transar com ela sem camisinha, para que ela engravide, sem que ela saiba. Desonestidade sem tamanho.

Pia de repente muda seu comportamento e a relação esfria. Ela quer espaço, e um pouco de tempo afastada dele. Ele não compreende. Até que depois de um tempo ela abre o jogo e confessa: ela engravidou, mas não queria ter um outro filho por suas razões particulares, então decidiu por um aborto. 

De repente, o homem que arquitetou um golpe na companheira, se sentiu ofendido e traído, pois ela não quis ter o seu filho, e não o consultou para tomar a decisão, já que ele como pai deveria ter o direito de decidir. Longe de mim querer fazer julgamento moral de alguém, mas ele era a última pessoa que poderia reclamar da atitude tomada por Pia. Ele traiu sua confiança e a desrespeitou, mas sob as leis do patriarcado, a honra masculina, paterna, está acima de qualquer outra. Às favas a sua honra hipócrita, francamente... 

A partir daí ele passa a tratá-la com certo desdém, e interpreta o aborto de Pia como um descompromisso, e começa a sair com outras mulheres também. Quando Pia vê no noticiário que Everaldo foi preso, abalada, procura por Igor para desabafar e ele não a poupa de mais um sermão. Ambos lamentam o risco que ela correu, e culpam Alex por induzi-la a abortar, esse crime tão nefasto.

No último capítulo, Pia reconhece que não precisa de todo esse luxo para viver e abre mão da pensão para se casar com Igor. E foram todos felizes para sempre.


