segunda-feira, 26 de março de 2012

Crítica Jogos Vorazes


A Noite dos Desesperados


Jogos Vorazes // The Hunger Games


Nota: 10


Raras são as vezes que um filme me surpreende dessa forma. Muito do que eu tinha em mente a respeito do filme era baseado no marketing em torno dele, que vem do sistema hoje do cinema, de vender o filme a qualquer custo, e quase sempre qualidade não está associada ao produto. Temos aí as intermináveis sagas Crepúsculo (que pelo menos é bom de debochar), Transformers e blocksbusters acéfalos afins, que não me deixam mentir. Nem da história eu sabia nada, então fui conferir com apenas meus preconceitos da logística de mercado e todas as especulações e a (ridícula) competição por bilheteria que o sistema capitalista faz o filme trazer consigo.

Bom, Hunger Games vem da trilogia de best-sellers da Suzanne Collins, que também co-assina o roteiro junto com o diretor Gary Ross. É sobre uma sociedade pós-apocalíptica, num país chamado Panem, onde hoje fica a América do Norte. Lá, tudo é controlado pelo governo riquíssimo, tirano e ditatorial, inclusive os meios de comunicação. O programa de TV de maior audiência é um reality show onde adolescentes dos miseráveis distritos do subúrbio são sorteados e obrigados a participar. Lá eles disputam os tais jogos vorazes, onde eles têm que matar uns aos outros. O último sobrevivente é o vencedor.

Eu me senti vendo uma metáfora de um mundo que transforma toda tragédia em espetáculo, aém da nossa fome doentia e falta de solidariedade pela miséria alheia. Um tema que já foi abordado inúmeras vezes no cinema, e das mais diferentes formas, desde A Noite dos Desesperados a Chicago, ambos brilhantes, diga-se de passagem. Mas é uma forma de enfocar a história voltada para um público que, por ser jovem (e normalmente irritante), é frequentemente menosprezado, e brindado com uma série de porcarias, que eles mesmos acabam gostando. Com o tempo a gente vai reformulando nossas opiniões da adolescência.

Outra metáfora/crítica que eu vi é a forma que a elite da cidade grande é retratada. Toda corte tem seu bobo, seja ela na Idade Média, seja hoje. E lá na sociedade de Panem a gente claramente (e exageradamente) vê isso fisicamente, a dicotomia de como os de prestígio se vestem e se portam, e como os pobres e famintos são apresentados. Escravos de uma moda moda mercantilista e efêmera para se detacar pelo status. Achei maravilhoso, achei muito Mulheres Ricas, que o público parece amar aquela palhaçada, mas não realiza (pelo menos analiticamente) o quão ridículo aquilo tudo é.

O filme também nos faz torcer pela protagonista e heroína, pois o ponto de vista que seguimos o tempo inteiro é o dela, que é um truque inteligente pra nos fazer perceber que frequentemente podemos tomar partido em ocasiões e esquecer que todos os outros ali são tão vítimas do sistema quanto ela. Mas cada um enfrenta as circunstâncias à sua maneira. Uns se corrompem, uns se amarguram, uns se revoltam, uns o enfrentam. Outros só se entregam ao comodismo e o aceitam, se adaptam ao meio. Não é caso da maioria de nós?

E mesmo torcendo por Katniss, e sabendo como ela é capacitada para a competção ali, suas fragilidades e vulnerabilidade nunca são escondidas ou esquecidas. Por mais que seja um verdadeiro mata-mata (literalmente), ela ainda precisa dos demais para se manter viva, como podemos testemunhar inúmeras vezes no desenrolar dos eventos. No mundo cão, ninguém sobrevive sozinho.

Interpretando aqui a jovem Katniss, Jennifer Lawrence, que foi indicada ao Oscar por Inverno da Alma, faz seu primeiro grande (no sentido de produção especificamente, não qualidade) filme, e tem se transformado numa personalidade que muito me lembra Sigourney Weaver nos anos 80. Se ela continuará no mesmo caminho só o tempo dirá, mas é bem provável, já que esse tipo de filme é feito para render seqüências. Na verdade o papel é uma variação do que ela fez em Inverno, mas ela é perfeita para o perfil. Eu já havia gostado muito dela em Vidas Que Se Cruzam, onde ela faz Charlize Theron jovem, e filha da Kim Basinger.

Além da Jennifer, o filme ainda tem um longo elenco conhecido, de Stanley Tucci, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Liam Hemsworth, Josh Hutcherson a Donald Sutherland, e até Wes Bentley, que ressurge desde Beleza Americana e o cantor Lenny Kravitz. A direção é do Gary Ross, que fez Pleasantville, o único filme que realmente me salta às vistas na sua filmografia. Além de Ross e Collins, o roteiro ainda tem as mãos de Billy Ray, que também escreveu ou dirigiu dois filmes que adoro, Intrigas de Estado e O Preço de Uma Verdade, mas também fez Quebra de Confiança, que eu detestei.

Esse filme é um raríssimo caso onde um filme me fez querer ler um livro, e quem me conhece sabe o quanto eu tenho de apreço por leituras, ainda mais as infanto-juvenis. Se eu lerei ou não, já é outra história, apesar de que eu acho que seqüências para um filme como esse são desnecessárias, pois ele tranqüilamente se sustentaria por si só, só era dar uma mexida no final inconclusivo, mas que eu aguardo ansiosamente e estarei seguramente na sala do cinema pra ver a continuação, essa certeza eu tenho.