domingo, 24 de outubro de 2010

Seção CINEMA // Crítica Eclipse

Lua de Cristal Que Me Faz Sonhar

Eclipse

Nota: 6,0

Minha nossa! Já passou esse tempo todo e eu nem debochei Eclipse ainda? Não é possível. Mas tudo bem. Antes tarde do que nunca. Se tem uma coisa pra qual esses filmes são ótimos, é o deboche. Tudo vira piada. E é tão bom quando a piada já vem pronta. Mas sejamos justos, o primeiro até que é assistível. O segundo é um drink no inferno, com direito a ver Nero, Hitler, Mussolini, Odete Roitman e Clodovil. Mas esse aqui é considerado o melhor da saga até agora. Com certeza é melhor que o segundo, mas continuo achando o primeiro superior. E eclipse nunca foi tão sem graça. Quando criança eu pegava logo o pedaço de filme e ficava olhando pro céu. "O dia vai virar noite, manhê!!!". Enfim, chega de babaquice, e vamos ao escárnio.

Que adolescente adora uma porcaria, não é novidade alguma. Talvez isso explique o sucesso dessa xaropada açucarada. Mas o legal da obra é que é um filme de vampiro feito de mulher para mulher. Essa coisa Marisa vem a calhar, já que o público feminino é sempre esquecido, mas por outro lado cai no clichê porque sempre que esse público é lembrado, fazem essas porcarias, como se mulher fosse incapaz de apreciar obras de qualidade.

A patacoada dessa vez continua com uns vampiros malvados vindo atrás da Bella, o que obriga os bons vampiros e lobisomens a se unirem para protegê-la. Na boa, há alguma chance de se ler a frase anterior e levá-la a sério? A Bella continua lerdinha das idéias. Eu aposto que lá em Washington devem ter branquelos galore, mas ela quer porque quer virar vampira e se deitar (ai que romântico!) com o picolé de baunilha. Eu diria pra ela e pra qualquer aborrescente: isso passa! Em cinco anos você já vai ser uma pessoa completamente diferente e mudar quase todas suas opiniões. Sossega.

Agora imaginemos o relacionamento de uma adolescente geração Macintosh e um vampiro de cento-e-lá-vai-cocada anos. A globalização e o desenvol-vimento tecnológico fizeram do século XX o que mais se desenvolveu e onde tudo tendeu a se tornar obsoleto em poucos anos. Difícil sincronizar as idéias com nossos avós, imagina ainda namorar com alguém que nasceu nos 1800's. Tudo bem (?) que ele congelou fisicamente como um jovem rapaz, mas até as mais retardadas das toupeiras vai amadurecendo emocionalmente e intelec-tualmente com os anos.

Se bem que a juventude atual é a mais careta em décadas. Um pavor! Mas metida à moderninha. É tipo a conquista do Império Romano pelo Turco-Otomano, que fez a civilização ocidental retroceder horrores. Só que agora tudo isso tá acontecendo em questão de décadas. Só pra se ter idéia, os corajosos jovens do movimento estudantil das décadas de 60 e 70 que lutavam pela democracia, hoje são chamados de "terroristas" pelos atuais com seu Ray-Ban retrô de armação colorida e sem lente, que ouvem Justin Bieber no seu iPod. Ou Restart. Ou ambos. Nossos jovens retrocederam à mentalidade Garrastazu-Geisel. Kyrie Eleison!

Ponto alto do filme? O discurso megaliberal da Anna Kendrick na formatura de high school. A Anna, coitada, tá totalmente perdida e mal aproveitada nesse filme. Já provou isso sendo indicada ao Oscar de coadjuvante esse ano por Amor Sem Escalas. Pelo menos com a saga ela vai poder fazer o pezinho de meia dela. A gente nunca sabe do futuro. Entre os pontos negativos, os efeitos especiais continuam fracos. Sei lá, no filme anterior os lobisomens pareciam menores. Nesse filme eles estão quase uns ursos! E pra mim, o que mais chama atenção é a segregação dos vampiros (brancos, pálidos e ricos) e lobos (índios/latinos, despidos e pobres). Racismo?

E ainda não engulo a tal história de vampiro vegetariano. Mai naonde que sangue, seja lá de que bicho venha, é vegetal? Só se for um sangue novo, a base de soja, que a Nestlé esteja pra lançar. Ou então True Blood. E por que todo mundo quer a tal da Bella? Ela nem é fada igual à Sookie! Não tem sangue açucarado, sabor limão ou framboesa. E a Sookie é muito mais sexy também, convenhamos. E melhor atriz. A Bella é enjôo sem fim. E não acho a Kristen a melhor opção pro papel. Ela é uma coisa Jodie Foster, que funciona pra outro tipo de fita. Já pensou se fosse a Lindsay Lohan? Bella ia ter toda uma vibe Courtney Love. Ia ser o pipoco!

