quarta-feira, 20 de junho de 2012

Crítica Rock of Ages

Rádio Pirata

Rock of Ages 

Nota: 8,0

Rock of Ages é mais um musical da Broadway a ser levado pras telas, e faz parte de uma tendência recente de se criar musicais “jukebox”, ou seja, aqueles onde músicas já famosas são utilizadas para se contar uma história. Exemplos disso são American Idiot (Green Day), Mamma Mia (Abba), Across The Universe (Beatles), Jersey Boys (Four Tops), Movin’ Out (Billy Joel), etc. O título Rock of Ages vem do hino Hard Rock/Arena Rock do Def Leppard, cuja canção não pode ser usada na Broadway por direitos autorais, mas aqui no filme ela é usada na sua versão original em uma determinada cena. É uma coleção de hits do rock dos anos 80, incluindo canções do Bon Jovi, Foreigner, Journey, Scorpion, Guns N’ Roses, Pat Benatar, Joan Jett, Whitesnake, Starship, Poison, entre outros. Para ter uma idéia do que é o musical dos palcos, vejam a apresentação deles no Tony Awards clicando aqui.
Bom, eu vi o musical na versão teatral (“field trip” da faculdade) e adorei. Eu parecia uma tiete de Quase Famosos. Sabia todas as músicas, vibrava a cada segundo. A história batida sobre um casalzinho em busca da fama em Los Angeles nem me incomodou com toda aquela trilha sonora. E quando soube da adaptação para o cinema, a princípio fiquei animado. Mas aí veio a lista dos profissionais envolvidos. Pra começar, a direção do Adam Shankman, que dirigiu Hairspray, que eu adoro, mas é outra vibe, não é rock. E pra piorar ele ainda dirige alguns episódios de Glee (argh!). E no elenco tem muita estrela que ninguém nunca viu entoando uma nota na vida, e o protagonista é logo um ex-RBD! Cadê meu Deus, agora?
Entrei na sessão e entre os trailers estavam o do enésimo Step Up (Se Ela Dança, Eu Danço), que dessa vez quer se passar arte-protesto e de conscientização social, meus sais... E em 3D, ainda por cima! Outro foi o do documentário piegas da Katy Perry, onde ela conta (já no trailer), com muitas lágrimas, a quão árdua e sofrida foi sua vida até poder arrotar champanhe Cristal nos píncaros da glória... Saudades de Na Cama com Madonna. E o último que lembro foi o de Magic Mike, que tem tudo pra ser um Showgirls versão homoerótica, aquele filme dos strippers de Clube das Mulheres do Steven Soderbergh, que anda mais decadente que Paulo Ricardo e Sylvinho Blau Blau juntos, e que outrora, num passado longínquo, iniciou o movimento de filmes independentes com Sexo, Mentiras e Videotape. Eu já tava com as mãos na cabeça e pensando, o que é que eu tô fazendo aqui?
Aí começa o filme, e eu até que fui positivamente surpreendido. Mas claro que ele tem seus prós e contras, e óbvio que estou eu aqui pra apontar (quase) todos eles. Então, mãos à obra!
Pontos positivos: Direção de arte e cenografia praticamente perfeitos. Tudo muito bonito e vistoso. Claro que com o excesso de colorido e estereótipos 80s que todo filme recente que reconstitui a época costuma fazer, como se a década fosse um eterno circo ambulante. Houve exageros? Houve, todos sabemos (permanentes, ombreiras com manga comprida, etc.), mas não foi pra tanto. É como se quisessem retratar o Brasil com diversas passistas caprichadas no penacho andando pelas ruas.
O filme também é lindamente fotografado. Quase todos os frames pareciam posters de álbuns de rock. Glam rock 80s, evidentemente. Só que também “photoshoparam” demais os rostos do elenco, especialmente dos dois protagonistas, talvez para que eles parecessem bem mais jovens que os demais. O pessoal não tem pele, tem uma camada de cera caprichada no pancake e pó compacto. A Catherine Zeta eu não sabia se era botox demais ou excesso de manipulação no rosto dela, porque quando ela apareceu, eu não sabia se era ela, a Julia Roberts ou a Teri Hatcher.
 
