segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Crítica de O Impossível

O Peso da Água 

O Impossível // The Impossible

Nota: 8,0


Adoro filme catástrofe. Segundo Caco Antibes, pobre adora tragédia. Então eu sou a própria rafaméia. Mas eu gosto delas só em filmes. Sensalionismo na TV me dá ojeriza. A gente sempre se imagina na situação e como reagiríamos se estivéssemos vivendo também o momento. Claro que a maioria de nós sempre crê que seríamos o próprio Highlander, e sobreviveríamos a todos os percalços, e voltaríamos pra casa triunfantes, um pouco sujo de lama, pra dar o tom dramático. O que ninguém imagina é que um coqueiro poderia cair na sua cabeça. Ou que dentro da correnteza tem lataria de carro, placa de trânsito, galho de árvore...  Se você não morrer afogado, as chances de sobreviver aos demais obstáculos são menores ainda.
Curiosamente o filme é espanhol, com equipe espanhola, mas todo rodado e escrito em inglês, pra ter mais público, obviamente, e é baseado no caso de uma família espanhola que se desencontrou no meio da tsunami na Tailândia no natal de 2004. No caso, a família de Naomi Watts e Ewan McGregor, dois britânicos que vivem no Japão, vai passar férias de fim de ano nesse resort paradisíaco na Tailândia. Mal eles chegam e o desastre assola a região.
A mãe consegue se encontrar com o filho mais velho, mas ela acaba se ferindo gravemente enquanto levada pela correnteza. O filho, então, tem que ajudá-la a encontrar um hospital. O pai consegue ficar junto dos dois filhos mais novos, mas no meio do ambiente catastrófico, todos continuam suas buscas, na esperança, mesmo que remotas, de se reencontrarem.
É um filme eficiente, com momentos edificantes. Naomi Watts brilha, e os atores mirins são muito bons. O clima de desespero e desamparo me parece bem real, aqui do alto da minha perspectiva de quem nunca viveu nada parecido. Mas o trailer, ao som da versão de One do U2 do Daniel Rice, é até melhor do que o filme em si, como acontece na maioria das vezes.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Crítica de As Aventuras de Pi


Viagem Insólita

As Aventuras de Pi // Life Pi

Nota: 9,5


Ang Lee é um dos diretores mais competentes do cinema atual. Ele consegue transitar por diversos gêneros sempre de forma competente. Fez filmes muito respeitados, e que eu gosto, como O Banquete de Casamento, Razão e Sensibilidade, A Tempestade de Gelo, Brokeback Mountain, outros que eu não gosto tanto, como O Tigre e o Dragão, que me dá um sono danado... E como todo mundo tem suas caveiras debaixo da cama, ele fez Hulk. Dessa vez ele volta a trabalhar com fantasia e dirige essa adaptação do um famoso livro homônimo do escritor canadense Yann Martel, que tem feito muito sucesso com público e crítica, e colecionado indicações a prêmios, como a maioria dos seus filmes normalmente faz.
Aqui a história é sobre Piscine, que com um nome desse só podia virar motivo de chacota na infância, um imigrante indiano que vive no Canadá procurado por um novelista que soube da sua interessante história de vida. Então ele conta como era sua vida na Índia, filho de donos de um zoológico, que então resolvem imigrar para o Canadá. Só que os planos saem desastrosos quando o navio naufraga numa tempestade, e ele tem que sobreviver em um bote no meio do oceano com inesperadas companhias.
O filme por si só poderia ser só uma bela fábula, mas pra mim o que engrandece é o terço final, como a história se fecha, ligando os pontos e dá um toque de humanidade. Esse sim é maior trunfo da obra de Martel, adaptada por David Magee de Em Busca da Terra do Nunca, o toque marcante da estória e que emociona mais do que qualquer coisa que acontece antes na trama.
O filme tem muitos pontos fortes. Antes de tudo, visualmente ele é fantástico. Os efeitos especiais são lindos, as cores, a direção de arte é impecável. O elenco é ótimo, e o destaque é o menino indiano Suraj Sharma que passa muito mais que a metade do filme interpretando sozinho, já que o tigre, a sua bola de vôlei de Wilson, é efeito especial. Pra mim esse é um Náufrago bem mais eficiente do que aquele do Tom Hanks.
Chama atenção também por ser um dos raros filmes mainstream que não retratam uma cultura distinta de forma pejorativa nas telas. Argo tá aí que não me deixa mentir. Quando Ben Affleck pisa em Teerã, ele fica cercado por inimigos selvagens e intolerantes, e nós, como ocidentais só podemos ter empatia por ele, porque é mais parecido conosco, e porque a história nos conduz a isso. Mas a gente não viu graça nenhuma com Turistas, por exemplo, que por nossa sorte ninguém levou aquilo a sério. Mas outros filmes importantes como O Expresso da Meia-Noite e Slumdog Millionaire já repetiram esse mau-costume.
Em relação aos prêmios, que são o principal assunto da indústria no momento, As Aventuras de Pi com certeza estará entre os concorrentes de todos os prêmios. Está dentro de todos os indicados que foram anunciados até aqui, como o Globo de Ouro e o Critics’ Choice. Já quais suas reais chances, difícil dizer agora. Mas ele tem concorrência forte do Lincoln de Spielberg (saco nenhum pra ver esse) e Argo, que é o.  tipo de filme que normalmente agrada votante. Mas até agora meu favorito, além dele, é Silver Linings Playbook, que logo, logo escreverei sobre.
Ang Lee prova mais uma vez que seu forte, assim como fez em Brokeback Mountain, é quando ele não tem muito a dizer, mas muito a mostrar. Quanto menos diálogo melhor. A verdadeira personificação de que uma imagem vale mais que mil palavras. Susana Vieira estaria perdida com um script desses nas mãos. Pra ele esse máxima funciona. Pra outros diretores/roteiristas como Tarantino ou Neil Simon, o diálogo é sua arma principal. Cada um com suas fortalezas.


