quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Seção CINEMA // Crítica Rabbit Hole

Vidas Cruzadas

Rabbit Hole

Nota: 9,5


Nicole Kidman é, de longe, uma das minhas atrizes favoritas de Hollywood. Ela me lembrou muito a Elizabeth Taylor em Quem Tem Medo de Virginia Woolf? São dois papéis muitos distintos, tanto na forma quanto no enfoque. Mas feito com maestria por duas grandes atrizes. E a minha admiração por Nicole como artista é grande. Aqui ela se despe da sua vaidade e se transforma numa mulher comum, com suas rugas e fragilidades, que sofre perdas como tantas outras anônimas. Dá até pra imaginar que essa seja a Nicole do seu dia a dia, em casa. Longe das divas e deusas de Nine ou Moulin Rouge. Ela é ousada e faz desde fitas variadas e desafiadoras a obras comerciais como a gente pode ver numa lista como Dogville, A Pele, As Horas, Da Magia à Sedução, Batman Eternamente e A Feiticeira. Ela exercita sua criatividade sempre.

Nicole produziu essa adaptação da peça homônima da Broadway, que deu o Tony a Cynthia Nixon, a Miranda de Sex and The City, e teve que escolher entre esse papel ou co-estrelar Você Vai Conhecer O Homem dos Seus Sonhos, do Woody Allen, um papel bem diferente que ela também se daria muito bem, e a fraca substituta estraga... Já tinha ouvido falar na peça, e só o trailer já tinha me conquistado. Adoro filmes de família de baixo orçamento. A direção também era algo curioso pra mim, já que quem ficou em cargo foi o John Cameron Mitchell, que fez Shortbus e o musical Hedwig & The Angry Inch, dois filmes que eu não necessariamente gosto, mas acho interessantes conceitualmente, e criou-se a expectativa do que ele faria dessa vez.

A história, de maneira bem resumida, é: casal lida com a perda de seu filho. Algo que me lembrou muito Gente Como a Gente, mas aqui o conflito é bem diferente. Em Gente, o ponto de vista é do filho que sobreviveu, seu relacionamento com a mãe, o pai e consigo mesmo depois do incidente. É um dos filmes do backlash contra o movimento feminista, assim como Kramer vs. Kramer, o que conta um pouco contra eles, já que estereotipam as mães como megeras que fogem do que a moral e bons costumes aceita como mulher ideal.

Diante do dilema dos pais, surgem outros fatores externos que influem na vida deles, como religião, a irmã mais jovem inconseqüente e irresponsável que engravida, o casal amigo que lida há anos com drama semelhante e que eles usam como exemplo do que não querem chegar a ser, a avó que compara a situação com sua própria perda, e o jovem rapaz envolvido no acidente.

A mãe é a Nicole, óbvio. O pai é o Aaron Eckhart, que tá muito bem, mas o filme nem tem tantas cenas para ele se destacar. Além deles o elenco ainda conta com a Sandra Oh, como uma amiga do casal que passa pela mesma situação e vai com eles ao grupo de apoio, e a Dianne Wiest, que já ganhou dois Oscar de coadjuvante por filmes do Woody Allen, e é considerada para premiações também, mas seu nome só saiu na lista do Satellite e do Spirit, para filmes independentes. Talvez ela seja mais conhecida do público por ter feito Edward Mãos de Tesoura.

Gostaria de falar mais sobre a história, mas qualquer coisa que eu relate seria spoiler. Nicole é uma das favoritas às premiações, e disputa o Globo de Ouro por drama com a Natalie Portman, e é praticamente nome seguro no Oscar, onde deve concorrer com a Natalie e, aparentemente a favorita, Annette Benning, por Minhas Mães e Meu Pai, filme que não gosto, e não acho que Annette mereça ser premiada. Ela é superior a ele e já fez coisas melhores. Mas ela faz um papel de lésbica e nunca ganhou, o que conta a seu favor. Além de ter perdido duas vezes pra mediana Hillary Swank, carma de vidas passadas, suponho.

É um filme muito melhor do que vem sendo reconhecido. Essa época de premiações nos faz estabelecê-los como parâmetros de comparação, reduzindo-os a obras puramente reconhecíveis se constassem em listas de indicados, como se filmes fossem feitos exclusivamente para este fim. Alguns são, claro, mas não deveriam. E acredito que os que são, quase sempre, não sejam os melhores filmes. Ganham seus prêmios e logo caem no esquecimento.

Uma das coisas que me chamou atenção no filme foi o design de produção minimalista do filme. De muito bom gosto. E como ela contrasta com as imagens do gibi feito por umas das personagens. Eu assisti recentemente Scott Pillgrim vs. The World, que usa e abusa da estética HQ e vídeo game. Um visual bem diferente do usado em Rabbit Hole, e ambos funcionam perfeitamente dentro das suas propostas. E ambos fazem do cinema uma mídia visual muito interessante de ver.

Não vi a peça teatral ou a li, mas vejo que a adaptação deve ter sido algo que inspirou muito o processo criativo do roteirista, que também escreveu a peça. Cinema e teatro são duas mídias diferentes, e o filme não tem cenas com longos diálogos como o teatro exige, para que a historia se desenvolva e tenha ritmo, mas abusa de curtas cenas silenciosas ou de poucas falas, extremamente visuais, com close-ups e narrações em off. Alternativas a mais que o cinema oferece.

3 comentários:

  1. To louco pra ver!!!
    O Rubens E. Filho disse que vai ser a N. Portman que vai ganhar.
    Bjos.

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  2. "Alguns são, claro, mas não deveriam. E acredito que os que são, quase sempre, não sejam os melhores filmes. Ganham seus prêmios e logo caem no esquecimento".

    Amei, estou ansiosa por esse filme, que parece ser tão delicado. Eu torço pelos indies, então, logicamente pela Nicole. Mas a NP é muito boa e merece ser premiada, sem dúvida. Infelizmente eles não premiam as pessoas quando elas de fato merecem, mas ficam fazendo tabelas compensatórias (Nic nunca que deveria ter ganho por As Horas, acho que ninguém entendeu aquilo até hj). BJ

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