segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Oscar 2012


John Stewart, Chris Rock, Anne Hathaway, James Franco, Steve Martin, Alec Baldwin. Não importa quem seja o apresentador do evento, nem trazer Billy Crystal de volta, que a cerimônia esse ano provou que o que não funciona mesmo é a fórmula pra lá de gasta. Cortaram as músicas, os prêmios especiais por carreira, correram como podiam, diminuíram ainda mais a tolerância dos discursos de agradecimento, mas o evento continuou longo, arrastado, cansativo. Além de enfadonho.

E cada vez mais me certifico que a cerimônia não premia qualidade, mesmo O Artista sendo um bom filme. Acho que é mais uma forma de se premiar uma tendência, do que a excelência em si. A tendência desse ano foi nostalgia. O Artista e Hugo levaram 5 prêmios cada, e são dois filmes sobre os primórdios do cinema, que certamente tocaram o coração dos eleitores da Academia, que na sua média, é masculino, branco e acima dos 60 anos de idade. E por fim meus filmes favoritos nunca vão longe. Raramente meus favoritos vencem. Disso eu já até me acostumei.

Christopher Plummer consagra-se o ator mais velho a ganhar um Oscar. Meryl vence finalmente depois de 29 anos, com um vestido quase igual ao da vez anterior. A conclusão que me fica é que a cerimônia ainda é bem status quo, só ver como a festa é tão TFP (tradição-família-propriedade), moral e bons costumes, sem transgressões ou ousadias, e o momento mais ‘‘chocante’’ (ou inesperado) é o Borat sacudindo poeira no Ryan Seacrest no tapete vermelho, e ainda usarem gays como motivo de riso, como no beijo de Billy Crystal e George Clooney, e Colin Firth anunciando prêmio. Esses roteiristas precisam ver The Celluloid Closet urgente.


Frases da noite:
Estou aqui pra te conseguir o demográfico de 18 a 24
Justin Bieber, na montagem de abertura, fazendo piada com a constante luta,
em vão, da Academia de atrair a audiência jovem para assistir o evento.


Essa abertura foi ‘Extremely Loud & Incredibly Close’. Esta é minha nona vez apresentando, então podem me chamar de ‘War Horse’.
Billy Crystal, no seu monólogo inicial.

O cinema está sempre aí para nós. É onde podemos rir, chorar... mandar SMS...
Billy Crystal, no seu monólogo inicial.

Divirtam-se esta noite! Nada pode nos fazer esquecer dos problemas econômicos mundiais como ver milionários se premiarem com estatuetas de ouro.
Billy Crystal, no seu monólogo inicial.

Nove é o novo dez.
Billy Crystal, claramente debochando da bobagem da academia de não
arredondar o número de indicados a melhor filme.

Depois de ver The Help eu queria abraçar a primeira mulher negra que eu encontrasse, mas de Beverly Hills são 45 minutos de carro.
Billy Crystal, fazendo piada e ironizando como as coisas
não mudaram tanto assim.

Você é uma mulher de sorte. Ele beija muito bem.
Billy Crystal, se dirigindo à Stacy Keibler, namorada do George Clooney,
fazendo piada com o beijo que eles deram na montagem de abertura.

Vejam só alguns dos indicados: Christopher Plummer, com 82 anos. Max von Sydow, com 82 anos. Quando meu avô tinha 82 anos a gente não deixava nem ele ir ao cinema.
Billy Crystal, falando sobre os indicados a ator coadjuvante.

Vamos dar o fora daqui.
Os vencedores de melhor montagem por Millenium (a melhor coisa do filme,
de fato), mostrando que o pessoal da parte técnica realmente
não se sente muito confortável nos holofotes.

Eu não estaria aqui se não fosse (...) por meu parceiro de cena, Ewan McGregor, um ator soberbo, e com quem eu felizmente dividiria esse prêmio se eu tivesse alguma decência, mas eu não tenho.
Christopher Plummer, recebendo seu prêmio de ator coadjuvante.

Eu prefiro um curta que seja bom pra mim a um longa que só fica lá e você tem que fazer o trabalho todo.
Kristen Wiig, junto com as demais protagonistas de Bridesmaids,
apresentando o prêmio de Curta Metragem.

Meryl... Mamma Mia! Estávamos na Grécia, nós dançamos, eu era gay, e éramos felizes. E provavelmente sou o pai da sua filha.
Colin Firth, apresentando Meryl Streep como candidata a melhor atriz
e relembrando quando contracenaram juntos.


Quando meu nome foi anunciado eu pude sentir que metade do país dizia ‘Oh, não! Por que ela de novo?’
Meryl Streep, aceitando o prêmio de melhor atriz.



