domingo, 16 de setembro de 2012

Crítica de O Segredo da Cabana


À Meia Noite Levarei Sua Alma
O Segredo da Cabana // The Cabin in The Woods

Nota: 9,5

Ao mesmo tempo que cinema é uma forma nova de arte, ao mesmo tempo também é já bem saturada. Ser criativo no cinema atual é algo até inimaginável. Tanto que os mais criativos passam a ser aqueles que brincam com o próprio cinema, que usam e abusam de citações e do pastiche. Tarantino e Almodóvar são mestres nisso. Scorsese tem uma criatividade parecida, mas com menos senso de humor que os outros dois. Como estamos falando de O Segredo da Cabana, falemos de exemplos concretos do gênero terror. Quantos filmes de zumbi vocês já viram por aí? E de vampiros? Lobisomens? Hmmm... Possessão demoníaca? Casa mal assombrada? Espíritos? Pessoas enlouquecendo? E aqueles que no final tudo não passou de um sonho? Pois é. Dá até pra fazer uma lista dos melhores (talvez seja mais fácil dos piores) de cada sub-nicho desses. E é uma coisa cíclica. Há 10 anos atrás os zumbis invadiam as telas. Hoje é uma enxurrada de vampiros por todos os lados. Eles vêm aos bandos e tomam conta até não renderem mais um centavo.
Agora, onde O Segredo da Cabana se situa nesse contexto? Obra-prima, mais do mesmo ou lixo? Não há como escrever nada minimamente analítico sobre o filme sem espalhar spoilers sobre o enredo todo. Talvez nem o final mesmo possa ser resguardado. Então, primeiro, deixem-me tecer brevemente uma sinopse, e nos próximos parágrafos eu posso discutir o filme com spoilers, a quem interessar possa.
Enfim, a história é o clichezão de sempre. Cinco amigos (entre eles o Thor Chris Hemsworth e o Jesse Williams de Grey’s Anatomy) tiram um final de semana pra ir a uma cabana no meio do bosque na Califórnia, creio eu. Pelo menos a paisagem parece muito com a de Yosemite, onde recentemente uma “febre do rato” se espalhou por lá num acampamento. Então, os tais cinco amigos, cada um personificando um tipo da forma mais estereotipada possível, passam a testemunhar coisas estranhas acontecendo quando a noite cai. Em paralelo, uma espécie de central de comando liderada pelo Richard Jenkins os vigia atentamente.
Esse é o maior trunfo do roteiro de Joss Whedon e Drew Goddard, que vieram dos seriados Buffy e Angel. O próprio Goddard dirigiu o filme também. Não confundir com o icônico diretor Jean-Luc, por favor! Eles alegam ter escrito o roteiro em três dias, como uma sátira a filmes Splatter, ou torture-porn (tipo Jogos Mortais e Premonição) e uma forma de revitalizar filmes slasher (como Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo, Halloween, etc.). Mas a metáfora é tão boa que pode ser aplicada para diversas outras coisas.
Em qualquer aula de roteiros cinematográficos, a gente aprende que o que interessa para o público é o segundo ato (o mais longo deles, onde as coisas acontecem – tipo quando o herói ganha os superpoderes, começa a road trip ou a princesa é raptada e o príncipe tem que ir salvá-la), mas o que vende o filme de fato, e o torna bom ou ruim perante o público, é o ato final, onde as resoluções acontecem. E a reviravolta do terceiro ato é genial. Torna o filme assustador, cínico, sarcástico, cômico e tenaz, tudo ao mesmo tempo.

SPOILER ALERT!

SPOILER ALERT!

SPOILER ALERT!