UPDATE: Acho que empolgado e com entusiasmo, esqueci de comentar o ponto fraco do filme, na minha opinião, que é a visão religiosa proselitista, meio que ecumênica pois o herói é católico/hindu/islâmico, por gostar das três crenças, mas fica subentendido na história que a única forma de vencer os desafios é tendo fé no ser superior, que aí já não fica claro qual.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Crítica Argo

O Resgate de Jéssica
 

Argo

Nota: 8,0


Adoro filmes políticos. Que me desculpe quem não gosta de política ou diz que não tem nada a ver com ela, mas tudo que se fala é uma mensagem, um discurso, e tudo que se faz carrega consigo valores, ideologias e princípios, e tudo isso é política. E ela afeta o cotidiano de todos nós, ainda mais hoje, no mundo globalizado que vivemos, onde as fronteiras estão cada vez mais tênues e cada vez mais protegidas. Mas claro, como tudo na vida, tudo tem dois lados. E a política tem vários lados. Então gostar de um filme político também depende de qual agenda que está sendo abordada no filme. E se ela serve para levar uma história adiante, ou se ela vira propaganda, como no caso de Won’t Back Down.
Meu apreço pela carreira artística do Ben Affleck é quase o mesmo que tenho por um CD do Latino. Mas tudo isso vem de uma antipatia minha por um sucesso meio que imposto, seguido por sua figura pública pouco interessante. Mesmo ele tendo feito Dazed and Confused, sua carreira começou de fato com aquela jogação de confete desnecessária que foi Gênio Indomável, um filme bom, irregular, que começa piegas e depois melhora, mas que foi alçado a obra prima pelas campanhas de marketing de Hollywood, como elas tanto fazem. E o pior é que as pessoas acreditam nessas coisas. A Alemanha acreditou em Hitler, não? (Obs: Não estou comparando-o com Hitler, só estou dizendo que uma campanha de marketing eficiente  vende qualquer peixe.)
Depois disso, virou astro e fez muita porcaria. Ele briga tapa a tapa com Keanu Reeves pelo troféu canastrão da indústria. Eu fui à uma palestra de um diretor (que prefiro deixar no anonimato) em que ele dizia “trabalhei com Affleck nos anos 90, em um filme. Um ano depois ele estava no Oscar. E eu me perguntava, como isso aconteceu? Eu costumo reconhecer talento quando o vejo.” Mas acredito que o que lhe faltou de talento dramático, sobrou de esperteza pra lidar com a indústria. E sabemos que hoje em dia cinema é muito mais negócios do que arte. Arte está nas ruas, nas esquinas, mendigando centavos. 
Affleck deve ter investido boa parte dos seus contracheques em capacitação, observado e estudado muito bem os sets onde trabalhou e se lançou como diretor. Eu tenho até arrepios em dizer, mas reconhecer é necessário, ele fez bons filmes. No entanto esse é o melhor deles, com certeza. De longe. E a história é toda verídica. Com algumas licenças poéticas para transformar certos momentos mais cinematográficos, obviamente.
Todos (creio eu) sabem que o Irã é uma das nações islâmicas totalitaristas do Oriente Médio, e esse fator é o que constitui o mote principal do filme. Nos anos 70, quando o xá da Pérsia foi deposto do poder e o aiatolá teocrático e totalitário alçado ao governo, Washington deu asilo ao xá e a embaixada dos EUA em Teerã foi invadida por uma multidão revoltada ordenando o retorno dele, para que ele fosse julgado. Os indíviduos na embaixada que foram pegos pela multidão viraram reféns, mas uns poucos funcionários conseguiram fugir pela porta dos fundos e se refugiaram na casa do embaixador do Canadá.
Então o dilema ficou em como tirar esses refugiados de lá da casa do embaixador sem o governo iraniano perceber. Tony Mendez, um agente da CIA latino (feito pelo Ben Affleck, praticamente um dançarino de rumba hondurenho) arma o plano de criar uma equipe de produção de um filme fictício, o tal do Argo, que vai ao Irã pesquisar locações para as filmagens. Com passaportes falsos para todos os funcionários, ele chega em Teerã para tirar esse pessoal de lá, se passando por esses cineastas canadenses.
Bom, o filme é muito bem feito, mescla gêneros eficientemente, e não se deixa ser exageradamente dramático, cômico ou aventureiro demais. Transita por todos tranquilamente. O elenco está afiado, e nem Affleck (que produziu e dirigiu o filme para si próprio) compromete, o que é difícil, sendo ele o protagonista. O restante do elenco, que tem Alan Arkin, Kyle Chandler, Bryan Cranston e John Goodman como destaques, são todos coadjuvantes, que aparecem bem pouco no enredo comparado a Affleck.
Minha crítica maior fica à indecisão do filme em tomar partido, se posicionar politicamente. Imparcialidade não existe, não adianta jornalista nenhum vir dizer isso. Todo indivíduo tem suas convicções políticas e em qualquer lugar do mundo todos os meios de comunicação têm seus interesses políticos claramente estampados nas suas manchetes. Nos EUA as redes de TV se dividem em democratas, como a NBC, ou republicanas, como a Fox. Já no Brasil todos os canais de TV são de direita. Além de quase todos os meios de comunicação impressos, como a Veja, a Folha e o Estadão.
O filme começa mostrando, em forma de storyboard de filme de super-herói, a história recente do Irã, contando como nos anos 50 os EUA e Reino Unido depuseram do poder um governo democraticamente eleito pra poder ocidentalizar o país e impor seus interesses no petróleo local. Algo parecido com o que os mesmos fizeram na América Latina, para manter suas influências políticas. E com isso, num efeito bola de neve, acabaram elevando essa facção fascista que hoje é responsável por esse governo ditatorial, que não só castra a sociedade iraniana, como os próprios EUA, que vivem em guerra com eles pra poder meter a mão no precioso óleo. Ou seja, uma visão bem auto-crítica da realidade dos fatos.
No desenrolar do filme, em contrapartida, a velha máxima conservadora prevalece: os inimigos malvados nos perseguem, temos que dar o fora daqui! Normalmente o Rambo vai lá e mata todo mundo, mas em um filme menos macarronesco sabe-se bem que o máximo que se pode fazer na casa do inimigo é fugir de lá. Incomodou-me também a forma estereotipada em que o povo iraniano é retratado, com exceção de uma serviçal que ajuda no “Resgate de Jéssica”... Então fica clara uma indecisão em se posicionar. Se vai se responsabilizar pelo que fizeram, pelo monstro que criaram, como parecem tentar no início, ou se vão simplesmente demonizá-lo, o que é sempre mais fácil e senso comum. Fazer simplesmente um filme de aventura dentro desse contexto tão real e atual não serve.