Top 5 – Melhores Momentos:

1. Octavia ganhando melhor atriz coadjuvante (vídeo aqui). Pelo menos uma verdadeira torcida minha tinha que se concretizar.



2.
Os vídeos dos atores contando suas memórias de infância sobre cinema. Esse de cima foi o primeiro deles, mas houve diuversos espalhados na transmissão. Apesar de ter alguns atores lá, tipo Adam Sandler, falando com tanta propriedade que até fazia parecer que eles têm alguma coisa que preste no currículo.


3.
O vídeo satírico de uma platéia teste de O Mágico de Oz, cheio de comediantes ótimos e esquecidos pela academia, como Eugene Levy, Christopher Gues, Catherine O'Hara e Jennifer Coolidge. E cá entre nós a academia nunca gostou de comediantes.



4.
Emma Stone apresentando o prêmio de melhor efeitos especiais. Mesmo com o Ben Stiller do lado.



5. Esperanza Spalding cantando What a Wonderful World para os falecidos.



Top 5 – Piores Momentos:

1. Meryl vencendo melhor atriz. Jamais imaginei ficar triste de vê-la ganhando um Oscar (levando em consideração que as duas vezes que ela venceu eu nem era nascido), mas esse ano torci de corpo e alma, e mais um pouco, pela Viola Davis.

2. Apressarem o discurso da Octavia Spencer, que ficou louca correndo pra terminar, e perderem tempo demais com besteiras, como sketchs ridículos, como o da Gwyneth com Robert Downey, e mostrando aqueles músicos tocando música de elevador antes dos intervalos, além das vendedoras de pipoca à la pin-ups, que não faziam sentido algum.

3. Rio perdendo canção para aquela sentinela sem graça dos Muppets.

4. Estragarem a montagem “vamos ao cinema”, que começou tão bem com A Princesa Prometida, Lendas da Paixão, Amélie e Ghost, colocando depois todos os comediantes podres de Hollyood. Ben Stiller, Adam Sandler, Mike Myers, Eddie Murphy... Não esqueceram nenhum! E só colocaram filmes relativamente recentes.

5. Ver Melissa Leo de novo.



Constatações:

- Emma Stone é a nova Julia Roberts. Pelo menos a simpatia dela parece ser autêntica.

- Nick Nolte: de Sexiest Man Alive, em 1992, a Papai Smurf.

- Gwyneth já é uma assombração, não precisava ir vestida de fantasma...

- Sandra Bullock tá japonesa. Tá passando pelo processo de plastificação que Nicole Kidman passou alguns anos atrás e, ainda bem, parece ter deixado de lado.

- Até Barbra Streisand caprichou no bisturi agora.

- E Tom Cruise também mergulhou no botox.

- Angelina Jolie continua doentiamente esquálida. E tá ficando a cara da Joan Collins (aquela perua de Dynasty, aquela novela quase mexicana).

- Rooney Mara esteve linda no Globo de Ouro, mas foi pro Oscar com um franjão de Maria-Mijona.

- Dujardin, que tinha minha torcida, me pareceu, dessa vez, canastrão e pedante. Devia ter torcido pelo George Clooney.

- Até agora não entendi porque Cameron Diaz e Jennifer Lopez viraram as costas (no caso da J-Lo, o bundão) pra platéia antes de entregar o prêmio de maquiagem. Cá entre nós, A maquiagem de Harry Potter era muito melhor.

Obs: Mistério esclarecido! J-Lo pagou peitinho e virou de costas pra se arrumar. Cameron ficou de costas em solidariedade.

- Bérénice Bejo fica melhor em preto e branco.

- Jessica Chastain estava linda.

- Glenn Close e Janet McTeer se passando por homens em Albert Nobbs é, assim, tão convincente quanto a ‘exótica cantora’ de The Crying Game.

- Por mais que eu odeie admitir, o Cirque du Soleil me deu sono.

- Chris Rock tem um tom de voz insuportável. Ele pode dizer bom dia, que já desperta minha antipatia.

- Rubens Ewald continua bem enjoadinho, como por exemplo chamar Christopher Plummer de canastrão (mesmo que outrora), mas quando ele espinafrou a Rooney Mara e o Millenium, eu não vou mentir que concordei...


