quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Crítica A Dama de Ferro

Morde e Assopra

A Dama de Ferro // The Iron Lady


Nota: 5,5

A única coisa que me fez querer ver esse filme foi a presença da Meryl Streep. Na verdade nem era querer, por assim dizer, mas uma tolerância, seria mais apropriado pontuar. Pode parecer mesquinho da minha parte, mas eu não gosto de ver biografias de pessoas “não-admiráveis”, tanto que evito filmes sobre o Hitler, por exemplo. A questão é que filmes como esse humanizam seus retratados, até porque ninguém é ruim por querer deliberadamente ser ruim, como em desenhos animados. “Eu sou mau, muaaaahahahaha!” E, sinceramente, eu não quero ter simpatia alguma por esse povo que eu desprezo, até porque todo mundo, figuras admiráveis ou não, envelhecem e perecem. E A Dama de Ferro faz isso a cada segundo, implora por compaixão pela velhota.

Bom, pra quem não sabe. Margaret Thatcher foi a primeira e única mulher a ocupar o cargo de Primeiro Ministro da Grã Bretanha. Foi nos anos 80. E apesar de ser mulher, de quebrar barreiras e chegar a tal cargo, ela está bem longe de ser um ícone feminista, ou quiçá progressista. Só por fazer parte do partido conservador, sem nem levar em consideração seu governo, já é motivo o bastante para se fazer deliberar. Quem quer progresso, mudanças e quebra de paradigmas não tem como ser conservador. O que há de tão perfeito para se conservar, afinal?

O roteiro na verdade me pareceu uma grande fantasia, pois a maior parte do filme mostra uma Thatcher já bem idosa, sofrendo com Alzheimer, alucinando aos quatro cantos com seu falecido marido, um sujeito bonachão. Ou seja, a enigmática Thatcher de hoje, reclusa, que não mais aparece na mídia. Pura especulação. Uma forma de amolecer a figura da dama-de-ferro. A megera foi domada.

Seu período como ministra, que é a parte mais interessante do filme, só chega perto do fim, e dura pouquíssimo. E, pra mim, só corrobora com o que eu já pensava dela. Depois de assoprar tanto a figura, de muito implorar por nossa compaixão, eis então que o filme morde. Apesar de muito de leve. Mas depois volta pra fase velha decrépita, pra gente amolecer de novo. Enfim, sua política neoliberal foi deplorável.

Cortou investimentos sociais importantes, privatizou o país inteiro (porque a inciativa privada é quem melhor cuida do país), abafou greves no cacetete, como a gente já viu em Billy Elliot, e a pior parte pra mim: na base do ufanismo, comprou a simpatia da população travando uma guerra com a Argentina, por causa de duas ilhotas gélidas que ela certamente nem sabia que existiam. Foi uma mãe pro sistema capitalista, aquele onde, como já diria o poeta, o de cima sobe e o de baixo desce. Deixou tudo correr solto. O povo? Que se dane. Que vá trabalhar. Os grandes empresários e corporações vão tomar conta de vocês. Vejam só como Wall Street está cuidando bem de nós...

Aí depois de 11 anos dessa figura pintando miséria na terra da rainha, aí me vem o FHC e seu PSDB implementar o mesmo modelo no Brasil. O resultado? Entre diversos outros, reajuste salarial de 1% em oito anos para professores universitários (educação é um ítem supérfluo), um monte de Oi, Tim e Claro e outras similares em diversos outros ramos, empestadas de país adentro, e a gente por horas no disque-consumidor pra mudar um endereço de cobrança, cancelar um serviço ou qualquer outra coisa. Porque as grandes empresas estão muito interessadas no bem estar do cliente, é só ver como aqueles sorrisos largos e contagiantes das propagandas correspondem a nossa realidade cotidiana.

2 comentários:

  1. Acho que criticou mais a figura em que o filme se baseia do que o filme em si. Na minha opinião, é um filme subvalorizado. Grande Meryl Streep, à frente de um grande drama.

    Roberto Simões
    CINEROAD

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    Respostas
    1. Se a crítica fosse a Thatcher, minha nota seria zero hahahaha...
      Eu acho que o filme mostra pouco do que realmente interessa, a história. Pouco me importa saber de como estaria a vida dela trancafiada e com Alzheimer depois de sair da vida pública, e é o que mais tem no filme, que eu suponho que seja um faz de conta de como seria a rotina dela. Ainda dei uma nota 5 porque no terço final conta mais ou menos como foi o governo dela. Talvez se a história fosse apenas sobre a conduta dela no episódio das Malvinas ou da greve dos mineradores, por exemplo, seria muito mais interessante.
      Abraço!

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