Os dois primeiros terços são bem senso comum ao gênero. Os jovens universitários passam a ser violentamente caçados à noite na floresta. Só que o diferencial, que durante esses dois primeiros atos não faz muito sentido para o público, é essa espécie de central que os acompanha e controla diversas coisas ao redor deles. E eis que começa o terceiro ato e essa central não só passa a ter sentido como muda completamente o rumo da história.
Sobre a pergunta que levantei no segundo parágrafo, eu posso entrar em mais detalhes agora. A metáfora que o filme usa para criticar satiricamente filmes de tortura, como eu já disse, serve para tantas coisas. E eis a beleza da arte. Ela pode ter muitas outras funcionalidades além das originalmente planejadas pelos seus idealizadores. Eu posso listar umas três que me vieram rapidamente à mente.
1) Filmes de terror em geral viram motivos de gozação. A platéia fica na expectativa de saber qual o segredo tão assustador da tal cabana. Quando a gente descobre que são zumbis, dá até aquela brochada. “Coisa manjada!”. Só que eis que vem o terço final de filme, e descobrimos que as próprias vítimas são induzidas a escolherem seus algozes, o que é uma idéia é genial, principalmente porque há um leque variado de opções e depois nós somos bombardeados com todos os clássicos vilões de filmes de terror, e com certeza algum deles era o que a gente queria ver!
2) A idéia de uma central de comando que filma cada passo, controla as entradas e saídas, solta feromônios no ar, entre outras muitas táticas de manipular o comportamento de terceiros não é muito diferente do que a Globo fazer uma festa de BBB cheia de birita e filmada por diversas câmeras para o país inteiro ver. E fazer o público se entreter com os atritos fabricados em reality shows não é muito diferente da reação do pessoal que assiste e se delicia com a carnificina dos zumbis no filme.
Reality shows sem os barracos não teriam motivo de existir. Podem chamar de experiência antropológica, psicológica, o que for, mas é a pura e velha exploração do homem pelo homem, e dessa vez para o seu próprio entretenimento. Jogos Vorazes tratou bem disso recentemente. No momento catarse do filme, no terceiro ato, quando os sobreviventes finalmente se vingam, a gente vibra, óbvio. Mas fazendo um paralelo, é como se Nicole Bahls ou Lia Khey saíssem da tela da TV e fizessem seus barracos na nossa casa. O deleite logo viraria pesadelo, não? “Pimenta nos olhos dos outros é refresco” é um ditado que cai com uma luva pra situação.
3) E no fim, Sigourney Weaver, em carne e osso, revela que eles são oferendas aos deuses que governam o universo, e esse sacrifício tem de ser feito para evitar a ira divina e que eles, por conseqüência, destruam o mundo. Qualquer semelhança com a queima de bruxas na fogueira na Inquisição, ou as constantes cruzadas anti-minorias (mulheres, negros, gays, etc.) de papas, padres, bispos, pastores da laia do Silas Malafaia e religiosos em geral é mera semelhança? Tirem suas próprias conclusões.
Por fim, onde O Segredo da Cabana se situa? Fica evidente, após minhas explanações, que eu adorei o filme. É bem bolado, é divertido, agrada a todos que gostam do gênero, e ainda nos deixa com reflexões a fazer. Esse último fator, uma verdadeira raridade do gênero. A gente realmente conta nos dedos os filmes de terror que tenham qualquer metáfora que sirva de subtexto. Eu saí do cinema com um largo sorriso do rosto.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Crítica de Won't Back Down

Quanto Mais Idiota Melhor

Won’t Back Down 

Nota: 3,0 

Lembro que nos anos 90 eu amava Sai de Baixo. Gravava todos os episódios que passavam na TV e revia milhões de vezes. Isso era antes de eu apurar meu senso crítico e ver muitas coisas do seriado com outros olhos. Hoje em dia acho alguns episódios bem ruins, enquanto outros são muito bons. Outros (talvez a maioria) são bem medianos. Em Sai de Baixo, uma das protagonistas, Cassandra, dizia uma frase constantemente na primeira temporada. Era algo tipo “nós vivemos em tempos muito bicudos!”. E, francamente, foi a mesma reação que tive ao assistir esse filmeco. Claro que Cassandra usava a frase em outro contexto, com uma conotação bem diferente. Ela, uma viúva de militar, socialite falida que se vê obrigada a descer do pedestal, a dizia pra expressar seu desgosto pela “vulgarização” da cultura, apego à moral e bons costumes, desgosto ao populacho, e similaridades. Já no meu caso, a conotação é mais uma constatação do quanto estamos retrocedendo ultimamente.

O século 20 foi o que se tornou palco de maior número de transformações sociais e culturais. A gente pode dizer que 1710 e 1810 com certeza eram bem mais similares que 1910 e 2010 são. Culpa da globalização, do avanço tecnológico, invenção do avião, que diminuiu as distâncias, popularização do telefone, que tornou a propagação de informações mais rápidas, e os meios de comunicação se tornaram mais rápidos e eficientes. Nesse cenário as minorias oprimidas se rebelaram. Todas elas, em todos os lugares, inspiradas umas nas outras. A tecnologia estava lá pra permitir que elas se conhecessem.

Já que tratamos de uma realidade americano, nos anos 50 e 60 eles tiveram Martin Luther King e o movimento de direitos civis dos negros nos EUA (Hoje em dia é normal casais multiraciais, mas naquela época era proibido. Imagine a reação da sociedade hoje aos casais homossexuais e trace um paralelo). Eles também testemunharam o movimento hippie em resposta a guerra do Vietnã, o feminismo (até hoje estigmatizadas como queimadoras de sutiãs) conta a desigualdade de gênero, o início do movimento gay, etc. Não é difícil imaginar que machismo, misoginia, homofobia, racismo, militarismo, elitismo, e - porque não? - capitalismo andem sempre juntos, por isso essas lutas das minorias existem.

 
Já no Brasil tivemos o movimento estudantil e do meio cultural e artístico contra a ditadura, ambos fortemente abafados pelo sistema, como todos nós sabemos, e depois as Diretas Já, os Sem-Terra, os Caras Pintadas, etc. Então, foi muita rebeldia e muito inconformismo em muito pouco tempo. O que é ótimo, ao meu ver, porque o mundo tá longe de ser perfeito e não há muito o que se conservar se queremos um ambiente melhor e mais justo. 