No fim das contas, o que diabo que a Bella quer? Não precisa pedir ajuda pro Chapolin Colorado. Ou pros universitários. É mais claro que água de Lindóia. Ela só quer liberar seus instintos mais primitivos com o vampiro-purpurina, mas até agora já se foram três filmes e nada. Se fosse qualquer Porky’s ou American Pie, até o fim do filme esse dilema já teria terminado. Ela já teria trocado o vampiro gelado da cor da pureza pelo lobo quente da cor do pecado. E afinal, depois desse tempo todo, qualquer pessoa normal já teria parado pra se questionar: será que todo esse trabalho vale à pena?

domingo, 17 de outubro de 2010

Seção CINEMA // Crítica A Rede Social


Mentiras e Trapaças


A Rede Social // The Social Network

Nota: 8,0


Então esse é o aclamado melhor filme do ano? O novo American Graffiti, um Touro Indomável, pitadas de Cidadão Kane, etc. As críticas entusiasmadas, o trailer primoroso (a música, então, é soberba e muito melhor que a original - fãs do Radiohead, podem me apedrejar), a direção de David Fincher (que fez O Curioso Caso de Benjamin Button, Seven, e, como ninguém ou nada é perfeito, Clube da Luta), tudo me entusiasmou. Mas, como já diria a lei da física, tudo que sobe, desce. E essa regra também vale para expectativas. Quando se espera muito de algo, a frustração é quase inevitável. Ultimamente Alice, Inception e The Kids Are All Right me causaram isso. Já deveria ter aprendido a lição.

Enfim, a história é sobre a invenção do Facebook, a maior rede social da atualidade, um Orkut infinitamente superior, para os brasileiros que não conhecem. O que motivou a sua criação, as pessoas envolvidas, as disputas e tudo mais. Tudo na base do flashback, a história vai tomando forma durante os conflitos. A estrutura do roteiro é brilhante, já o desenvolvimento de personagem achei fraco. Acho que contar qualquer detalhe da história vira meio que spoiler, já que tudo é uma surpresa. Não das mais incríveis e empolgantes, mas não deixam de ser surpresas.

O elenco tão aclamado, sinceramente, não vi nada demais. Jesse Eisenberg faz o Mark Zuckenberg, o atual acionista majoritário da corporação, personagem principal do filme, que eu achei totalmente unidimensional. Um rapaz emburrado, sem carisma, egoísta, com cara de bunda perene, e constante ar de superioridade. Mas ok, todo personagem precisa de falhas num filme, já que pessoas perfeitas não rendem história nenhuma, mas essas falhas precisam ser vencidas, explicadas ou punidas. E de certa forma nada disso ocorre. Uma Branca de Por Amor (ou uma Susana Vieira na vida real mesmo), menos perversa e com mais mimimi.

E assim como ele, os outros são o mesmo. Um bando de riquinhos e seus egos gigantescos. E acho que foi isso que me incomodou mais no filme. Até mais do que os ternos engomadinhos. Ninguém ali é de fato interessante. Assim como nas elites, cheio de gente bonita, mas quase todas desinteressantes e vazias. Não é de estranhar que todos os retratados no filme detestaram a fita. Mas também não duvido que eles sejam assim de fato, até porque ninguém gosta de ver um retrato real de si. E quando eu achava que não faltava mais nada para elevar o nível de antipatia à estrastosfera, eu esqueci que o Justin Timberlake nem tinha aparecido ainda...

Os outros destaques do elenco são o Andrew Garfield, que faz o brasileiro Eduardo Saverin, Armie Hammer que faz os gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss (essa parte é perfeita, eu realmente pensei que eram gêmeos, e não um só ator), o Max Minghella como Divya Narendra (o mais chato de todos), o Justin, que faz o Sean Parker, criador do Napster, e a Rooney Mara, única mulher a trilhar pelo clube do Bolinha, e que é responsável pela melhor cena do filme, justamente a primeira.

E para mim a principal mensagem do filme é que mesmo as idéias mais brilhantes e rentáveis acontecem acidentalmente e pelos motivos mais humanos e primitivos possíveis. Mesquinhos, rancorosos, misóginos, cheios de preconceitos, como boa parte do povo é, inclusive a elite financeira e intelectual, que deveria se empenhar em racionalizar melhor suas emoções e seus atos. Mensagem interessante, mas melhor filme do ano? Discordo. Continuo com Ilha do Medo, mesmo com seu final previsível.