A lista completa de vencedores:

Melhor filme
O Artista

Melhor diretor
Michel Hazanavicius -
O Artista

Melhor atriz
Meryl Streep por "A Dama de Ferro"

Melhor ator
Jean Dujardin por "
O Artista"

Melhor ator coadjuvante
Christopher Plummer por "Toda Forma de Amor"

Melhor atriz coadjuvante
Octavia Spencer por "Histórias Cruzadas"

Melhor Roteiro Original
Woody Allen por "Meia-Noite em Paris"

Melhor Roteiro Adaptado
Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash por "Os Descendentes"

Melhor Filme Estrangeiro
"A Separação" de Asghar Farhadi (Irã)

Melhor Animação
"Rango" de Gore Verbinski

Melhor Curta de Animação
"The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore" de William Joyce e Breon Oldenburg

Melhor Documentário
"Undefeated" de TJ Martin, Dan Lindsay e Richard Middlemas

Melhor Documentário Curta Metragem
"Saving Face" de Daniel Junge e Sharmeen Obaid-Chemoy

Melhor Trilha Sonora
Ludovic Bource por "
O Artista"

Melhor canção
"Man or Muppet" de "Os Muppets"

Melhor Direção de Arte
Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo de "A Invenção de Hugo Cabret"

Melhor Fotografia
Robert Richardson de "A Invenção de Hugo Cabret"

Melhor Edição
Kirk Baxter e Angus Wall de "Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres"

Melhor Mixagem de Som
Tom Fleischman e John Midgley de "A Invenção de Hugo Cabret"

Melhor Edição de Som
Philip Stockton e Eugene Gearty de "A Invenção de Hugo Cabret"

Melhor Efeitos Visuais
Rob Legato, Joss Williams, Ben Grossman e Alex Hennemg de "A Invenção de Hugo Cabret"

Melhor Maquiagem
Mark Coulier e J. Roy Helle de "A Dama de Ferro"

Melhor Figurino
Mark Bridges de "
O Artista"

Melhor Curta Metragem
"The Shore" de Terry George e Oorlagh George

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Crítica A Dama de Ferro

Morde e Assopra

A Dama de Ferro // The Iron Lady


Nota: 5,5

A única coisa que me fez querer ver esse filme foi a presença da Meryl Streep. Na verdade nem era querer, por assim dizer, mas uma tolerância, seria mais apropriado pontuar. Pode parecer mesquinho da minha parte, mas eu não gosto de ver biografias de pessoas “não-admiráveis”, tanto que evito filmes sobre o Hitler, por exemplo. A questão é que filmes como esse humanizam seus retratados, até porque ninguém é ruim por querer deliberadamente ser ruim, como em desenhos animados. “Eu sou mau, muaaaahahahaha!” E, sinceramente, eu não quero ter simpatia alguma por esse povo que eu desprezo, até porque todo mundo, figuras admiráveis ou não, envelhecem e perecem. E A Dama de Ferro faz isso a cada segundo, implora por compaixão pela velhota.

Bom, pra quem não sabe. Margaret Thatcher foi a primeira e única mulher a ocupar o cargo de Primeiro Ministro da Grã Bretanha. Foi nos anos 80. E apesar de ser mulher, de quebrar barreiras e chegar a tal cargo, ela está bem longe de ser um ícone feminista, ou quiçá progressista. Só por fazer parte do partido conservador, sem nem levar em consideração seu governo, já é motivo o bastante para se fazer deliberar. Quem quer progresso, mudanças e quebra de paradigmas não tem como ser conservador. O que há de tão perfeito para se conservar, afinal?

O roteiro na verdade me pareceu uma grande fantasia, pois a maior parte do filme mostra uma Thatcher já bem idosa, sofrendo com Alzheimer, alucinando aos quatro cantos com seu falecido marido, um sujeito bonachão. Ou seja, a enigmática Thatcher de hoje, reclusa, que não mais aparece na mídia. Pura especulação. Uma forma de amolecer a figura da dama-de-ferro. A megera foi domada.

Seu período como ministra, que é a parte mais interessante do filme, só chega perto do fim, e dura pouquíssimo. E, pra mim, só corrobora com o que eu já pensava dela. Depois de assoprar tanto a figura, de muito implorar por nossa compaixão, eis então que o filme morde. Apesar de muito de leve. Mas depois volta pra fase velha decrépita, pra gente amolecer de novo. Enfim, sua política neoliberal foi deplorável.

Cortou investimentos sociais importantes, privatizou o país inteiro (porque a inciativa privada é quem melhor cuida do país), abafou greves no cacetete, como a gente já viu em Billy Elliot, e a pior parte pra mim: na base do ufanismo, comprou a simpatia da população travando uma guerra com a Argentina, por causa de duas ilhotas gélidas que ela certamente nem sabia que existiam. Foi uma mãe pro sistema capitalista, aquele onde, como já diria o poeta, o de cima sobe e o de baixo desce. Deixou tudo correr solto. O povo? Que se dane. Que vá trabalhar. Os grandes empresários e corporações vão tomar conta de vocês. Vejam só como Wall Street está cuidando bem de nós...

