sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Verdades Secretas - Parte 1


Verdades Secretas foi a novela das 23hs que terminou recentemente. Repercutiu imensamente entre meu círculo social e de trabalho. Devido à uma licença médica, tive tempo sobrando em casa e decidi conferir a novela, assistindo todos os capítulos pela internet. 

Enquanto assistia, eu ia anotando em tópicos observações sobre a novela. Quase todas observações negativas. Minha decepção foi grande, principalmente devido ao conteúdo tão pouco agregador da trama. Tanto que escrevi esse post no meu perfil do facebook:
Todos que comentaram exaustiva e repetidamente Verdades Secretas, louvando tanta excelência, inovação e "quebra de paradigmas", me fazendo dar uma chance e ver de novo algo escrito por Walcyr Carrasco, desejo a todos vocês uma noite bem longa de piriri reinante no trono.

Nunca vi nada tão clichê, estereotipado, moralista, misógino, etarista, elitista e coxinha quanto essa novela odiosa, horrorosa, rasa e sórdida. Um desserviço às mulheres, à moda, a vítimas de estupro e abuso, a negros, a gays e a minorias e direitos humanos em geral. Um LI-XO. Lixo.
Roque Santeiro, saudades.

Então resolvi fazer esse post, onde dou pormenores dá minha drástica opinião. Selecionei as personagens mais importantes da trama, ao meu ver, para desenvolver minhas impressões sobre a trama e fiz uma observação da novela como um todo a parte, que virá por último. Adianto que é um texto cheio de spoilers, e mais indicado para aqueles que já viram a novela, ou para aqueles que sabem do que a novela trata e não querem assisti-la, apenas constatar impressões.

Para não ficar um post gigantesco, estou dividindo em três partes.


Giovanna 
Ágatha Moreira

Filha de Alex, Giovanna nos é apresentada pela primeira vez reproduzindo todos os estereótipos da menina rica, mimada e elitista: se aproximando de uma desconhecida, Arlete, a aluna novata da escola, para julgar em alto e bom som, para que todos pudessem ver e ouvir, o seu visual, classificando-a como “pobre”. Uma cópia sem metáfora da cena das flores malvadas de Alice no País das Maravilhas, pois o pior que pode acontecer para uma mulher é estar mal vestida. 

Giovanna decide que quer ser modelo após a metamorfose de Arlete, e procura a mesma agência que a rival. Lá descobre todos os segredos de Arlete/Angel, e ao contrário de Arlete, aceita com muita satisfação se prostituir, mas acaba sendo mandada para um encontro com seu próprio pai, quando tudo desmorona. A partir de então, finge uma amizade com Arlete, para depois usar tudo a seu favor, capitalizando e punindo a rival por conseguir tudo que ela queria. Na verdade Giovanna nunca soube o que quis, inclusive ela só descobre que quer o amor do pai depois de saber que ele tem um caso com Angel. 

Inicia um relacionamento com Anthony, o modelo internacional fracassado, decadente e obsoleto, sustentado por Fanny Richard, a dona da agência, a quem ela ofende e afronta sem fazer qualquer cerimônia. Com ele, Giovanna trama fugir para o exterior. Como ela é menor de idade, arquiteta com ele formas de usar as informações comprometedoras que colecionam para chantagear pessoas, até mesmo do próprio pai, e conseguirem o que querem, inclusive se emancipar da família. 

Assim como o Alex, Giovanna não tem qualidades redentoras. É só odiosa, invejosa e egoísta. Quando descobre que o pai tem um caso com sua rival, por inveja e ciúmes, arma planos para que Carolina acidentalmente descubra também. Como todos falham, ela mesma se encarrega de contar toda a verdade para a madrasta, o que termina levando ao suicídio de Carolina. Não vemos Giovanna no velório de Carolina e jamais sabemos se ela sentiu culpa por isso. Por ser uma personagem obviamente inverossímil e rasa, provavelmente não sentiu nada. É disparada a pior personagem feminina da novela, a mais cínica e vil. 

Curiosamente, foi a única mulher que não foi punida em toda a trama. Seu desfecho na verdade foi um prêmio: foi embora com o namorado da “velha” Fanny para Paris, ser garota propaganda de uma grife famosa, realizar o seu sonho de infância. Sonho esse que ela na verdade nuance teve, invejou e roubou da rival. 


Fanny 
Marieta Severo

Fanny é a dona da Fanny Models, agência pequena que tira maior parte de seu lucro do book rosa, o catálogo de modelos que também se prostituem. Fanny sobrevive de uma relação conflituosa, marcada por subornos e chantagens com o milionário Alex, que eventualmente contrata suas modelos para catálogos e desfiles de suas empresas e principalmente para programas. Ele se encanta por Angel, a quem ela obriga a se prostituir, ou não investiria na sua carreira de modelo, e usa a dificuldade financeira da sua família como chantagem emocional para convencê-la. 