domingo, 16 de setembro de 2012

Crítica de O Segredo da Cabana


À Meia Noite Levarei Sua Alma
O Segredo da Cabana // The Cabin in The Woods

Nota: 9,5

Ao mesmo tempo que cinema é uma forma nova de arte, ao mesmo tempo também é já bem saturada. Ser criativo no cinema atual é algo até inimaginável. Tanto que os mais criativos passam a ser aqueles que brincam com o próprio cinema, que usam e abusam de citações e do pastiche. Tarantino e Almodóvar são mestres nisso. Scorsese tem uma criatividade parecida, mas com menos senso de humor que os outros dois. Como estamos falando de O Segredo da Cabana, falemos de exemplos concretos do gênero terror. Quantos filmes de zumbi vocês já viram por aí? E de vampiros? Lobisomens? Hmmm... Possessão demoníaca? Casa mal assombrada? Espíritos? Pessoas enlouquecendo? E aqueles que no final tudo não passou de um sonho? Pois é. Dá até pra fazer uma lista dos melhores (talvez seja mais fácil dos piores) de cada sub-nicho desses. E é uma coisa cíclica. Há 10 anos atrás os zumbis invadiam as telas. Hoje é uma enxurrada de vampiros por todos os lados. Eles vêm aos bandos e tomam conta até não renderem mais um centavo.
Agora, onde O Segredo da Cabana se situa nesse contexto? Obra-prima, mais do mesmo ou lixo? Não há como escrever nada minimamente analítico sobre o filme sem espalhar spoilers sobre o enredo todo. Talvez nem o final mesmo possa ser resguardado. Então, primeiro, deixem-me tecer brevemente uma sinopse, e nos próximos parágrafos eu posso discutir o filme com spoilers, a quem interessar possa.
Enfim, a história é o clichezão de sempre. Cinco amigos (entre eles o Thor Chris Hemsworth e o Jesse Williams de Grey’s Anatomy) tiram um final de semana pra ir a uma cabana no meio do bosque na Califórnia, creio eu. Pelo menos a paisagem parece muito com a de Yosemite, onde recentemente uma “febre do rato” se espalhou por lá num acampamento. Então, os tais cinco amigos, cada um personificando um tipo da forma mais estereotipada possível, passam a testemunhar coisas estranhas acontecendo quando a noite cai. Em paralelo, uma espécie de central de comando liderada pelo Richard Jenkins os vigia atentamente.
Esse é o maior trunfo do roteiro de Joss Whedon e Drew Goddard, que vieram dos seriados Buffy e Angel. O próprio Goddard dirigiu o filme também. Não confundir com o icônico diretor Jean-Luc, por favor! Eles alegam ter escrito o roteiro em três dias, como uma sátira a filmes Splatter, ou torture-porn (tipo Jogos Mortais e Premonição) e uma forma de revitalizar filmes slasher (como Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo, Halloween, etc.). Mas a metáfora é tão boa que pode ser aplicada para diversas outras coisas.
Em qualquer aula de roteiros cinematográficos, a gente aprende que o que interessa para o público é o segundo ato (o mais longo deles, onde as coisas acontecem – tipo quando o herói ganha os superpoderes, começa a road trip ou a princesa é raptada e o príncipe tem que ir salvá-la), mas o que vende o filme de fato, e o torna bom ou ruim perante o público, é o ato final, onde as resoluções acontecem. E a reviravolta do terceiro ato é genial. Torna o filme assustador, cínico, sarcástico, cômico e tenaz, tudo ao mesmo tempo.

SPOILER ALERT!

SPOILER ALERT!

SPOILER ALERT!