Eu me surpreendi com os arrajos das músicas. Sinceramente, esperava algo bem mais releitura pop estereotipada, como fizeram com alguns outros aspectos do filme, do que apostarem em algo que realmente se parecesse com o som da época. Já os vocais é um capítulo a parte, que comento mais abaixo. A exceção foi logo o arranjo de Don't Stop Believin'. Ficou muito mais Glee do que Journey. E por falar nisso, essa música tá em todos os lugares ultimamente. Steve Perry deve estar podre de rico, coletando royalties.
Ponto ni fu ni fa: O roteiro é mais ou menos. Mudaram algumas tramas, até pra não ficar exatamente igual ao musical, e ter seus próprios elementos surpresa. Algumas mudanças foram boas, outras não. No geral, achei que a história ficou mais açucarada. Gostaria até de falar delas mais abertamente, mas não quero dar spoilers a ninguém. O problema maior é que nem tudo que funciona no palco, funciona nas telas. Faltou história pra contar, ao contrário de Burlesque, que a história acaba na metade e começa outro filme depois.
Por exemplo, aqui pareceu que tinha personagem demais com pouco espaço pra se desenvolver. E ainda acrescentaram mais do que no original ou deram mais ênfase a outros, como a da Malin Akerman, e ainda um macaco, que com certeza esão lá para o Tom Cruise ter mais tempo de câmera. Bryan Cranston, do seriado Breaking Bad, interpreta o prefeito, mas ele passa o filme inteiro sem nada pra fazer e mal aparece. A personagem dele que canta Keep on Loving You do REO Speedwagon na versão dos palcos, mas o número foi cortado do filme.
A personagem do Russell Brand, que nos palcos era o narrador e guiava a história, servindo de fio condutor dos núcleos diferentes, aqui não é nada. Só é o Russell Brand sendo o irritante e repulsivo normal dele mesmo. Se cortassem não fazia diferença. Acho que só o mantiveram pela piada do número de Can’t Fight This Feeling, também do REO Speedwagon, que no musical é uma piada (meio senso comum/status quo) da metade pro fim, mas no filme já entregam o que poderia ser surpresa logo de cara, e quando a hora chega, todo mundo já sabia. Alec Baldwin, coitado, teve que tolerar o xarope. E Alec, meu querido, por favor, não cante e dance mais, tá? Agradecido!
Pontos negativos: Quantas vozes surreais eram aquelas? Auto-tune demais! Era algo tipo Vozes do Além in Concert. Glee acabou com o que restava de naturalidade na música mainstream... Timbres plásticos e mecânicos, sem espontaneidade alguma, que é o trunfo do rock. Todo mundo sabe, produziu demais, embonecou muito, vira pop. Os poréns nesse sentido foram, obviamente, Mary J. Blige e Catherine Zeta-Jones, que desde Chicago já tinha provado que tem voz de fato. E é pouco aproveitada como a vilã nesse filme. A cena dela com Tom Cruise, coitada... Ela não merecia aquilo.
E falando em Tom, o que foi aquilo? Nunca vi tão canastrão. E inchado demais de puxar ferro, ou esteróides, sabe-se lá. E nas entrevistas preliminares à estréia do filme, todos os envolvidos diziam o quão surpresos ficaram com a voz dele. Claro que eles têm que vender o peixe deles, mas aquela voz parece ser de qualquer pessoa, menos dele. Até lembra a voz dele, mas mesmo artificial, com aquele excesso de auto-tune, eu francamente não achei que fosse ele cantando. Não me surpreenderia uma revelação à la Milli Vanilli ou Marni Nixon no futuro.
Julianne Hough, que faz a mocinha “Sherrie Christian” (nome 'mashup' de Oh Sherrie do Steve Perry e Sister Christian dos Night Ranger), se não me engano estrelou o remake de Footloose (que eu, conscientemente, me poupei de ver), é bonita, mesmo me lembrando da líder de torcida de Heroes, e convence atuando (num papel sem grandes exigências, sejamos sinceros), mas o que é aquela voz? O quê que ela fez com More Than Words? Cadeira elétrica para essa energúmena estridente e nasal! Parecia um dueto da Laurinha dos Ursinhos Carinhosos com um gato faminto. Lea Michele difundindo a arte de como quebrar cristais e estourar tímpanos.
Já Diego Boneta, o RBD, me surpreendeu e nem compromete. Achei decente. Ainda no elenco, tem o Paul Giamatti, que faz o empresário/sanguessuga/aproveitador, e umas aparições breves de Constantine Maroulis, ex-participante do American Idol que estrelou a versão dos palcos, Will Forte, que faz o namorado transformista da Jenna no seriado 30 Rock, e de próprios roqueiros dessa época, como Sebastian Bach do Skid Row, Kevin Cronin do REO Speedwagon, Nuno Bettencourt do Extreme e até da Debbie Gibson, entrando de gaiata no navio. Abriram a catacumba. No fim, a comparação entre musical e filme fica inevitável, e a vida e energia que as músicas e a banda ao vivo dão, são o que mais fica faltando no filme. Apesar de ser uma boa diversão para momentos em que não se quer pensar demais.

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