A NOVELA

  • A direção, edição, fotografia e a trilha sonora, com exceções (Los Hermanos, etc.), são de longe o ponto alto da novela. O elenco, também com exceções (Gianecchini), segura muito bem todas as cenas. Destaque para Grazi, pela surpresa. 
  • As personagens são todas introduzidas de forma estereotipada, como Giovanna, que surge julgando e depreciando a aparência e condição social de uma desconhecida, e Visky, que desnecessariamente carrega em todas as tintas pra mostrar que é um gay afeminado, quando só o visual e o tom de voz bastavam pra passar a mensagem. Menos é sempre mais.
  • O início é devagar, até a chegada de Arlete e Carolina a São Paulo, quando novas personagens e núcleos são introduzidos, aí o ritmo fica mais acelerado. Cria um bom contraste entre o ritmo da vida do interior e da capital, a agitação do mundo da moda, e as mudanças que elas sofrem. 
  • A história fica mais instigante a partir do momento que Arlete entra na agência de modelos, mas depois que o Guilherme acaba o noivado com a ela, a trama fica exponencialmente mais moralista, piorando muito. 
  • O pai de Arlete (Tarcísio Filho), que até os dois primeiros capítulos era um bom pai, inclusive incentiva a filha a perseguir seus objetivos, após a separação vira um interesseiro que só procura a família por dinheiro. Um tanto incongruente, já que como ele não precisa mais sustentar duas famílias, sua condição financeira deveria mudar muito. 
  • A nova esposa dele, Viviane, é outro exemplo de personagem feminina mal construída e rotulada, a barraqueira vulgar e insinuante, que vive sempre em uma nota só. 
  • "Eu quero me vingar do amor que ele sente pela Angel e que ele nunca sentiu por mim". Essa é uma fala realmente dita por Giovanna. Ela é o cúmulo da inveja, e é guiada por isso, sem nenhum pudor em expor. Pessoas normalmente não expõem esse tipo de sentimento e motivação, porque isso é altamente repreensível no convívio em sociedade. Pessoas nocivas assim seriam solitárias pois repelem as outras pessoas com tanta negatividade. 
  • O mundo da moda é muito mal retratado. O dia-à-dia da agência também não corresponde à realidade: pouco funcionário, apenas um booker, além de todos aqueles modelos que não têm vida própria e batem ponto todo dia na agência. 
  • As mulheres todas da tramas são tratadas por adjetivos depreciativos: Arlete/pobre/jeca/puta, Carolina/pobre/jeca/cafona, Fanny/velha, Fábia/velha/patética/bêbada, Larissa/puta/drogada, Lourdeca/gorda, etc. 
  • Além disso, as mulheres (e os gays) estão sempre disputando homens entre si: Arlete x Carolina (Alex), Arlete x Patrícia (Guilherme), Giovanna x Fanny (Anthony), Fanny x Maurice (Anthony), Visky x Lourdeca (Léo). Carolina diz "você roubou o meu marido" à nova esposa do ex-marido. Pia diz "estou namorando um homem mais jovem, tem tanta periguete solta por aí que a gente tem que tomar cuidado". A novela jamais passaria no teste de Bechdel
  • Todos os relacionamentos gays da trama (Sam e Bruno, Léo e Visky, Anthony e Maurice) são exemplos negativos das possibilidades de relações homoafetivas. Devido à falta de representatividade de gays e relacionamentos gays na teledramaturgia, trazer apenas exemplos negativos é um reforço ao preconceito. 
  • Crimes como assédio moral são banalizados nas relações de trabalho e vistos de maneira cômica na trama, igual a relação que Félix mantinha com a sua secretária em Amor à Vida
  • A abordagem da prostituição só serve pra estigmatizar e crucificar ainda mais as prostitutas. Jamais se discute porque tantas mulheres são forçadas a viver dela. As prostitutas são sempre apedrejadas, mas elas não existiriam se não houvesse quem pagasse. Ou seja, o sistema cria uma classe de pessoa apenas para discriminar, sem se responsabilizar por isso. Arlete é a única que justificou seus motivos, mas mesmo assim foi flagelada em praça pública a trama inteira por isso. As modelos do book rosa são sempre "desmascaradas" e vilanizadas por isso, tendo uma outra vítima (sempre um homem) que se traumatiza e sofre com isso (como Bruno e Guilherme, que sofrem ao descobrir que suas amadas se prostituíam, mas o outro lado da história nunca foi devidamente mostrado). 
  • Quando Bruno, filho de Alex e Pia, se vicia em cocaína, ele rouba o anel da mãe para comprar mais droga.  Pia, a mãe, mesmo sem provas, culpa a sua empregada doméstica pelo furto, demitindo-a. Quando a situação se esclarece, Pia readmite a empregada, que volta ao antigo emprego de bom grado. No mínimo um mau exemplo em como lidar com esse tipo de episódios. De ambas as partes.
  • Sam, o aspirante a modelo que trafica drogas, não corresponde a um traficante desse meio de playboys e mauricinhos, já que aceita pagamento em celular, anel, relógio, etc. 
  • O autor repete o mau tratamento de temas como herança, vida sexual de pessoas na terceira idade e de pessoas gordas (sempre ridicularizando), como ele fez em Amor à Vida, sua novela anterior. Lourdeca é uma versão mais ácida, mal humorada e sem carisma de Perséfone, por exemplo. 
  • Depois do suicídio da mãe, para se libertar de Alex, Arlete o assassina quando os dois saem para passear sozinhos de iate. Ela atira diversas vezes nele e joga corpo no mar. Limpa o barco e chama por socorro. Depois alega à polícia que ele escorregou, bateu a cabeça e caiu no mar. Nem polícia de conto de fada ia deixar passar um crime tão mal arquitetado, convenhamos.

Como conclusão, deixo esse parágrafo escrito pela jornalista Vanessa Rodrigues, que concordo em sua totalidade:

Sinto-me bastante desapontada quando vejo uma trama que se pretende mais contemporânea repetir os mesmo clichês, ainda que numa roupagem bonita e bem cortada de grife. Mais uma vez, o que vimos foi muito proselitismo. Em grande medida e, principalmente em seu final, Verdades Secretas parece ter sido um grande panfleto conservador, com discurso anti-drogas, anti-prostituição e anti-aborto baseados no senso comum, religioso, com aspectos racista, machista e moralista. Um panfleto com nudes, é verdade. Mas, um panfleto, no final das contas.

Um comentário:

  1. Como desde "Sangue Bom" só tenho visto últimos capítulos, nem posso julgar muito. Esperava ver alguma citação às enormes "fotocópias" de cenas e filmes hollywoodianos que devem ter havido na novela.
    Só pelas análises feitas aqui, já fiquei curioso. Deve valer a pena rir da quantidade enorme de clichês! Talvez um dia.

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