Fanny também tem um relacionamento amoroso conturbado com Anthony, ex-modelo fracassado que ela sustenta. O bom e velho gigolô. Ele a humilha de todas as formas possíveis, por ela ser mais velha, e a trai com frequencia. Com o argumento de que ele a ama, do jeito dele, mas a ama, e que na idade dela, ela não conseguiria outro igual a ele, ele sempre a convence a mantê-lo. 

Ela não só o sustenta, como também a sua mãe, Fábia. Quando Giovanna, com inveja de Angel, procura a agência para tentar ser modelo, ela logo é cooptada por Fanny, que não tem trabalho em convencê-la de fazer o book rosa. O que Fanny não esperava é que ela se envolvesse com Anthony, criando um triângulo amoroso e uma richa eterna entre as duas. 

Quando Fanny finalmente consegue realizar o evento que vai colocar sua agência entre as grandes do mercado nacional, lançando uma grife estrangeira no Brasil, Anthony a droga e a impede de ir ao evento. Ao acordar, ele afirma que o fez pensando nela, pois o francês não queria dividir holofotes com ela, e evitou um possível escândalo. Além disso ele revela que a está abandonando para ir morar em Paris com Maurice e Giovanna.

Fanny foi punida. Mas não por ser uma criminosa, cafetina, aliciadora de menores. Há crime mais grave que esses. Fanny foi punida por ser uma mulher madura. Uma mulher madura que tem libido. Uma mulher madura que ousa manter um homem. Quem ela pensa que é, não é mesmo? Foi traída pelo homem que a dizia que a amava. Do jeito dele, mas amava. Imagine só se ele a odiasse, o que ele seria capaz de fazer. 

As cenas de Fanny sofrendo por Anthony são constrangedoras e, francamente, revoltantes. Ela se rasteja e se humilha para que ele não parta. Em vão. Consolada por seu fiel braço direito, Visky, ele arruma a solução: abre mão de sua paixão, o modelinho Léo, e o oferece numa bandeja para Fanny. Fanny ri, e examina o rapaz. Ele se despe. Ela quebra a quarta parede (recurso nunca usado em toda a trama), olha para a câmera e diz: 


Viralizou. Bombou nas redes sociais. Uma sociedade que não está acostumada a pensar e a valorizar suas mulheres ri e faz da misoginia meme. “Serve” virou bordão para ser adotado. Não importa que sua empresa esteja no maior sucesso em toda sua história, que Fanny estivesse prestes a se tornar uma Wilhelmina brasileira, a ter êxito profissional como ela jamais teve. Nada disso importa se Fanny não tiver um macho pra chamar de seu. 

Ao invés de comemorar sair de uma relação doentia com um cafajeste usurpador, Fanny só o supera, muito rapidamente, diga-se de passagem, ao substitui-lo por outro similar. Realmente “serve”. Serve sabe pra quê? Serve para escancarar o machismo de cada pessoa que riu dessa cena. E serve pra constatarmos como essa novela e todos os responsáveis por ela repudiam as mulheres. 

Ser mulher é realmente difícil. Ser mulher na terceira idade, mais ainda. 


Anthony 
Reynaldo Gianecchini

Modelo fracassado em fim de carreira, sem nenhum outro talento, porém astuto e maquiavélico. Gigolô sustentado por Fanny, a quem ele trai e maltrata sistematicamente, por ela ser uma mulher mais velha, mas diz sempre que a “ama, do jeito dele, mas ama”. Uma relação marcada por clara misoginia. Na verdade Anthony não ama ninguém além dele mesmo. Usa Fanny como fonte de sobrevivência e extorque dela tudo que pode, em troca oferece sua beleza.

Ao conhecer Giovanna, se encanta e inicia com ela um caso. Ao descobrir que ela na verdade é filha do milionário Alex, o procura para pedir Giovanna em casamento. Ele sabia bem que Alex jamais permitiria e o pagaria para se afastar da sua filha. Ele usa o dinheiro para alugar um flat e continuar a se encontra às escondidas com Giovanna, enganando Fanny e Alex. Juntos eles tramam de usar as informações comprometedoras que possuem de Alex para obrigá-lo a conceder a emancipação de Giovanna, que é menor de idade, e fugirem para a Europa. 

O famoso costureiro francês Maurice Argent se encanta com Anthony e oferece a Fanny lançar sua grife no país em troca de uma noite com Anthony. Traiçoeiro, Anthony aproveita a proposta indecente para fingir se sentir traído e usado por Fanny, para manipulá-la na base da culpa. Enquanto isso ele continua a se encontrar com Maurice às escondidas, já que vê nele o passaporte para concretizar seu plano de fuga. 

