segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Crítica de O Impossível

O Peso da Água 

O Impossível // The Impossible

Nota: 8,0


Adoro filme catástrofe. Segundo Caco Antibes, pobre adora tragédia. Então eu sou a própria rafaméia. Mas eu gosto delas só em filmes. Sensalionismo na TV me dá ojeriza. A gente sempre se imagina na situação e como reagiríamos se estivéssemos vivendo também o momento. Claro que a maioria de nós sempre crê que seríamos o próprio Highlander, e sobreviveríamos a todos os percalços, e voltaríamos pra casa triunfantes, um pouco sujo de lama, pra dar o tom dramático. O que ninguém imagina é que um coqueiro poderia cair na sua cabeça. Ou que dentro da correnteza tem lataria de carro, placa de trânsito, galho de árvore...  Se você não morrer afogado, as chances de sobreviver aos demais obstáculos são menores ainda.
Curiosamente o filme é espanhol, com equipe espanhola, mas todo rodado e escrito em inglês, pra ter mais público, obviamente, e é baseado no caso de uma família espanhola que se desencontrou no meio da tsunami na Tailândia no natal de 2004. No caso, a família de Naomi Watts e Ewan McGregor, dois britânicos que vivem no Japão, vai passar férias de fim de ano nesse resort paradisíaco na Tailândia. Mal eles chegam e o desastre assola a região.
A mãe consegue se encontrar com o filho mais velho, mas ela acaba se ferindo gravemente enquanto levada pela correnteza. O filho, então, tem que ajudá-la a encontrar um hospital. O pai consegue ficar junto dos dois filhos mais novos, mas no meio do ambiente catastrófico, todos continuam suas buscas, na esperança, mesmo que remotas, de se reencontrarem.
É um filme eficiente, com momentos edificantes. Naomi Watts brilha, e os atores mirins são muito bons. O clima de desespero e desamparo me parece bem real, aqui do alto da minha perspectiva de quem nunca viveu nada parecido. Mas o trailer, ao som da versão de One do U2 do Daniel Rice, é até melhor do que o filme em si, como acontece na maioria das vezes.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Crítica de As Aventuras de Pi


Viagem Insólita

As Aventuras de Pi // Life Pi

Nota: 9,5


Ang Lee é um dos diretores mais competentes do cinema atual. Ele consegue transitar por diversos gêneros sempre de forma competente. Fez filmes muito respeitados, e que eu gosto, como O Banquete de Casamento, Razão e Sensibilidade, A Tempestade de Gelo, Brokeback Mountain, outros que eu não gosto tanto, como O Tigre e o Dragão, que me dá um sono danado... E como todo mundo tem suas caveiras debaixo da cama, ele fez Hulk. Dessa vez ele volta a trabalhar com fantasia e dirige essa adaptação do um famoso livro homônimo do escritor canadense Yann Martel, que tem feito muito sucesso com público e crítica, e colecionado indicações a prêmios, como a maioria dos seus filmes normalmente faz.
Aqui a história é sobre Piscine, que com um nome desse só podia virar motivo de chacota na infância, um imigrante indiano que vive no Canadá procurado por um novelista que soube da sua interessante história de vida. Então ele conta como era sua vida na Índia, filho de donos de um zoológico, que então resolvem imigrar para o Canadá. Só que os planos saem desastrosos quando o navio naufraga numa tempestade, e ele tem que sobreviver em um bote no meio do oceano com inesperadas companhias.
O filme por si só poderia ser só uma bela fábula, mas pra mim o que engrandece é o terço final, como a história se fecha, ligando os pontos e dá um toque de humanidade. Esse sim é maior trunfo da obra de Martel, adaptada por David Magee de Em Busca da Terra do Nunca, o toque marcante da estória e que emociona mais do que qualquer coisa que acontece antes na trama.
O filme tem muitos pontos fortes. Antes de tudo, visualmente ele é fantástico. Os efeitos especiais são lindos, as cores, a direção de arte é impecável. O elenco é ótimo, e o destaque é o menino indiano Suraj Sharma que passa muito mais que a metade do filme interpretando sozinho, já que o tigre, a sua bola de vôlei de Wilson, é efeito especial. Pra mim esse é um Náufrago bem mais eficiente do que aquele do Tom Hanks.
Chama atenção também por ser um dos raros filmes mainstream que não retratam uma cultura distinta de forma pejorativa nas telas. Argo tá aí que não me deixa mentir. Quando Ben Affleck pisa em Teerã, ele fica cercado por inimigos selvagens e intolerantes, e nós, como ocidentais só podemos ter empatia por ele, porque é mais parecido conosco, e porque a história nos conduz a isso. Mas a gente não viu graça nenhuma com Turistas, por exemplo, que por nossa sorte ninguém levou aquilo a sério. Mas outros filmes importantes como O Expresso da Meia-Noite e Slumdog Millionaire já repetiram esse mau-costume.
Em relação aos prêmios, que são o principal assunto da indústria no momento, As Aventuras de Pi com certeza estará entre os concorrentes de todos os prêmios. Está dentro de todos os indicados que foram anunciados até aqui, como o Globo de Ouro e o Critics’ Choice. Já quais suas reais chances, difícil dizer agora. Mas ele tem concorrência forte do Lincoln de Spielberg (saco nenhum pra ver esse) e Argo, que é o.  tipo de filme que normalmente agrada votante. Mas até agora meu favorito, além dele, é Silver Linings Playbook, que logo, logo escreverei sobre.
Ang Lee prova mais uma vez que seu forte, assim como fez em Brokeback Mountain, é quando ele não tem muito a dizer, mas muito a mostrar. Quanto menos diálogo melhor. A verdadeira personificação de que uma imagem vale mais que mil palavras. Susana Vieira estaria perdida com um script desses nas mãos. Pra ele esse máxima funciona. Pra outros diretores/roteiristas como Tarantino ou Neil Simon, o diálogo é sua arma principal. Cada um com suas fortalezas.


