quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Crítica Histórias Cruzadas

À Flor da Pele

Histórias Cruzadas // The Help


Nota: 10


Fui ver esse filme numa platéia teste que um amigo conseguiu os ingressos. Não sabia absolutamente nada sobre ele, mas me encantei de imediato com os nomes de Viola Davis e Sissy Spacek no elenco. Emma Stone é bem carismática e tem feitos bons filmes também. Na verdade o filme é uma adaptação de um dos best selles do momento (toda semana tem um novo), e fala sobre a repercussão do movimento de direitos civis no Mississipi, um dos estados mais retrógrados e conservadores, nos anos 60 e um retrato da vida da criadagem local, toda negra, obviamente. Lá pode ser primeiro mundo, mas diversos costumes não são nada diferentes aos do pessoal do “terceiro mundo”, com todos os resquícios dos seus preconceitos e hábitos de colonização. O engraçado é que são justamente esses os que mais cegamente defendem o imperialismo e pregam a superioridade da raça ariana... Oops! Americana.

Skeeter, feita pela Emma Stone, é uma moça que acaba de se formar na faculdade e volta para sua cidade natal, Jackson, e sente falta da criada que a criou, a veterana Cicely Tyson. Como toda pessoa que viaja, estuda, respira novos ares, vê um novo mundo, abre os horizontes, e retorna, ela passa a olhar com novos olhos aquela sociedade em que nasceu e se criou. Lord knows eu a entendo... E como!

As amigas delas não lhe parecem ser as mesmas pessoas, nem a sua família, que não a dá respostas convincentes do que terá acontecido à criada. Nesse meio tempo ela arruma emprego num jornal, onde ela terá que ser uma escritora-fantasma de uma coluna que responde dúvidas domésticas de donas de casa. Como ela não entende lhufas do assunto, pede ajuda à criada da casa de uma amiga, Viola Davis, magnífica como sempre.

Dessa vez, convivendo com a criadagem com outros olhos, ela tem a idéia de coletar relatos e depoimentos de como é a vida da criadagem dentro da casa dos seus patrões brancos, já que esse pessoal é marginalizado e jamais ouvido, e publicá-los num livro sob pseudônimos. Mas ela tem que enfrentar a resistência das criadas negras à idéia, já que elas morrem de medo de falar qualquer coisa, porque elas precisam do dinheiro para alimentar suas famílias. Cada centavo para essas famílias conta.

Bom, eu vi esse filme em agosto, bem no auge do verão americano, onde só tem bomba radiativa passando no cinema, e foi assim, uma brisa de ar fresco. Ri muito, derramei algumas lágrimas discretas, torci, enfim, me envolvi completamente. Fui até rever depois quando entrou comercialmente em cartaz para ver se mudaram alguma coisa depois das platéias teste. E nada foi mudado, por sinal.

A gente passa a perceber muita coisa, como o vocabulário que é aceitadamente usado em sociedade, acreditando piamente que não exercem nenhuma forma de discriminação. Por exemplo, o próprio nome do filme, The Help, ou traduzindo literalmente (o nosso título nacional ridículo, como de praxe, muito vago e clichê) a ajuda, é como eles chamam as pessoas que fazem seus serviços domésticos. Que ajuda é essa?

Num país que ainda carrega uma bagagem cultural muito grande da sociedade escravagista de alguns séculos atrás, impossível não se identificar diversas vezes com episódios da trama. E perceber que mesmo com todo o tempo que passou, com as leis de incentivo a inclusão, a maior parte dos negros fazem parte das camadas mais miseráveis da população, abrigam as favelas e guetos, na marginalidade.

Expressões como “cabelo ruim”, “porronca”, “denegrir”, “lado negro”, entre diversas, milhares de outras, são todas atreladas à raça negra. Até cotas em universidades para essas pessoas são questionadas e vistas com revolta. Será que realmente evoluímos? E como condenar algumas dessas pessoas por se auto-discriminarem? Qual a moral que a sociedade tem para julgar? A dívida que não só os EUA, mas o Brasil, e a humanidade em si, têm com os negros é muito grande.