Acidentalmente descoberto por sua mãe almoçando com o francês, para que ela não pense mal dele, pois não há nada pior para um homem do que ser gay, ele a apresenta para Fanny. As duas senhoras educadamente trocam ofensas baseadas em idade e sexualidade. Para a lógica machista, nada mais vexatório e vergonhoso que senhoras de idade que têm uma vida sexual ativa. Machismo e homofobia sempre de mãos dadas. 

Por fim, ele concretiza seu plano de trairagem nível master: droga Fanny para que ela perca o seu momento de auge profissional, e em seguida crava de vez o punhal no peito, revelando que a está abandonando para ir viver em Paris, às custas de Maurice, e levando Giovanna à tirca-colo. Afinal ser michê aproveitador é merecedor de prêmio; ser prostituta merece a cruz. Dois pesos, duas medidas, tudo bem de acordo com a cartilha machista. 

Anthony segue a mesma risca de Alex e Giovanna. Personagens superficiais sem nenhuma virtude passível de redenção. Inumanos, inverossímeis. A única diferença entre eles é a forma com que Anthony cuida de sua mãe, sempre visitando e se certificando do seu bem estar, inclusive levando a médicos. Traz a ele um tom de humanidade, que falta a Alex e Giovanna. Mas a forma que ele a abandona sem cerimônias no fim da novela para poder ir para Paris revelam uma falha de criação de personagem mesmo, onde o seu comportamento para com a mãe destoa de todo o resto da trama. 

Em resumo, Anthony é um sociopata ordinário e desprezível. 


Fábia 
Eva Wilma

Mãe de Anthony, Fábia vive sozinha em um apartamento que ela julga minúsculo, relembrando os tempos prósperos que se foram. Fábia bebe para passar o tempo e já não sabe mais viver sem esse vício. Sustentada pelo filho, que ela enche a boca para dizer às amigas ricas que é um modelo internacional que faz todos os seus caprichos, enquanto ela na verdade não sabe como ele ganha dinheiro. 

Sente falta de companhia e principalmente falta de um companheiro. Ela conhece Oswaldo, um senhor idoso também, mas que é na verdade apaixonado por Hilda, mãe de Carolina e avó de Arlete/Angel, por quem ele move montanhas para atender. Fábia investe nesse senhor, o convida para sua casa, mas suas investidas são em vão. Em determinado momento, ela é mais direta e o pergunta: você não acha que eu tenho pernas bonitas? Ele responde: Não seja patética. 

Fábia, assim como Fanny, é uma velha. Uma velha patética. Patética por ser uma mulher velha. Patética por ser uma mulher velha e ainda ter libido. Patética por ousar demonstrar isso. Às mulheres idosas só lhes restam um amor sincero, um único namorado. E é com ele que Fábia tem sua última cena, sozinha no seu quarto de asilo, abraçada ao seu namorado escocês. Uma garrafa de uísque. 

Enquanto isso Stênio Garcia tira selfies nu com sua esposa. Ninguém o chamou de patético. 


Maurice 
Fernando Eiras

Maurice é a “bicha velha”. Detalhe, a bicha velha tem menos de 60 anos. Uma caricatura de costureiro gringo afeminado, elitista, arrogante e excêntrico. Ele vem ao Brasil lançar sua marca, e Fanny não mede esforços para conseguir organizar o desfile que vai introduzi-lo ao mercado nacional. O que ela não contava era o preço que ele cobraria: uma noite com Anthony. 

Ela também não imaginava que secretamente Anthony continuava a sair com Maurice, e arquitetava sorrateiramente seu plano de voltar para a Europa. Maurice dá a Anthony o cargo de relações públicas da sua grife e promete a Giovanna ser garota propaganda de uma linha nova da sua grife, e partem os 3 para a Paris, como um feliz triângulo amoroso. 

Que um estilista ofereça uma modelo desconhecida um trabalho importante até dá para acreditar, mas quem  daria um cargo tão importante quanto o de relações públicas a um ninguém como Anthony? Relações públicas é agora o novo nome para michê? Que derrota para a classe... 

A minha teoria: Maurice é o próprio Walcyr Carrasco. O seu alter-ego. Na verdade, seriam dois alter-egos: Maurice e Giovanna. Maurice é quem ele é, e Giovanna, quem ele gostaria de ser. Ele repudia sua própria imagem de gay velho afetado e excêntrico, e inveja mulheres. Principalmente mulheres mais velhas, da sua idade, que têm tudo aquilo que ele quer. E Fanny é sua Cristo. 

Giovanna e Maurice fazem com ela tudo o que ele gostaria de fazer: insultam, julgam, tripudiam, humilham e no fim, dão o golpe de misericórdia: roubam o seu homem. Ela não o merece. Eles, sim. 

Os únicos recompensados de toda a trama, que atingiram seus objetivos no final, foram eles três.


Em breve, a segunda parte.

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