Os dois primeiros terços são bem senso comum ao gênero. Os jovens universitários passam a ser violentamente caçados à noite na floresta. Só que o diferencial, que durante esses dois primeiros atos não faz muito sentido para o público, é essa espécie de central que os acompanha e controla diversas coisas ao redor deles. E eis que começa o terceiro ato e essa central não só passa a ter sentido como muda completamente o rumo da história.
Sobre a pergunta que levantei no segundo parágrafo, eu posso entrar em mais detalhes agora. A metáfora que o filme usa para criticar satiricamente filmes de tortura, como eu já disse, serve para tantas coisas. E eis a beleza da arte. Ela pode ter muitas outras funcionalidades além das originalmente planejadas pelos seus idealizadores. Eu posso listar umas três que me vieram rapidamente à mente.
1) Filmes de terror em geral viram motivos de gozação. A platéia fica na expectativa de saber qual o segredo tão assustador da tal cabana. Quando a gente descobre que são zumbis, dá até aquela brochada. “Coisa manjada!”. Só que eis que vem o terço final de filme, e descobrimos que as próprias vítimas são induzidas a escolherem seus algozes, o que é uma idéia é genial, principalmente porque há um leque variado de opções e depois nós somos bombardeados com todos os clássicos vilões de filmes de terror, e com certeza algum deles era o que a gente queria ver!
2) A idéia de uma central de comando que filma cada passo, controla as entradas e saídas, solta feromônios no ar, entre outras muitas táticas de manipular o comportamento de terceiros não é muito diferente do que a Globo fazer uma festa de BBB cheia de birita e filmada por diversas câmeras para o país inteiro ver. E fazer o público se entreter com os atritos fabricados em reality shows não é muito diferente da reação do pessoal que assiste e se delicia com a carnificina dos zumbis no filme.
Reality shows sem os barracos não teriam motivo de existir. Podem chamar de experiência antropológica, psicológica, o que for, mas é a pura e velha exploração do homem pelo homem, e dessa vez para o seu próprio entretenimento. Jogos Vorazes tratou bem disso recentemente. No momento catarse do filme, no terceiro ato, quando os sobreviventes finalmente se vingam, a gente vibra, óbvio. Mas fazendo um paralelo, é como se Nicole Bahls ou Lia Khey saíssem da tela da TV e fizessem seus barracos na nossa casa. O deleite logo viraria pesadelo, não? “Pimenta nos olhos dos outros é refresco” é um ditado que cai com uma luva pra situação.
3) E no fim, Sigourney Weaver, em carne e osso, revela que eles são oferendas aos deuses que governam o universo, e esse sacrifício tem de ser feito para evitar a ira divina e que eles, por conseqüência, destruam o mundo. Qualquer semelhança com a queima de bruxas na fogueira na Inquisição, ou as constantes cruzadas anti-minorias (mulheres, negros, gays, etc.) de papas, padres, bispos, pastores da laia do Silas Malafaia e religiosos em geral é mera semelhança? Tirem suas próprias conclusões.
Por fim, onde O Segredo da Cabana se situa? Fica evidente, após minhas explanações, que eu adorei o filme. É bem bolado, é divertido, agrada a todos que gostam do gênero, e ainda nos deixa com reflexões a fazer. Esse último fator, uma verdadeira raridade do gênero. A gente realmente conta nos dedos os filmes de terror que tenham qualquer metáfora que sirva de subtexto. Eu saí do cinema com um largo sorriso do rosto.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Crítica de Won't Back Down