UPDATE: Acho que empolgado e com entusiasmo, esqueci de comentar o ponto fraco do filme, na minha opinião, que é a visão religiosa proselitista, meio que ecumênica pois o herói é católico/hindu/islâmico, por gostar das três crenças, mas fica subentendido na história que a única forma de vencer os desafios é tendo fé no ser superior, que aí já não fica claro qual.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Crítica Argo

O Resgate de Jéssica
 

Argo

Nota: 8,0


Adoro filmes políticos. Que me desculpe quem não gosta de política ou diz que não tem nada a ver com ela, mas tudo que se fala é uma mensagem, um discurso, e tudo que se faz carrega consigo valores, ideologias e princípios, e tudo isso é política. E ela afeta o cotidiano de todos nós, ainda mais hoje, no mundo globalizado que vivemos, onde as fronteiras estão cada vez mais tênues e cada vez mais protegidas. Mas claro, como tudo na vida, tudo tem dois lados. E a política tem vários lados. Então gostar de um filme político também depende de qual agenda que está sendo abordada no filme. E se ela serve para levar uma história adiante, ou se ela vira propaganda, como no caso de Won’t Back Down.
Meu apreço pela carreira artística do Ben Affleck é quase o mesmo que tenho por um CD do Latino. Mas tudo isso vem de uma antipatia minha por um sucesso meio que imposto, seguido por sua figura pública pouco interessante. Mesmo ele tendo feito Dazed and Confused, sua carreira começou de fato com aquela jogação de confete desnecessária que foi Gênio Indomável, um filme bom, irregular, que começa piegas e depois melhora, mas que foi alçado a obra prima pelas campanhas de marketing de Hollywood, como elas tanto fazem. E o pior é que as pessoas acreditam nessas coisas. A Alemanha acreditou em Hitler, não? (Obs: Não estou comparando-o com Hitler, só estou dizendo que uma campanha de marketing eficiente  vende qualquer peixe.)
Depois disso, virou astro e fez muita porcaria. Ele briga tapa a tapa com Keanu Reeves pelo troféu canastrão da indústria. Eu fui à uma palestra de um diretor (que prefiro deixar no anonimato) em que ele dizia “trabalhei com Affleck nos anos 90, em um filme. Um ano depois ele estava no Oscar. E eu me perguntava, como isso aconteceu? Eu costumo reconhecer talento quando o vejo.” Mas acredito que o que lhe faltou de talento dramático, sobrou de esperteza pra lidar com a indústria. E sabemos que hoje em dia cinema é muito mais negócios do que arte. Arte está nas ruas, nas esquinas, mendigando centavos. 
Affleck deve ter investido boa parte dos seus contracheques em capacitação, observado e estudado muito bem os sets onde trabalhou e se lançou como diretor. Eu tenho até arrepios em dizer, mas reconhecer é necessário, ele fez bons filmes. No entanto esse é o melhor deles, com certeza. De longe. E a história é toda verídica. Com algumas licenças poéticas para transformar certos momentos mais cinematográficos, obviamente.
Todos (creio eu) sabem que o Irã é uma das nações islâmicas totalitaristas do Oriente Médio, e esse fator é o que constitui o mote principal do filme. Nos anos 70, quando o xá da Pérsia foi deposto do poder e o aiatolá teocrático e totalitário alçado ao governo, Washington deu asilo ao xá e a embaixada dos EUA em Teerã foi invadida por uma multidão revoltada ordenando o retorno dele, para que ele fosse julgado. Os indíviduos na embaixada que foram pegos pela multidão viraram reféns, mas uns poucos funcionários conseguiram fugir pela porta dos fundos e se refugiaram na casa do embaixador do Canadá.
