sexta-feira, 23 de maio de 2014

Crítica de Praia do Futuro

Horizonte Perdido

Praia do Futuro

Nota: 8,5


O cinema nacional não é dos meus favoritos, infe- lizmente. Acho que talen- to no Brasil existe de sobra (eu incluso, rs). Faltam incentivos e in- vestimentos para que se construa uma indústria de fato. A gente logo reco- nhece um filme nacional pelos milhares de anún- cios de patrocinadores bem no início, quase to- dos órgãos públicos que distribuem incentivos à cultura. Não há planejamento para se construir produtora e estúdios de fato como no exterior, além da Globo Filmes. E essa falta de investimentos é notável, no nível de capacitação profissional, especialmente na área de roteiros. Nem as novelas, que outrora eram referência mundial, conseguem mais atingir o alto nível de antes. Basta só dar uma olhada no canal Viva e ver Dancin’ Days, de 1978. Ela dá um banho em todas as demais produções atuais, e boa parte daquele elenco ainda atua hoje em dia, mas infelizmente não tem um material à altura para trabalhar. E acho que o roteiro é o tendão de Aquiles dessa nova aventura do diretor Karim Aïnouz também.

Praia do Futuro, nome de uma idílica praia cearense, conta a história de Donato, um salva-vidas de origem humilde, muito ligado ao irmão mais novo e a mãe (muito mencionada, mas que nunca aparece), que numa missão consegue resgatar uma vítima de afogamento, mas perde outra. Isso o afeta profundamente, mas também cria uma cumplicidade entre ele e a vítima sobrevivente, o turista alemão Konrad, e eles acabam se envolvendo afetivamente. O que o leva a largar tudo para o alto e ir para Alemanha sem dar mais notícias.

O roteiro aposta em poucos diálogos. Muitos silêncios, olhares e gestos, que são marca registrada de cineastas orientais, e alguns europeus, mas não dos nossos. Brokeback Mountain, dirigido pelo taiwanês Ang Lee, e Felizes Juntos, do chinês Wong Kar-Wai, são magistrais nesse aspecto. E o filme se assemelha muito a Brokeback. A cena da discussão entre Donato e Konrad, inclusive, parece até cópia dos desentendimentos entre Jack Twist e Ennis Del Mar, mas bem aquém do ‘rival’. O que livrou Praia da comparação completa foi o ressurgimento do irmão da metade do filme em diante, que muda o rumo da história.

A fragmentação em capítulos enfraquece o filme como unidade. É como se estivéssemos vendo curtas-metragens, ou episódios de uma minissérie. Por ser um filme de menos de uma 2 horas, essas divisões me pareceram desnecessárias. Sem elas a história seria mais coesa, e o público facilmente entenderia os saltos de tempo e mudanças de ambientes também.

A familiaridade com as línguas foi algo que me incomodou também. Posso estar enganado, mas o ator alemão não parecia saber português. Ele parecia ter decorado suas falas, e pronunciava algumas delas de forma incompreensível. O mesmo talvez possa ser dito a respeito de Moura, mas ele teve bem menos diálogos em alemão. De um ponto em diante do filme, parece que resolveram abandonar essa tática de verossimilhança e deixar os atores falar nas línguas que se sentiam mais confortáveis, mesmo criando diálogos bi, e até, trilíngues. 

A fotografia é bela, especialmente nas cenas na Alemanha, e nas tomadas com as motos. Já a fotografia do Ceará me pareceu menos cuidada. Ficou a sensação de que o Ceará era menos belo do que deveria ser, apesar de esse contraste servir à jornada de Donato, sua mudança. Pode ser um elemento criativo válido, um contraponto importante, de como um lugar tão belo pode se tornar feio, e a Alemanha a sua Shangri-La.

Como designer gráfico, posso opinar que não entendi a escolha da paleta de cores e fonte usadas no título e créditos tinham a ver com o filme. Remetiam-me aos anos 80, pôster de shows de Spandau Ballet, Duran Duran ou Wham!, abertura de novelas da Globo e capa de disco da Xuxa.

Essa semana, qualquer pessoa interessada em cinema ficou sabendo da recepção hostil do público à estréia do filme. Na sessão em que estive, em São Paulo, pessoas saíram do cinema resmungando durante as cenas de sexo, reação semelhante das relatadas em Niterói. Em Aracaju, pagantes quase agrediram o gerente e pediam reembolso. Em João Pessoa cinemas carimbavam “avisado” nos ingressos após informarem o conteúdo do filme. E num episódio à parte, mas que não poderia ter acontecido numa melhor hora, um aluno da PM foi impedido de jurar, por ter feito uma dança no vestiário. 

E é desse ambiente que Donato foge. Que ainda é intolerante às diferenças e é extremamente heteronormativo, onde tudo é preto e branco e os milhares de tons de cinza entre esses moldes são estigmatizados e discriminados. E olhe que o Brasil é dos poucos países no mundo onde o casamento entre o mesmo sexo é legal. Imagine os maus bocados que homossexuais no mundo afora passam.

O filme, a priori, não me fez morrer de amores. Mas depois das reações Brasil afora, ele ganha um novo elemento emocional que o valida, e com certeza tocará a quem o assistir sem preconceitos daqui em diante. É quando percebemos que o filme veio na hora certa. Logo após Félix “comover” o país, e praticamente brindarem o fim da intolerância, Praia mostrou que não é bem assim. Felix, além de mal escrito, é, infelizmente, uma caricatura das mais antigas da história da dramaturgia. The Celluloid Closet já falou disso bem antes, há uns 20 anos atrás.

Praia vai bem ao cerne do problema dos “diferentes”: para ser si mesmo, é preciso fugir. A outra alternativa  é usar máscaras, viver nas sombras, cultivando segredos e mentiras, sempre à míngua, pois a sociedade não se assume como preconceituosa, mas não tolera a diversidade. E põe por terra o pobre argumento de muitos para maquiar o seu preconceito, “tudo bem ser gay, mas precisa desmunhecar?”. Donato e Konrad estão longe de “desmunhecar”, mas nem assim escaparam do linchamento moral.