Quanto Mais Idiota Melhor

Won’t Back Down 

Nota: 3,0 

Lembro que nos anos 90 eu amava Sai de Baixo. Gravava todos os episódios que passavam na TV e revia milhões de vezes. Isso era antes de eu apurar meu senso crítico e ver muitas coisas do seriado com outros olhos. Hoje em dia acho alguns episódios bem ruins, enquanto outros são muito bons. Outros (talvez a maioria) são bem medianos. Em Sai de Baixo, uma das protagonistas, Cassandra, dizia uma frase constantemente na primeira temporada. Era algo tipo “nós vivemos em tempos muito bicudos!”. E, francamente, foi a mesma reação que tive ao assistir esse filmeco. Claro que Cassandra usava a frase em outro contexto, com uma conotação bem diferente. Ela, uma viúva de militar, socialite falida que se vê obrigada a descer do pedestal, a dizia pra expressar seu desgosto pela “vulgarização” da cultura, apego à moral e bons costumes, desgosto ao populacho, e similaridades. Já no meu caso, a conotação é mais uma constatação do quanto estamos retrocedendo ultimamente.

O século 20 foi o que se tornou palco de maior número de transformações sociais e culturais. A gente pode dizer que 1710 e 1810 com certeza eram bem mais similares que 1910 e 2010 são. Culpa da globalização, do avanço tecnológico, invenção do avião, que diminuiu as distâncias, popularização do telefone, que tornou a propagação de informações mais rápidas, e os meios de comunicação se tornaram mais rápidos e eficientes. Nesse cenário as minorias oprimidas se rebelaram. Todas elas, em todos os lugares, inspiradas umas nas outras. A tecnologia estava lá pra permitir que elas se conhecessem.

Já que tratamos de uma realidade americano, nos anos 50 e 60 eles tiveram Martin Luther King e o movimento de direitos civis dos negros nos EUA (Hoje em dia é normal casais multiraciais, mas naquela época era proibido. Imagine a reação da sociedade hoje aos casais homossexuais e trace um paralelo). Eles também testemunharam o movimento hippie em resposta a guerra do Vietnã, o feminismo (até hoje estigmatizadas como queimadoras de sutiãs) conta a desigualdade de gênero, o início do movimento gay, etc. Não é difícil imaginar que machismo, misoginia, homofobia, racismo, militarismo, elitismo, e - porque não? - capitalismo andem sempre juntos, por isso essas lutas das minorias existem.

 
Já no Brasil tivemos o movimento estudantil e do meio cultural e artístico contra a ditadura, ambos fortemente abafados pelo sistema, como todos nós sabemos, e depois as Diretas Já, os Sem-Terra, os Caras Pintadas, etc. Então, foi muita rebeldia e muito inconformismo em muito pouco tempo. O que é ótimo, ao meu ver, porque o mundo tá longe de ser perfeito e não há muito o que se conservar se queremos um ambiente melhor e mais justo. 