No filme tudo funciona. A trilha sonora é ótima, reconstituição de época impecável, o roteiro é envolvente, a direção - do quase novato Tate Taylor - é certeira, mas, sobretudo, o elenco brilha. Emma e, especialmente, Viola estão ótimas, e o elenco coadjuvante também. Octavia Spencer como a criada pavio-curto é quase Oscar de coadjuvante certo. A novata Jessica Chastain, como a loira peituda desprezada pelas demais peruas loiras também tem indicação garantida. Bryce Dallas Howard é a vilã, Sissy Spacek só por aparecer na tela e dizer “bom dia” já me faz sorrir, e ainda tem Allison Janney e muitos outros rostos conhecidos do grande público. Como eu sou pé frio pra premiações, não prevejo muito sucesso para o filme, e além do mais é um filme bem feminino, não tem gangsters, lutas, espada de grayskull, nem nada... Mas ficarei, com certeza, na torcida.

8 comentários:

  1. Eu vi The help e achei que o filme tem muitas qualidades.Além das ótimas atuações, é um bom melodrama à moda antiga, com muitas reviravoltas e instantes de carga dramática exaltada. O que eu achei problemático no filme foi a opacidade das personagens negras que tem a história contada pela Emma Stone - pessoa letrada e branca que ficará com o crédito (simbólico, não estou falando do dinheiro) de ter enxergado naquela condição de subalternidade uma história, sem, no entanto, refletir, elaborar ou mesmo revoltar-se (a não ser na clandestinidade com os dois pedaços de torta) com o abuso ao qual são submetidas. Achei o filme condescendente com as mulheres negras, com aquele olhar hegemônico de condescendência e piedade, também tive a impressão de estar vendo flashes de E o vento levou, com uma criada muito amorosa e subserviente - que parece não ter vida própria e está muito contente com os restos que recebe - cuidado, aninhando e acarinhando a moça voluntariosa e branca,verdadeira protagonista da história.

    ResponderExcluir
  2. Essa eh uma critica recorrente ao filme. Eu ja acho que numa epoca, principalmente naquela regiao do sul, onde os negros eram exilados socialmente, da educacao, dos meios de comunicacao, dos aparelhos judiciarios, e esse costume ainda era reforcado perante a lei, perpetuamente na condicao de empregados subservientes, essa posicao de revolta era muito dificil de por em pratica. Acho que essa eh a realidade que a obra quis mostrar. Minny, por exemplo, mostra toda a atitude de orgulho que muitos negros hoje tem em relacao a sociedade, se nao me querem, tambem nao os quero. Mas ela precisa comprar o leite dos menino! Ja Abeline tem a mentalidade de subserviencia e inferioridade que foi criada para ter, que voce aqui faz o paralelo com E o Vento Levou. Muitos negros aqui no Brasil tambem a tem. Eu mesmo conheci alguns. Eh como eu disse no texto, quando voce ouve do mundo ao seu redor um mesmo discurso, voce passa a acata-lo. Nao era dificil se sentir inferior vivendo naquelas condicoes. Acho que Emma fica com o credito de tentar fazer a coisa certa. Dar voz a uma minoria. E minorias nao conseguem ser devidamente ouvidas sozinhas. Ou entao elas nao seriam minorias.

    ResponderExcluir
  3. Concordo com tudo o que vc diz, exceto com o final, minks. Se as minorias não negociarem a sua voz, por elas mesmas, continuarão a ser minorias políticas. Elas só existem pq são maiorias silenciosas e é justamente a voz e a visibilidade o que buscam, e o que pode transformá-las. Beijos!