Então o dilema ficou em como tirar esses refugiados de lá da casa do embaixador sem o governo iraniano perceber. Tony Mendez, um agente da CIA latino (feito pelo Ben Affleck, praticamente um dançarino de rumba hondurenho) arma o plano de criar uma equipe de produção de um filme fictício, o tal do Argo, que vai ao Irã pesquisar locações para as filmagens. Com passaportes falsos para todos os funcionários, ele chega em Teerã para tirar esse pessoal de lá, se passando por esses cineastas canadenses.
Bom, o filme é muito bem feito, mescla gêneros eficientemente, e não se deixa ser exageradamente dramático, cômico ou aventureiro demais. Transita por todos tranquilamente. O elenco está afiado, e nem Affleck (que produziu e dirigiu o filme para si próprio) compromete, o que é difícil, sendo ele o protagonista. O restante do elenco, que tem Alan Arkin, Kyle Chandler, Bryan Cranston e John Goodman como destaques, são todos coadjuvantes, que aparecem bem pouco no enredo comparado a Affleck.
Minha crítica maior fica à indecisão do filme em tomar partido, se posicionar politicamente. Imparcialidade não existe, não adianta jornalista nenhum vir dizer isso. Todo indivíduo tem suas convicções políticas e em qualquer lugar do mundo todos os meios de comunicação têm seus interesses políticos claramente estampados nas suas manchetes. Nos EUA as redes de TV se dividem em democratas, como a NBC, ou republicanas, como a Fox. Já no Brasil todos os canais de TV são de direita. Além de quase todos os meios de comunicação impressos, como a Veja, a Folha e o Estadão.
O filme começa mostrando, em forma de storyboard de filme de super-herói, a história recente do Irã, contando como nos anos 50 os EUA e Reino Unido depuseram do poder um governo democraticamente eleito pra poder ocidentalizar o país e impor seus interesses no petróleo local. Algo parecido com o que os mesmos fizeram na América Latina, para manter suas influências políticas. E com isso, num efeito bola de neve, acabaram elevando essa facção fascista que hoje é responsável por esse governo ditatorial, que não só castra a sociedade iraniana, como os próprios EUA, que vivem em guerra com eles pra poder meter a mão no precioso óleo. Ou seja, uma visão bem auto-crítica da realidade dos fatos.
No desenrolar do filme, em contrapartida, a velha máxima conservadora prevalece: os inimigos malvados nos perseguem, temos que dar o fora daqui! Normalmente o Rambo vai lá e mata todo mundo, mas em um filme menos macarronesco sabe-se bem que o máximo que se pode fazer na casa do inimigo é fugir de lá. Incomodou-me também a forma estereotipada em que o povo iraniano é retratado, com exceção de uma serviçal que ajuda no “Resgate de Jéssica”... Então fica clara uma indecisão em se posicionar. Se vai se responsabilizar pelo que fizeram, pelo monstro que criaram, como parecem tentar no início, ou se vão simplesmente demonizá-lo, o que é sempre mais fácil e senso comum. Fazer simplesmente um filme de aventura dentro desse contexto tão real e atual não serve.