Só que toda ação tem uma reação. E mudanças são assustadoras, principalmente pra quem detém privilégios. Então ao mesmo tempo opositores a esses movimentos surgiram também, o que é chamado de backlash. O que é até compreensível (pois ninguém gosta de ver jogado na sua cara tudo que vem fazendo de errado desde que o mundo é mundo), mas não racional ou fundamentado. Ou inteligente, ao meu ver, principalmente hoje, 50 anos depois. Pra quê manter um sistema que não funciona? Falido, desigual, opressor e exclusório? O que há de tão perfeito no mundo que precisa ser mantido?
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E hoje em dia a gente vive claramente um momento de backlash, onde um conservadorismo muito forte tem crescido em todos os lugares. Nos EUA, o partido republicano nunca foi tão medieval. Tudo pelo livre direito de declarar guerra a quem quiser, continuar a atirar livremente em guaxinins, patos, veados, etc. só pelo prazer de enfeitar sua sala, e transformar a palavra de Deus em lei. Às favas com a laicidade. No Brasil, nas últimas eleições, militante contra a ditadura virou terrorista e militar torturador, herói. Silas Malafaia e Marcelo Crivella (entre outros) bradam tanta caretice e discriminação no plenário, nas ruas e nos meios de comunicação que até Moisés no Monte Sinai ia se ruborizar de vergonha. Mas é tudo pelo bem da família.

Pois bem, eis que eu saio de casa e vou ver esse filme chamado Won’t Back Down (sem título brasileiro ainda). Nele, a Maggie Gyllenhaal, um exemplo de mãe, que logo na segunda cena acorda no sofá, de ressaca, a casa é uma pocilga imunda, acorda sua filha pra levar pra escola. A menina é aparentemente disléxica, e tem dificuldades de aprendizado. Por conseguinte torna-se vítima de bullying e detesta a escola. O que a Super-Mãe, faz então? 

A) Procura se inteirar sobre dislexia; 
B) Pesquisa maneiras e locais alternativos de ensino; 
C) Verifica a possibilidade de ajuda de tutores; 

 
Acertou que respondeu a oculta letra D, ela, essa perita em educação, pós-graduada em pedagogia, decide formar um movimento para tomar as rédeas da escola, e participar ativamente de todas as decisões curriculares, uma manobra aqui chamada de "Parent Trigger". Só que para isso poder ocorrer, ela precisa que pelo menos 51% dos pais (todos também educadores e pedagogos, suponho) e professores endossem a iniciativa. E depois disso, ainda precisam da aprovação das autoridades responsáveis pelo assunto do Estado. 

E a maioria dos professores, liderados pela Viola Davis, aceitam isso, para se livrar das garras do Estado e desses sindicatos, que cerceam a liberdade do professor de fazer o trabalho que ele quer, de se dedicar o quanto ele gostaria a docência. O dinheiro não importa, o que importa é ver seus alunos aprendendo, felizes e satisfeitos, nem que você tenha que trabalhar 80 horas semanais, e provavelmente ganhando o mesmo salário. Professor está aí pra isso mesmo. Vida social, família, supermercado, médico, um filme, um bar no fim de semana, uma pausa pro sanitário, tudo isso é supérfluo diante desta grande e importante causa. Só depende de nós (deles, no caso).

O filme é uma coleção de clichês sem fim. Propaganda política descarada mesmo. O filme do Lula, é brincadeira de criança perto desse. Muito moralismo, melodrama barato e manipulador e proselitismo. Personagens rasos, sem nuances, sem meio-termo, vilanizações infantis, etc. Parecia até filme do Clint Eastwood. Eu já estava esperando o próprio entrar no recinto e discursar para uma cadeira vazia. O pior de tudo é que, como era uma exibição “teste”, havia em seguida um “debate” sobre o filme, onde vários profissionais da educação vieram discutir o filme. Discutir não, jogar confete. Eu me senti na platéia da Convenção Republicana. Na parte que abriram para perguntas da platéia, eles se reservaram o direito de não responder às perguntas que não quisessem. Pura democracia.

 
E no final apoteótico, a gente vê aquele coro enorme de crianças felizes cantando “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país”. Tudo bem, o país não me dá uma educação de qualidade, nem oferece saúde pública alguma, condições básicas para qualquer indivíduo sobreviver, mas vende um sistema de meritocracia onde só se perpetua (e amplia) as desigualdades, mas o que importa é o que eu devo fazer por ele. Dar minha vida em guerras obscuras cheias de interesses ocultos? Render-me a corporações capitalistas altruístas? Francamente, viu... Há 30 anos atrás Sally Field era Norma Rae, brigando pelos direitos trabalhistas. Hoje a gente tem que engolir isso. Cada geração tem o Norma Rae que merece.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Crítica Rock of Ages

