quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Crítica O Artista

Meia-Noite em Hollywood

O Artista // The Artist


Nota: 9,0


Em uma época onde todos os filmes são em cores, com diálogos, e, cada vez mais, extrapolam de recursos e efeitos visuais, reutilizar uma estética e tecnologia primitiva, já fora de uso há mais de 8 décadas, e fora do circuito alternativo ou de arte, era algo impensado. Até esse filme francês (sempre eles) conseguir a proeza. A idéia e equipe são francesas, mas o filme foi rodado e financiado em Hollywood, e utiliza um elenco misto. Nomes famosos como John Goodman e Penélope Ann Miller fazem participações importantes, mas os dois maiores astros são dois desconhecidos do público, um francês, Jean Dujardin, e uma argentina, Bérénice Bejo. Ou seja, algo surreal de acontecer na indústria. E normalmente quando Hollywood se permite a ousadia, dá certo.

A história é sobre um ator de extremo sucesso do cinema mudo nos anos 20, que se recusa a se adaptar à inovação do cinema falado e acaba ficando obsoleto, e ainda vê sua protegida, mais moderninha, brilhando e emplacando filmes (todos com nomes deliciosamente frívolos, bem peculiares à época) de sucesso seguidos, enquanto ele amarga seu vertiginoso declínio.

O filme brinca com a história do cinema. As quantidades de citações só são comparáveis as de Tarantino e aos momentos mais inspirados de Scorsese, no circuito mainstream. De fato, lembra demais Cantando na Chuva, como muitos já disseram, e ainda mescla tons e transporta filmes clássicos de décadas passadas para a ótica do cinema mudo. Uma declaração de amor à sétima arte e aos anos dourados de Hollywood, algo tipo Paris, Je T’aime ou New York, I Love You, e, futuramente, Rio, Eu te Amo (medo!), mas com um enredo único.

Tem trechos de Crepúsculo dos Deuses, os famosos musicais da Metro, pode lembrar Baby Jane, e servir de “paródia” para a vida de diversos artistas conceituados da época. E o roteiro também tira sarro de si mesmo diversas vezes, por exemplo, quando Bérénice Bejo diz que o cinema falado permite romper o modelo “caras e bocas” do cinema mudo, enquanto é tudo isso que eles mesmos fazem durante a projeção inteira.

O elenco todo brilha em perfeita sintonia. Dujardin faz uma espécie de Rodolfo Valentino e Bejo é de uma fotogenia extrema. Um casal extremamente carismático e charmoso. Fica a dúvida se eles terão um futuro em Hollywood, como têm Javier Bardem, Marion Cotillard e Penélope Cruz, ou se ficarão pelo caminho, como Roberto Benigni (Deus é pai!), Adriana Barraza e Rinko Kikuchi. Por estrelarem um filme em que suas vozes e sotaques são incógnitas, a resposta ao questionamento fica no ar.

O filme tem sido extremamente elogiado e arrebatado todos os prêmios da safra 2012, e caminha tranquilamente para o Oscar. De inventivo não tem absolutamente nada. Mas é extremamente criativo. Talvez o maior trunfo e mérito do filme seja a direção do francês Michel Hazanavicius. Seria fácil, fácil deslizar e cair num pastiche preguiçoso de Carlitos, ou transformar Dujardin numa caricatura de Gene Kelly. Colocando em proporção, O Artista é, mais ou menos, para cinema o que Amy Winehouse foi para a música pop há alguns anos atrás. Uma sessão nostalgia que certamente desagradará ao público em geral, alérgico à “velharias”, mas para quem ama cinema é como se perder com Owen Wilson à meia-noite em Paris.

5 comentários:

  1. Emocionada com sua crítica. Extremamente bem feita, analítica e acurada. Amei e vou divulgar. Beijos.

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  2. O Artista nos revela a magia do cinema, em seus primeiros passos, na minha opiniao desbanca facil os outros indicados, os protagonistas estao numa sintonia sem igual, trilha maravilhosa e um caozinho que da show no seu papel secundario.

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  3. Não assisti ao filme ainda mas ao ver a sua critica e as imagens que foram divulgados na mídia, estou extremamente ansioso para vê-lo. Como diz o texto "é uma declaração de amor a sétima arte."

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  4. Concordo com todos! Só não acho que ele desbanque fácil - a maioria - dos outros indicados. Ele se destaca por ser diferenciado. Mas há outros filmes tão bons quanto.

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  5. É sem dúvida um bom filme, não deve ser ignorado!
    A minha crítica: http://cineroad.blogspot.pt/2014/03/o-artista-2011.html

    Abraço,
    Roberto Simões
    CINEROAD

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