sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Crítica de Won't Back Down

Quanto Mais Idiota Melhor

Won’t Back Down 

Nota: 3,0 

Lembro que nos anos 90 eu amava Sai de Baixo. Gravava todos os episódios que passavam na TV e revia milhões de vezes. Isso era antes de eu apurar meu senso crítico e ver muitas coisas do seriado com outros olhos. Hoje em dia acho alguns episódios bem ruins, enquanto outros são muito bons. Outros (talvez a maioria) são bem medianos. Em Sai de Baixo, uma das protagonistas, Cassandra, dizia uma frase constantemente na primeira temporada. Era algo tipo “nós vivemos em tempos muito bicudos!”. E, francamente, foi a mesma reação que tive ao assistir esse filmeco. Claro que Cassandra usava a frase em outro contexto, com uma conotação bem diferente. Ela, uma viúva de militar, socialite falida que se vê obrigada a descer do pedestal, a dizia pra expressar seu desgosto pela “vulgarização” da cultura, apego à moral e bons costumes, desgosto ao populacho, e similaridades. Já no meu caso, a conotação é mais uma constatação do quanto estamos retrocedendo ultimamente.

O século 20 foi o que se tornou palco de maior número de transformações sociais e culturais. A gente pode dizer que 1710 e 1810 com certeza eram bem mais similares que 1910 e 2010 são. Culpa da globalização, do avanço tecnológico, invenção do avião, que diminuiu as distâncias, popularização do telefone, que tornou a propagação de informações mais rápidas, e os meios de comunicação se tornaram mais rápidos e eficientes. Nesse cenário as minorias oprimidas se rebelaram. Todas elas, em todos os lugares, inspiradas umas nas outras. A tecnologia estava lá pra permitir que elas se conhecessem.

Já que tratamos de uma realidade americano, nos anos 50 e 60 eles tiveram Martin Luther King e o movimento de direitos civis dos negros nos EUA (Hoje em dia é normal casais multiraciais, mas naquela época era proibido. Imagine a reação da sociedade hoje aos casais homossexuais e trace um paralelo). Eles também testemunharam o movimento hippie em resposta a guerra do Vietnã, o feminismo (até hoje estigmatizadas como queimadoras de sutiãs) conta a desigualdade de gênero, o início do movimento gay, etc. Não é difícil imaginar que machismo, misoginia, homofobia, racismo, militarismo, elitismo, e - porque não? - capitalismo andem sempre juntos, por isso essas lutas das minorias existem.

 
Já no Brasil tivemos o movimento estudantil e do meio cultural e artístico contra a ditadura, ambos fortemente abafados pelo sistema, como todos nós sabemos, e depois as Diretas Já, os Sem-Terra, os Caras Pintadas, etc. Então, foi muita rebeldia e muito inconformismo em muito pouco tempo. O que é ótimo, ao meu ver, porque o mundo tá longe de ser perfeito e não há muito o que se conservar se queremos um ambiente melhor e mais justo. 

Só que toda ação tem uma reação. E mudanças são assustadoras, principalmente pra quem detém privilégios. Então ao mesmo tempo opositores a esses movimentos surgiram também, o que é chamado de backlash. O que é até compreensível (pois ninguém gosta de ver jogado na sua cara tudo que vem fazendo de errado desde que o mundo é mundo), mas não racional ou fundamentado. Ou inteligente, ao meu ver, principalmente hoje, 50 anos depois. Pra quê manter um sistema que não funciona? Falido, desigual, opressor e exclusório? O que há de tão perfeito no mundo que precisa ser mantido?
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E hoje em dia a gente vive claramente um momento de backlash, onde um conservadorismo muito forte tem crescido em todos os lugares. Nos EUA, o partido republicano nunca foi tão medieval. Tudo pelo livre direito de declarar guerra a quem quiser, continuar a atirar livremente em guaxinins, patos, veados, etc. só pelo prazer de enfeitar sua sala, e transformar a palavra de Deus em lei. Às favas com a laicidade. No Brasil, nas últimas eleições, militante contra a ditadura virou terrorista e militar torturador, herói. Silas Malafaia e Marcelo Crivella (entre outros) bradam tanta caretice e discriminação no plenário, nas ruas e nos meios de comunicação que até Moisés no Monte Sinai ia se ruborizar de vergonha. Mas é tudo pelo bem da família.