Rádio Pirata

Rock of Ages 

Nota: 8,0

Rock of Ages é mais um musical da Broadway a ser levado pras telas, e faz parte de uma tendência recente de se criar musicais “jukebox”, ou seja, aqueles onde músicas já famosas são utilizadas para se contar uma história. Exemplos disso são American Idiot (Green Day), Mamma Mia (Abba), Across The Universe (Beatles), Jersey Boys (Four Tops), Movin’ Out (Billy Joel), etc. O título Rock of Ages vem do hino Hard Rock/Arena Rock do Def Leppard, cuja canção não pode ser usada na Broadway por direitos autorais, mas aqui no filme ela é usada na sua versão original em uma determinada cena. É uma coleção de hits do rock dos anos 80, incluindo canções do Bon Jovi, Foreigner, Journey, Scorpion, Guns N’ Roses, Pat Benatar, Joan Jett, Whitesnake, Starship, Poison, entre outros. Para ter uma idéia do que é o musical dos palcos, vejam a apresentação deles no Tony Awards clicando aqui.
Bom, eu vi o musical na versão teatral (“field trip” da faculdade) e adorei. Eu parecia uma tiete de Quase Famosos. Sabia todas as músicas, vibrava a cada segundo. A história batida sobre um casalzinho em busca da fama em Los Angeles nem me incomodou com toda aquela trilha sonora. E quando soube da adaptação para o cinema, a princípio fiquei animado. Mas aí veio a lista dos profissionais envolvidos. Pra começar, a direção do Adam Shankman, que dirigiu Hairspray, que eu adoro, mas é outra vibe, não é rock. E pra piorar ele ainda dirige alguns episódios de Glee (argh!). E no elenco tem muita estrela que ninguém nunca viu entoando uma nota na vida, e o protagonista é logo um ex-RBD! Cadê meu Deus, agora?
Entrei na sessão e entre os trailers estavam o do enésimo Step Up (Se Ela Dança, Eu Danço), que dessa vez quer se passar arte-protesto e de conscientização social, meus sais... E em 3D, ainda por cima! Outro foi o do documentário piegas da Katy Perry, onde ela conta (já no trailer), com muitas lágrimas, a quão árdua e sofrida foi sua vida até poder arrotar champanhe Cristal nos píncaros da glória... Saudades de Na Cama com Madonna. E o último que lembro foi o de Magic Mike, que tem tudo pra ser um Showgirls versão homoerótica, aquele filme dos strippers de Clube das Mulheres do Steven Soderbergh, que anda mais decadente que Paulo Ricardo e Sylvinho Blau Blau juntos, e que outrora, num passado longínquo, iniciou o movimento de filmes independentes com Sexo, Mentiras e Videotape. Eu já tava com as mãos na cabeça e pensando, o que é que eu tô fazendo aqui?
Aí começa o filme, e eu até que fui positivamente surpreendido. Mas claro que ele tem seus prós e contras, e óbvio que estou eu aqui pra apontar (quase) todos eles. Então, mãos à obra!
Pontos positivos: Direção de arte e cenografia praticamente perfeitos. Tudo muito bonito e vistoso. Claro que com o excesso de colorido e estereótipos 80s que todo filme recente que reconstitui a época costuma fazer, como se a década fosse um eterno circo ambulante. Houve exageros? Houve, todos sabemos (permanentes, ombreiras com manga comprida, etc.), mas não foi pra tanto. É como se quisessem retratar o Brasil com diversas passistas caprichadas no penacho andando pelas ruas.
O filme também é lindamente fotografado. Quase todos os frames pareciam posters de álbuns de rock. Glam rock 80s, evidentemente. Só que também “photoshoparam” demais os rostos do elenco, especialmente dos dois protagonistas, talvez para que eles parecessem bem mais jovens que os demais. O pessoal não tem pele, tem uma camada de cera caprichada no pancake e pó compacto. A Catherine Zeta eu não sabia se era botox demais ou excesso de manipulação no rosto dela, porque quando ela apareceu, eu não sabia se era ela, a Julia Roberts ou a Teri Hatcher.
 
