domingo, 2 de março de 2014

Crítica de 12 Anos de Escravidão

Os Gritos do Silêncio
 
12 Anos de Escravidão // 12 Years a Slave

Nota: 9,5


Estatísticas existem para serem dados concretos que refletem determinado fato. Nem sempre essas estatís- ticas correspondem à reali- dade. Por exemplo, se você for dar uma olhada na renda per capita de alguns países do oriente médio verá que elas são idênticas a de países europeus. Mas isso não significa que haja uma distribuição de renda homogênea neles. Mas se você for observar dados sobre a representação de minorias na indústria do entretenimento, verá que infelizmente essa estatística infelizmente reflete realidade. Não só em relação à quantidade quanto à forma de representação. Até num campo onde os negros normalmente têm mais espaço, como na música, por décadas eles estavam sempre ligados a gravadoras e nichos deles próprios, não havia muita interação. Em 85 anos de Oscar, por exemplo, nenhum negro jamais ganhou um Oscar por direção, apenas uma mulher e pouquíssimos gays assumidos. Isso só mostra que ainda estamos longe da igualdade que as constituições quase todas propõem.

12 Anos de Escravidão é sobre Solomon Northup, um negro livre de Nova York que é raptado por escravagistas e vendido a um fazendeiro do sul dos EUA há menos de 200 anos atrás. O próprio Northup que transformou sua história em livro, que apenas agora foi adaptada as telas. Considerando que The Help foi duramente criticado por ser uma história de negros escrita e dirigida por brancos, 12 Anos parece já ser uma evolução.

Steven McQueen, o diretor, é londrino, assim como Chiwetel Ejiofor, o protagonista. Lupita Nyong’o é queniana nascida no México. Por ter sido dirigido e estrelado por negros não-americanos, acho que houve um distanciamento que torna 12 Anos uma obra mais arrebatadora e visceral. Ironia pura o mais importante dos filmes sobre a escravidão nos EUA ter tido criação artística praticamente toda estrangeira. Até mesmo o principal branco da história é feito por um estrangeiro, o irlandês Michael Fassbender, colaborador de McQueen de longa data.

Mas se não fosse por Brad Pitt tomar as rédeas na produção, provavelmente esse filme não existira. O que também explica o ponto baixo do filme, os 10 minutos de pieguice que é a sua participação na história, contrastando com todo o restante. É um filme de poucas palavras, silêncios, olhares, gestos e expressões. Com as fortes imagens não se necessita de palanque. Não era uma época onde esses discursos já fossem articulados, de qualquer forma.

Filmes como 12 Anos de Escravidão são importantes por nos lembrar que tudo isso aconteceu não faz muito tempo, e que ainda sentimos as conseqüências desse período. O passado explica o presente. Cultura é difícil de ser mudada. E cultura não é só coisas boas, como normalmente a gente associa. Preconceitos também são cultura, nenhum bebê nasce com eles. Eles aprendem a tê-los pela nossa cultura segregadora, que vem mudando, mas “assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade”, como diria o poeta. Eu já diria que em passos de lesma e com má vontade. Mas andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá...

3 comentários:

  1. Olá, adoro seu blog, curto, pois adoro ler sobre cinema, e sua opinião é muito importante para minha escolha de o que vou assistir.
    Bom Carnaval e bom filmes.

    ResponderExcluir
  2. Bom demais esse filme! Merecido ganhar os prêmios que ganhou! Adorei a Lupita e o Chiwetel Ejiofor trabalharam muito bem! O filme é inteligente e bem feito e não fica se explicando, basta ter sensibilidade para entender...

    ResponderExcluir
  3. Sem dúvida impactante e muito revoltante!

    Roberto Simões
    CINEROAD.blogspot.com

    ResponderExcluir