domingo, 11 de outubro de 2015

Verdades Secretas - Parte 2


Segunda parte da minhas considerações sobre a novela Verdades Secretas.


Larissa 
Grazi Massafera

A modelo que se frustra com a falta de sucesso, e por fazer mais programas do que desfiles, Larissa acaba se perdendo nas drogas. Larissa tem um caso com Sam, o modelo da agência que também trafica drogas, mas quando seu vício piora e ele não pode mais atender suas necessidade, ela o troca por Roy, um ex-modelo que a leva para o caminho do crack.

Larissa se afasta da família, dos amigos, perde os clientes, tudo em nome vício. Vai parar na rua, na cracolândia. Chega ao fundo do poço. Em uma determinada cena ela é expulsa de uma loja e acaba se vendo no espelho, e se choca com a imagem que vê, com o que ela se tornou. Ela passa a ter consciência de que finalmente chegou no fundo do poço.

Mas para os autores da novela nada disso é suficiente para que Larissa procure forças para sair da cracolândia. Ela precisa ser castigada. E a justiça tarda, mas não falha. Larissa é estuprada por diversos homens em um vagão de trem abandonado.

O estupro é que faz Larissa de fato acordar e procurar ajuda. Dá até pra comparar com o estupro corretivo, aquele que muitos homens fazem com lésbicas, para que elas se curem da homossexualidade. A sociedade patriarcal adota violência até como profilaxia, para justificar seus preconceitos e sua sordidez. Larissa se atira ao chão e suplica para que os homens de Deus a salvem, como Maria Madalena pedindo misericórdia a Jesus.

A prefeitura de São Paulo é reconhecida por fazer um trabalho de recuperação da cracolândia e ressocialização dos usuários da droga, mas nada disso é sequer mencionado na novela. E onde o Estado não está, outra instituição ocupa a sua função. O socorro de Larissa vem pela religião, dos evangélicos que trocam comida pela salvação.

E esses homens ao socorrerem uma mulher debilitada e frágil, que acabara de ser estuprada, o que fazem? A levam para o hospital, para se limpar, tomar um banho, ser examinada? Não. Não sem antes de pedir perdão a Deus e aceitar Jesus em sua vida. Larissa depois, esqueceu da família, dos seus sonhos. da carreira de modelo, e se tornou também mais uma missionária da fé.


Lyris 
Jéssica Córes

Lyris é a única personagem negra da trama. Logo no início da novela, em um diálogo entre Angel e Fanny, onde Angel se recusa a fazer o book rosa, alegando que algumas modelos também não o fazem, como a Lyris, Fanny deixa claro que ela só está no casting por causa das cotas raciais que as agências precisam atender para fazer média no mercado. Racismo evidente, que nunca é problematizado pela trama. Um pouco mais tarde, Lyris chega surrada à agência e acusa ter sido estuprada por Alex. Ela se recusa a prestar queixa, o que é até comum com vítimas de violência, devido à vergonha e ao trauma. O assunto quase morre na trama, salvas as poucas ocasiões onde Angel joga isso na cara de Alex.

Mais tarde o assunto volta à tona na novela para que seja revelado: após o noivo de Lyris tentar assassiná-lo e se sentindo rejeitado por Angel, Alex exige que Fanny faça com que Lyris conte a verdade à Angel e ao noivo, ou então ele denunciaria à polícia o esquema de prostituição da agência (estranho que não passa pela cabeça de Fanny contra-chantagear Alex que ela poderia também delatar a polícia os clientes assíduos das suas pupilas, inclusive aqueles que têm preferência pelas prostitutas menores de idade, como o próprio Alex).

Então Lyris revela: ela nunca foi estuprada de fato. Ela na verdade topou fazer programa com Alex, e pelo estado em que apareceu na agência, inventou essa desculpa pois se viu pressionada a dar uma justificativa ao noivo, que jamais aceitaria que ela tivesse feito programa. Uma desculpa, digamos, tosca, pois Alex seria obviamente confrontado do crime, e negaria. Ela poderia ter alegado mil outras coisas, que foi estuprada ou agredida por desconhecidos na rua, etc.

Estupro é uma questão séria de violência que amedronta todas as mulheres. No Brasil, 1 mulher a cada 11 minutos é estuprada. Além de ser um problema social grave, é um tema quase nunca abordado pela teledramaturgia brasileira. Em um raro momento onde isso acontece, não passa de uma farsa, que corrobora com o senso comum machista que toda mulher estuprada tem que enfrentar nas delegacias de polícia – que ela está mentindo. Pura misoginia dos autores prestar tal desserviço às mulheres, quando eles, mais uma vez, têm a oportunidade de educar o seu público.