    ResponderExcluir
  4. Eu concordo, mas essa negociacao partindo so por parte delas, nao leva muito longe. Toda classe tem um advogado importante, e muitas vezes eles não fazem parte da classe. Tipo o que Martha Suplicy é para a comunidade GLBT. E nao vejo isso como se os gays não fossem nada sem uma hétero para advogar por eles. Naquela epoca havia Martin Luther King tambem, que eh citado no filme, mas naquela comunidade negro nao tinha voz mesmo.

    ResponderExcluir
  5. Achei magistral o seu exemplo.
    Por que confirma tudo o que eu falei.
    Veja: não é à toa que a cinebiografia de Harvey Milk teve como subtítulo no Brasil " a voz da igualdade". A conquista da voz pública é, sim, uma negociação política e democrática que parte de baixo para cima, das minorias para a hegemonia. Conta com aliados políticos de muitas frentes, claro - nem sempre afinados como é o caso de Marta, totalmente a favor e aliada. Mas é uma negociação que parte das pautas, da representatividade social e das lutas das minorias organizadas. A Marta não seria a aliada que é se levasse ao movimento GLBTT uma pauta que deve ser construída a partir dele, de seu autoreconhecimento como movimento e sua organização interna.
    No caso de Milk, eles não teriam voz nenhuma e zero poder de reivindicação se não levassem as suas propostas a partir dos debates e pequenas conquistas no Castro. E as feministas negras norte americanas já questionaram inúmeras vezes essa incoerência histórica de que as negras eram subservientes e contentes em seu lugar, em vez disso, afirmam que vinham lutando de forma invisível paralelamente ao movimento negro de lideranças masculinas e ao movimento feminista branco e burguês. Por já estarem lutando por autonomia há muito mais tempo, entendo elas não quererem se ver representadas por alguém que 'filtra' o seu debate à luz das próprias perspectivas. Beijos!

    ResponderExcluir
  6. Só complementando. Estas pequenas coisinhas, assim, sutis, é que fazem um filme ficar. É o que dão à dramaticidade uma carga social reconhecível que possa permanecer e não apenas servir à emoção do momento. Por isso filmes como Milk e O Segredo de Brokeback Mountain serão comentados por muitos verões e produções como Crash e The Help não resistem a muitas estações.

    ResponderExcluir
  7. Mas o filme em nenhum momento mostra essas mulheres como pessoas conformadas e alegres com sua condição. São mulheres pobres e sem educação que desconhecem meios de se rebelar contra a situação que não acabe em repressão física da polícia. É tipo querer filmar uma história sobre demésticas feministas de Brasília Teimosa, que viram Norma Rae. Acho que se o filme tomasse esse rumo, seria muito clichê e batido, além de não corresponder à realidade do local. Não é a mesma coisa que mostrar feministas negras articuladas, mas que se escondiam secretamente no Brooklyn ou no Queens. Mississipi não é Nova York. Aquelas mulheres, sim, precisariam de uma pessoa que pudesse catalogar, registrar e organizar os pensamentos e histórias delas em forma de protesto. E não havia uma negra que pudesse fazer isso por elas ali. Não se esqueça que os gays de Milk, por exemplo, eram quase todos homens brancos, que poderiam conseguir os cargos mais altos e manter contato com pessoas poderosas, e de lá barganhar. Sexualidade pode se esconder, principalmente sob a carapuça das camadas privilegiadas. Já cor da pele, não, apesar do Michael Jackson querer me contrariar.

    ResponderExcluir
  8. Nós não sabemos se não havia um movimento articulado - não necessariamente letrado. As historiadoras negras dizem que sim, cabe lê-las e conhecê-las melhor antes de dizer que o Mississipi não era Nova York.
    A cor púrpura, já ouviu falar?
    Eu acho este um ponto relevante, pois o filme é incômodo, sim, pela subserviência explícita das mulheres, as bás cuidadoras e abnegadas das sinhazinhas. Me senti vendo E o vento levou, A escrava Isaura. Filme escravagista e que naturaliza as relações de desigualdade.

    ResponderExcluir