Eu me surpreendi com os arrajos das músicas. Sinceramente, esperava algo bem mais releitura pop estereotipada, como fizeram com alguns outros aspectos do filme, do que apostarem em algo que realmente se parecesse com o som da época. Já os vocais é um capítulo a parte, que comento mais abaixo. A exceção foi logo o arranjo de Don't Stop Believin'. Ficou muito mais Glee do que Journey. E por falar nisso, essa música tá em todos os lugares ultimamente. Steve Perry deve estar podre de rico, coletando royalties.
Ponto ni fu ni fa: O roteiro é mais ou menos. Mudaram algumas tramas, até pra não ficar exatamente igual ao musical, e ter seus próprios elementos surpresa. Algumas mudanças foram boas, outras não. No geral, achei que a história ficou mais açucarada. Gostaria até de falar delas mais abertamente, mas não quero dar spoilers a ninguém. O problema maior é que nem tudo que funciona no palco, funciona nas telas. Faltou história pra contar, ao contrário de Burlesque, que a história acaba na metade e começa outro filme depois.
Por exemplo, aqui pareceu que tinha personagem demais com pouco espaço pra se desenvolver. E ainda acrescentaram mais do que no original ou deram mais ênfase a outros, como a da Malin Akerman, e ainda um macaco, que com certeza esão lá para o Tom Cruise ter mais tempo de câmera. Bryan Cranston, do seriado Breaking Bad, interpreta o prefeito, mas ele passa o filme inteiro sem nada pra fazer e mal aparece. A personagem dele que canta Keep on Loving You do REO Speedwagon na versão dos palcos, mas o número foi cortado do filme.
A personagem do Russell Brand, que nos palcos era o narrador e guiava a história, servindo de fio condutor dos núcleos diferentes, aqui não é nada. Só é o Russell Brand sendo o irritante e repulsivo normal dele mesmo. Se cortassem não fazia diferença. Acho que só o mantiveram pela piada do número de Can’t Fight This Feeling, também do REO Speedwagon, que no musical é uma piada (meio senso comum/status quo) da metade pro fim, mas no filme já entregam o que poderia ser surpresa logo de cara, e quando a hora chega, todo mundo já sabia. Alec Baldwin, coitado, teve que tolerar o xarope. E Alec, meu querido, por favor, não cante e dance mais, tá? Agradecido!
Pontos negativos: Quantas vozes surreais eram aquelas? Auto-tune demais! Era algo tipo Vozes do Além in Concert. Glee acabou com o que restava de naturalidade na música mainstream... Timbres plásticos e mecânicos, sem espontaneidade alguma, que é o trunfo do rock. Todo mundo sabe, produziu demais, embonecou muito, vira pop. Os poréns nesse sentido foram, obviamente, Mary J. Blige e Catherine Zeta-Jones, que desde Chicago já tinha provado que tem voz de fato. E é pouco aproveitada como a vilã nesse filme. A cena dela com Tom Cruise, coitada... Ela não merecia aquilo.
E falando em Tom, o que foi aquilo? Nunca vi tão canastrão. E inchado demais de puxar ferro, ou esteróides, sabe-se lá. E nas entrevistas preliminares à estréia do filme, todos os envolvidos diziam o quão surpresos ficaram com a voz dele. Claro que eles têm que vender o peixe deles, mas aquela voz parece ser de qualquer pessoa, menos dele. Até lembra a voz dele, mas mesmo artificial, com aquele excesso de auto-tune, eu francamente não achei que fosse ele cantando. Não me surpreenderia uma revelação à la Milli Vanilli ou Marni Nixon no futuro.
Julianne Hough, que faz a mocinha “Sherrie Christian” (nome 'mashup' de Oh Sherrie do Steve Perry e Sister Christian dos Night Ranger), se não me engano estrelou o remake de Footloose (que eu, conscientemente, me poupei de ver), é bonita, mesmo me lembrando da líder de torcida de Heroes, e convence atuando (num papel sem grandes exigências, sejamos sinceros), mas o que é aquela voz? O quê que ela fez com More Than Words? Cadeira elétrica para essa energúmena estridente e nasal! Parecia um dueto da Laurinha dos Ursinhos Carinhosos com um gato faminto. Lea Michele difundindo a arte de como quebrar cristais e estourar tímpanos.
Já Diego Boneta, o RBD, me surpreendeu e nem compromete. Achei decente. Ainda no elenco, tem o Paul Giamatti, que faz o empresário/sanguessuga/aproveitador, e umas aparições breves de Constantine Maroulis, ex-participante do American Idol que estrelou a versão dos palcos, Will Forte, que faz o namorado transformista da Jenna no seriado 30 Rock, e de próprios roqueiros dessa época, como Sebastian Bach do Skid Row, Kevin Cronin do REO Speedwagon, Nuno Bettencourt do Extreme e até da Debbie Gibson, entrando de gaiata no navio. Abriram a catacumba. No fim, a comparação entre musical e filme fica inevitável, e a vida e energia que as músicas e a banda ao vivo dão, são o que mais fica faltando no filme. Apesar de ser uma boa diversão para momentos em que não se quer pensar demais.