Aí depois de 11 anos dessa figura pintando miséria na terra da rainha, aí me vem o FHC e seu PSDB implementar o mesmo modelo no Brasil. O resultado? Entre diversos outros, reajuste salarial de 1% em oito anos para professores universitários (educação é um ítem supérfluo), um monte de Oi, Tim e Claro e outras similares em diversos outros ramos, empestadas de país adentro, e a gente por horas no disque-consumidor pra mudar um endereço de cobrança, cancelar um serviço ou qualquer outra coisa. Porque as grandes empresas estão muito interessadas no bem estar do cliente, é só ver como aqueles sorrisos largos e contagiantes das propagandas correspondem a nossa realidade cotidiana.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Crítica Tão Forte e Tão Perto

A Última Cruzada

Tão Forte e Tão Perto // Extremely Loud and Incredibly Close


Nota: 8,0


Bom, o trailer me fisgou. Não tenho como negar isso. Belas imagens, um conflito aparentemente interessante transparecendo, elenco competente, Where the Streets Have No Name do U2 tocando. Tudo parecia lindo. Além disso, é do Stephen Daldry, diretor de Billy Elliot, As Horas e O Leitor, sem sombra de dúvidas três dos melhores filmes produzidos na década passada. Tudo contando a favor. Mas aí o filme estreou e veio o bombardeio. Da crítica. De público, sinceramente, não tenho idéia. Não conheço ninguém que viu, e o filme não anda muito bem de bilheteria também. Então já fui ver o filme com dois pés atrás. E na verdade isso só ajudou, pois se a expectativa continuasse como estava antes, certamente eu teria gostado menos dele.

Enfim, a história é sobre Oskar, um menino extremamente inteligente e intelectualizado, que não se dá bem com outras crianças. O típico menino metido a adulto e que normalmente é insuportável. E, além disso, ele tem uns tiques bem típicos de pessoas com distúrbios psicológicos como síndrome Asperger, TOC e similares, que eu não tenho conhecimento aprofundado para diagnosticar. Um Sheldon (do seriado The Big Bang Theory) mirim, colocando em uma perspectiva.

Ele é muito ligado ao pai, Tom Hanks em breve aparições, com quem disputa diversos jogos, tipo caça ao tesouro, e tem uma relação de certa forma distante com a mãe, feita pela Sandra Bullock. Então chega 11 de setembro, e seu pai estava nas torres gêmeas a negócios. Desde então seu mundo, naturalmente, rui. Mexendo nas coisas do pai ele encontra uma chave e acredita ser mais uma de suas caça ao tesouro, e parte por Nova York em busca de uma última hipotética mensagem que seu pai o deixou, com a ajuda do inquilino da sua avó, que curiosamente não fala, feito pelo grande Max von Sydow.

O filme tem takes lindos, como a revoada de pássaros antes do menino visitar mais uma casa na sua busca incessante, uma fotografia muito bonita. Mas o roteiro do Eric Roth, que fez Benjamin Button e Forrest Gump, se supera no quesito pieguice. Até mais do que os seus outros dois filmes mais famosos, tanto que eu, que tenho alma kitsch por natureza, não consegui abstrair. Parecia filme do Spielberg, pra ser sincero.

Mas por outro lado, devemos levar em consideração que o filme é carregado a partir do ponto de vista de um menino de 12 ou 13 anos, que acabou de perder o pai, e cheio de tiques, ainda mais. E todos nós lembramos como é ser criança: transformar tudo em fim do mundo. Imagine então depois de perder a pessoa mais importante na sua vida. Então de certa forma, a questão do tom da narrativa se levar tão a sério, numa espécie de mega-dramalhão, poderia ser justificada tranquilamente.

Mas por outro lado nada justificativa o terço final, com uma resolução, que nada tem a ver com o tom da narrativa, tão forçada. Uma coincidência elaborada demais e fantasiosa. Aí sim eu concordo que Eric Roth (ou o escritor do livro) errou na mão. Parece querer manipular o seu público a se emocionar a qualquer custo. Comigo eu posso dizer que não funcionou, mas a sala de cinema inteira onde eu fui estava se debulhando em lágrimas.

Muitos críticos reclamam que o filme não merecia a indicação ao Oscar de melhor filme, mas eu não sei. Sendo sincero, já vi muita coisa pior ser indicada. E ganhar. Tão aí Avatar e Crash que não me deixam mentir. E dentre a lista dos nove indicados, nem de longe ele é o pior. Mas que havia outros filmes superiores que nem na lista entraram, isso é inegável. Aí então entra o peso dos nomes envolvidos no projeto, aliados a uma campanha de marketing eficiente para que a indicação aconteça.