domingo, 22 de fevereiro de 2015

Indicados ao Oscar 2015 // Boyhood

Feitiço do Tempo

Boyhood

Nota: 10


Richard Linklater é desses diretores que gravitam entre diversos estilos. O filme que o trouxe notoriedade foi Jovens, Loucos e Rebeldes, uma espécie de American Grafitti, Vidas Sem Rumo ou Picardias Estudantis dos anos 90, que revelou nomes como Matthew McConaughey, Bem Affleck, Milla Jovovich e ainda tinha Renée Zellwegger numa ponta. Eu, particular- mente, acho o filme um lixo pró-bullying. Só a trilha sonora classic rock se salva. Mas já no filme seguinte ele deu um giro de 180 graus e filmou um romance quase minimalista, o cult Antes do Amanhecer com Ethan Hawke e a francesa Julie Delpy, que desde então colecionou fãs e ganhou duas sequências, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite. Outro de seus filmes bem conhecidos é A Escola do Rock, com Jack Black. Mas, sem dúvida, Boyhood é (e provavelmente será) o seu Magnum Opus.

O que muita gente não sabia é que durante vários anos, e a filmagem de vários dos seus filmes, ele tinha um projeto em paralelo que ele filmou aos poucos por 12 anos. Boyhood é sobre a transição entre a infância e a idade adulta de um garoto. Sua vida familiar, escolar, a relação com os pais, a irmã, as frequentes mudanças da adolescência.

O filme não tem grandes acontecimentos e momentos de tensão ou catarse. Ele encanta pela simplicidade. Por como o cinema pode ser um veículo de identificação, onde a gente pode assistir não só robôs, alienígenas, monstros, crimes hediondos, planos mirabolantes, mas ver pessoas com vidas comuns, com cotidianos como o seu e o meu.

Vários são os aspectos louváveis do filme. A ousadia de se passar 12 anos construindo uma história, conseguindo a confiança e o comprometimento de uma equipe inteira em embarcar nesse projeto, que não tinha um enredo, um financiamento sólido, um final estabelecido, não é uma realização fácil. Um projeto bem arriscado, mas Linklater sabia bem do que fazia. O fato de a produção ser tão espalhada por anos, simplicidade era a palavra-chave do sucesso. É tão singelo que em vários momentos a gente acredita estar vendo uma fita amadora de festa de família. Inventar situações complicadas e extraordinárias em que a equipe tivesse de lidar durante um período tão extenso de tempo provavelmente iria causar dispersão, perda do foco e do interesse. Além de descartar todas as sutilezas que a passagem do tempo por si só traz.

Patricia Arquette brilha como a esforçada mãe de família, que tropeça em si mesma na ânsia em acertar. Ethan Hawke, como o pai amoroso, porém infantil, que vai encontrando seus próprios eixos, tem provavelmente seu papel mais simpático na carreira. E as transformações de Lorelei Linklater e principalmente de Ellar Coltrane vão muito além do físico. Testemunhamos crianças talentosas se transformando em atores, entre tantos outros aspectos. Os exemplos de atores infantis que não conseguiram ou se perderam na transição para a carreira adulta são incontáveis, e talvez eles acertaram na loteria com esse filme, que não os limitou à uma só imagem.

A aclamação praticamente universal mostra bem o que Boyhood significa hoje para o cinema, e para a indústria. O futuro é difícil de antecipar, mas acho que se há um filme da safra desse ano que pode perdurar e virar clássico, esse filme é Boyhood, que inova por não tentar inovar. É um dos favoritos ao Oscar esse ano, e polariza opiniões com Birdman. Recebeu seis indicações ao Oscar, incluindo filme, direção e roteiro original, e com uma premiação de Arquette como coadjuvante praticamente já confirmada. Não é o mais indicado do ano, justamente por não ter excessos técnicos que o qualificassem para tais categorias, mas tudo o que é necessário para um filme existir, comunicar, e encantar está lá.

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