Só que toda ação tem uma reação. E mudanças são assustadoras, principalmente pra quem detém privilégios. Então ao mesmo tempo opositores a esses movimentos surgiram também, o que é chamado de backlash. O que é até compreensível (pois ninguém gosta de ver jogado na sua cara tudo que vem fazendo de errado desde que o mundo é mundo), mas não racional ou fundamentado. Ou inteligente, ao meu ver, principalmente hoje, 50 anos depois. Pra quê manter um sistema que não funciona? Falido, desigual, opressor e exclusório? O que há de tão perfeito no mundo que precisa ser mantido?
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E hoje em dia a gente vive claramente um momento de backlash, onde um conservadorismo muito forte tem crescido em todos os lugares. Nos EUA, o partido republicano nunca foi tão medieval. Tudo pelo livre direito de declarar guerra a quem quiser, continuar a atirar livremente em guaxinins, patos, veados, etc. só pelo prazer de enfeitar sua sala, e transformar a palavra de Deus em lei. Às favas com a laicidade. No Brasil, nas últimas eleições, militante contra a ditadura virou terrorista e militar torturador, herói. Silas Malafaia e Marcelo Crivella (entre outros) bradam tanta caretice e discriminação no plenário, nas ruas e nos meios de comunicação que até Moisés no Monte Sinai ia se ruborizar de vergonha. Mas é tudo pelo bem da família.

Pois bem, eis que eu saio de casa e vou ver esse filme chamado Won’t Back Down (sem título brasileiro ainda). Nele, a Maggie Gyllenhaal, um exemplo de mãe, que logo na segunda cena acorda no sofá, de ressaca, a casa é uma pocilga imunda, acorda sua filha pra levar pra escola. A menina é aparentemente disléxica, e tem dificuldades de aprendizado. Por conseguinte torna-se vítima de bullying e detesta a escola. O que a Super-Mãe, faz então? 

A) Procura se inteirar sobre dislexia; 
B) Pesquisa maneiras e locais alternativos de ensino; 
C) Verifica a possibilidade de ajuda de tutores; 

 
Acertou que respondeu a oculta letra D, ela, essa perita em educação, pós-graduada em pedagogia, decide formar um movimento para tomar as rédeas da escola, e participar ativamente de todas as decisões curriculares, uma manobra aqui chamada de "Parent Trigger". Só que para isso poder ocorrer, ela precisa que pelo menos 51% dos pais (todos também educadores e pedagogos, suponho) e professores endossem a iniciativa. E depois disso, ainda precisam da aprovação das autoridades responsáveis pelo assunto do Estado. 

E a maioria dos professores, liderados pela Viola Davis, aceitam isso, para se livrar das garras do Estado e desses sindicatos, que cerceam a liberdade do professor de fazer o trabalho que ele quer, de se dedicar o quanto ele gostaria a docência. O dinheiro não importa, o que importa é ver seus alunos aprendendo, felizes e satisfeitos, nem que você tenha que trabalhar 80 horas semanais, e provavelmente ganhando o mesmo salário. Professor está aí pra isso mesmo. Vida social, família, supermercado, médico, um filme, um bar no fim de semana, uma pausa pro sanitário, tudo isso é supérfluo diante desta grande e importante causa. Só depende de nós (deles, no caso).

O filme é uma coleção de clichês sem fim. Propaganda política descarada mesmo. O filme do Lula, é brincadeira de criança perto desse. Muito moralismo, melodrama barato e manipulador e proselitismo. Personagens rasos, sem nuances, sem meio-termo, vilanizações infantis, etc. Parecia até filme do Clint Eastwood. Eu já estava esperando o próprio entrar no recinto e discursar para uma cadeira vazia. O pior de tudo é que, como era uma exibição “teste”, havia em seguida um “debate” sobre o filme, onde vários profissionais da educação vieram discutir o filme. Discutir não, jogar confete. Eu me senti na platéia da Convenção Republicana. Na parte que abriram para perguntas da platéia, eles se reservaram o direito de não responder às perguntas que não quisessem. Pura democracia.

 
E no final apoteótico, a gente vê aquele coro enorme de crianças felizes cantando “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país”. Tudo bem, o país não me dá uma educação de qualidade, nem oferece saúde pública alguma, condições básicas para qualquer indivíduo sobreviver, mas vende um sistema de meritocracia onde só se perpetua (e amplia) as desigualdades, mas o que importa é o que eu devo fazer por ele. Dar minha vida em guerras obscuras cheias de interesses ocultos? Render-me a corporações capitalistas altruístas? Francamente, viu... Há 30 anos atrás Sally Field era Norma Rae, brigando pelos direitos trabalhistas. Hoje a gente tem que engolir isso. Cada geração tem o Norma Rae que merece.