Nos últimos capítulos, o noivo de Lyris, Edgar, vê um homem estranho se aproximando dela, e interpreta que ela está novamente se prostituindo. Sem lhe dar a devida chance de defesa, ele a esfaqueia e mata na presença de todos, na porta do Museu Afro Brasileiro, uma ironia, acima de tudo, ofensiva.

Uma morte sem sentido, sem propósitos dramatúrgicos, já que a única coisa que poderia ser esclarecida com a situação seria desmascarar o esquema de prostituição, que inclui menores de idade, montado por Fanny, mas isso não acontece. Lyris foi punida por ter se prostituído. Foi punida por ser mulher. Nenhum dos homens que fizeram programas na trama foram sequer confrontados, mas Lyris foi assassinada.

Lyris foi vítima do machismo da trama, do seu racismo, castigada por ter “se vendido”, o pecado mais grave que qualquer mulher possa cometer à sua honra, segundo a cartilha do patriarcado.


Visky 
Rainer Cadete

Em sua primeira cena, quando Arlete visita a agência de modelos, Visky dispara todas as gírias do seu dialeto gay como uma metralhadora, corre, ri histrionicamente, faz pose no sofá, ofende a gorda que trabalha com ele, destila veneno, chama a modelo magérrima de fabulosa (ou adjetivo que o valha), dá em cima do modelo bonitão, e grita, aumenta o som, dança, bate cabelo, desfila de salto alto e “faz carão” ao tocar Tulipa Ruiz no som. Tudo isso na frente de desconhecidos, no que seria uma reunião de trabalho para sua agência para recrutar um talento promissor, e em menos de 2 minutos de cena.

Ou seja, Visky, a libélula desvairada (alcunha que ele detesta, mas o chamam mesmo assim), não é uma pessoa, mas um compêndio de todos os estereótipos do gay afeminado batidos no liquidificador. O pastiche gay mais antigo usado em dramaturgia para representar a homossexualidade, e uma cópia pobre e fora do armário de Félix de Amor à Vida, do próprio Walcyr Carrasco, se é que Félix esteve no armário em algum momento (ui, abafa! Abafa!).

Visky apenas diverge do pastiche tradicional (assunto tão brilhantemente abordado no documentário The Celluloid Closet, que sempre recomendo) que ele não é assexuado. Mas esse é outro aspecto bastante problemático dessa personagem.

Visky é apaixonado por um modelo hétero bonitão da agência, Léo, assim como Lourdeca, a contadora gorda. Como o machismo afeta a todos, gays afeminados passam a ser competição das mulheres também, e Visky e Lourdeca têm um richa, envolvendo intermináveis e degradantes trocas de ofensas, e uma aposta por um homem-objeto, que na verdade esnoba os dois.

E como mulher gorda e gay afeminado não têm tipo, têm pressa, pois são o que há de mais desprezível e bizarro na fauna da novela, resta a eles se relacionarem entre si, para não ficar no 0x0, em cenas “hilárias” para o deleite do público, tão acostumado ao riso fácil, oriundo da humilhação dos bobos da corte.

Lourdeca
Dida Camero

A contadora da agência de modelos, que para fins obviamente “cômicos” é colocada do lado da porta de entrada da agência, como uma recepcionista. Ou seja, ela é o cão raivoso que recebe a todos com uma patada, principalmente desconhecidos. Um belo cartão de visita... Vive de trocar ofensas com Visky, o booker gay afetado que prepara e acompanha as modelos, e desejar Léo, o modelo bonitão.

Óbvio que Léo não tem olhos para ela, apesar de alimentar o seu desejo. E nem para Visky, e nessa hora eles se esquecem da sua richa e choram suas mágoas juntos, em encontros que sempre acabam na cama, criando cenas pseudo-cômicas, como expliquei ao falar de Visky.


Léo
Raphael Sander

Modelo da Fanny models, Leo é o objeto do desejo de Visky e Lourdeca. Ele deixa claro que jamais nada acontecerá entre eles, mas toma atitudes e adota comportamentos que levam a se interpretar o contrário. O famoso morde e assopra. Com isso ele se aproveita da situação para fechar trabalhos com Visky e conseguir pagamentos antecipados com Lourdeca. Léo é na verdade um projeto de Anthony, tanto é que após Anthony largar Fanny, Visky o entrega embrulhado pra presente à Fanny para que ela esqueça Anthony.

A importância que vejo em Léo é que ele é um exemplo claro os "dois pesos, duas medidas" com que a trama trata suas personagens. Em determinado momento ele confessa a Lourdeca que faz o tal book azul, ou seja, também faz programas, como muitas das modelos mulheres. Mas ao contrário delas, como Arlete/Angel, Larissa e Lyris, ele jamais é punido, ou sequer constrangido, por suas ações e escolhas.

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