Pois bem, eis que eu saio de casa e vou ver esse filme chamado Won’t Back Down (sem título brasileiro ainda). Nele, a Maggie Gyllenhaal, um exemplo de mãe, que logo na segunda cena acorda no sofá, de ressaca, a casa é uma pocilga imunda, acorda sua filha pra levar pra escola. A menina é aparentemente disléxica, e tem dificuldades de aprendizado. Por conseguinte torna-se vítima de bullying e detesta a escola. O que a Super-Mãe, faz então? 

A) Procura se inteirar sobre dislexia; 
B) Pesquisa maneiras e locais alternativos de ensino; 
C) Verifica a possibilidade de ajuda de tutores; 

 
Acertou que respondeu a oculta letra D, ela, essa perita em educação, pós-graduada em pedagogia, decide formar um movimento para tomar as rédeas da escola, e participar ativamente de todas as decisões curriculares, uma manobra aqui chamada de "Parent Trigger". Só que para isso poder ocorrer, ela precisa que pelo menos 51% dos pais (todos também educadores e pedagogos, suponho) e professores endossem a iniciativa. E depois disso, ainda precisam da aprovação das autoridades responsáveis pelo assunto do Estado. 

E a maioria dos professores, liderados pela Viola Davis, aceitam isso, para se livrar das garras do Estado e desses sindicatos, que cerceam a liberdade do professor de fazer o trabalho que ele quer, de se dedicar o quanto ele gostaria a docência. O dinheiro não importa, o que importa é ver seus alunos aprendendo, felizes e satisfeitos, nem que você tenha que trabalhar 80 horas semanais, e provavelmente ganhando o mesmo salário. Professor está aí pra isso mesmo. Vida social, família, supermercado, médico, um filme, um bar no fim de semana, uma pausa pro sanitário, tudo isso é supérfluo diante desta grande e importante causa. Só depende de nós (deles, no caso).

O filme é uma coleção de clichês sem fim. Propaganda política descarada mesmo. O filme do Lula, é brincadeira de criança perto desse. Muito moralismo, melodrama barato e manipulador e proselitismo. Personagens rasos, sem nuances, sem meio-termo, vilanizações infantis, etc. Parecia até filme do Clint Eastwood. Eu já estava esperando o próprio entrar no recinto e discursar para uma cadeira vazia. O pior de tudo é que, como era uma exibição “teste”, havia em seguida um “debate” sobre o filme, onde vários profissionais da educação vieram discutir o filme. Discutir não, jogar confete. Eu me senti na platéia da Convenção Republicana. Na parte que abriram para perguntas da platéia, eles se reservaram o direito de não responder às perguntas que não quisessem. Pura democracia.

 
E no final apoteótico, a gente vê aquele coro enorme de crianças felizes cantando “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país”. Tudo bem, o país não me dá uma educação de qualidade, nem oferece saúde pública alguma, condições básicas para qualquer indivíduo sobreviver, mas vende um sistema de meritocracia onde só se perpetua (e amplia) as desigualdades, mas o que importa é o que eu devo fazer por ele. Dar minha vida em guerras obscuras cheias de interesses ocultos? Render-me a corporações capitalistas altruístas? Francamente, viu... Há 30 anos atrás Sally Field era Norma Rae, brigando pelos direitos trabalhistas. Hoje a gente tem que engolir isso. Cada geração tem o Norma Rae que merece.

2 comentários:

  1. tipo de filme que, se eu vir, vou espumar de ódio na poltrona. Ugh. em compensação seu texto tá tão bom que deu vontade de compartilhar.

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  2. A linguagem é fonte de mau entendidos: várias asserções verdadeiras, em construções bem feitas para se atingir uma sentença falsa.
    O seu pensamento, a sua conclusão, bem demonstra o caráter lixo de nosso povo. Se você obteve estudo o suficiente para escrever o que escreveu, foi graças ou à fortuna de sua família - que desconheço - ou à luta de um deles contra o sistema de emburrecimento a que ainda somos vítimas. O filme pode não ter sido uma obra de arte, mas certamente tem o condão para que outras pessoas, menos aquinhoados como você, possam vislumbrar que podem sim alcançar algo melhor do que nossa educação oferece, ou você acha certo crianças "passarem de ano" sem que saibam ler ou escrever e, para que no futuro, uma delas, venha aqui é diga que seu texto é lindo se, no entanto, ter noção da besteira que está fazendo? Abraços , meu caro.

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