quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Seção CINEMA // Crítica Cisne Negro

Garota Interrompida

Cisne Negro // Black Swan

Nota: 9,5

Eu sei que altas expectativas são sempre um risco. As possibilidades de frustração são muito maiores que a de satisfação. Mas acho que inconscientemente eu sabia que podia confiar no Aronofsky. Não sou grande fã de O Lutador, e detestei A Fonte (não consegui nem terminar de ver de tão confuso), e nunca vi o elogiadíssimo PI (π), mas Réquiem Por Um Sonho é um dos melhores da década sem sombra de dúvidas, e a combinação de dança, Lago dos Cisnes, Natalie Portman e thriller psicológico era realmente apetitosa demais e inevita- velmente as expectativas subiram. As boas recepções nos Festivais de Veneza e Toronto (onde tanto Portman quanto Nicole Kidman, por Rabbit Hole, foram ovacionadas e hoje são aparentemente as favoritas às premiações dos próximos meses) e as diversas indicações ao Independent Spirit também contribuíram, apesar de eu já saber que prêmios não significam exatamente muita coisa. Até mesmo o Spirit.

O roteiro inteiro é um paralelo entre o determinado momento da vida de uma bailarina e a história do Lago dos Cines, para os alienígenas que não sabem, é uma das mais famosas obras escritas por Tchaikovsky. É justamente essa dança que Natalie Portman é encarregada de estrelar na Cia. de balé em que trabalha. Mas ela é uma “goody two shoes”, gíria que os americanos usam pra descrever pessoas como a Sandy, por exemplo, perfeita para o cisne branco, mas precisa encontrar em si e separar os seus lados médico e monstro pra poder compor o seu cisne negro no palco. Mas a pressão do inescrupuloso dono da Cia, Vincent Cassell, a concorrência da sua sexy substituta, Mila Kunis, a preocupação da protetora mãe, Barbara Hershey, e a sua própria busca incessante pela perfeição acabam por exigir dela mais do que ela aparentemente pode oferecer.

Não existe nada mais assustador e perturbador que a perda da sanidade, do contato com a realidade, e quase todos os filmes de suspense e terror que são bem sucedidos teclam justamente nessa tecla. Mas há de ser interessante e bem construído também. Alienígenas, monstros e serial-killers não chegam perto jamais do medo da loucura. Podem ser mais divertidos e render risos, mas jamais mais intrigantes e perturbadores.

Se você sabe como se desenrola a história do Lago dos Cisnes, deve imaginar como mais ou menos termina o filme, mas é sempre interessante ver como cruzaram as histórias e trouxeram outros enredos secundários para fundamentar a odisséia da bailarina atormentada pelo sistema. Podemos interpretar a história também como uma metáfora das exigências que a grande maioria das sociedades põe sobre as mulheres. Como é muito mais difícil ser uma minoria na sociedade. Conviver com machismo e misoginia, ou racismo, imperialismos, colonialismos e intolerâncias, no caso de outras minorias.

Pra mim perdeu meio ponto só pelo Vincent Cassell. A personagem é mal escrita, unidimensional, caricata, todas suas falas são uma punhalada no estômago de tão literais. Diálogos “on the nose”, como se diz no mundo do cinema. Talvez isso tenha levado o Vincent e se sair tão mal também. E de certa forma acho frustrante seu comportamento não ser punido ou ao menos criticado devidamente em algum momento no filme. Ele é de longe o ponto fraco do filme. Capricharam tanto na “vilã” da Mila Kunis que o dele ficou devendo.

Tirando o Vincent, como já expliquei, o elenco é soberbo. Natalie perfeita, e sua melhor obra desde Closer (que devia tê-la dado o Oscar, apesar de eu idolatrar Cate Blanchett). Barbara é sempre competente, e é uma dos vários artistas pouquíssimo lembrados em Hollywood, tipo Gary Oldman, Willem Dafoe e Mia Farrow. Mila Kunis mostrando que pode ser muito mais que a patricinha vazia de That 70’s Show. Ainda no elenco temos a larápia-mor de Hollywood, Winona Ryder, como a ex-bailarina principal da companhia, que Natalie substitui, o que a deixa devastada e traz em Natalie o medo de seguir o mesmo rumo.

Tecnicamente o filme também é impecável. A montagem, como em todos os filmes do Aronofsky, é fantástica. E apesar da Natalie ter sido uma daquelas diversas meninas que fizeram balé boa parte da vida, e mesmo treinando intensivamente para o papel, acredito que ela não seja do nível de uma primeira bailarina de uma respeitada companhia, e aí a montagem entra pra fazer dos seus movimentos perfeitos. Além de acentuar a dramaticidade da trama. Fotografia, figurinos, efeitos visuais e trilha sonora também muito competentes.

Aronofsky diz que esse é um filme que acompanha O Lutador, mas cá entre nós, que não tem nem como comparar. Gosto de pensar na dupla como A Bela e A Fera. Literalmente. A inspiração para o projeto vinha da sua irmã bailarina e de filmes como A Malvada e Repulsa ao Sexo, e ele tinha em mente fazer essa obra desde 2000, quando a discutiu com a então adolescente Portman, e só nove anos depois pôde por a mão na massa. E valeu à pena a espera.

4 comentários:

  1. Tb adoro a Mia Farrow! Acho uma tremenda injustiça ela ser a única girl-Allen (tirando a Scarlett Johansson.) nunca ter sido sequer indicada a um mísero Oscar. William Dafoe tem uma pele ótima! Tem mais de 50 anos e é um coroa bem gostoso. Hum!!!
    To loukinho pra ver esse filme! Ai! Mas na sua opiniao quem vai ganhar o Oscar de melhor atriz em fevereiro no ano que vem? Natalie Portman ou Annette Bening???

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  2. Nicole Kidman. Dizem que Naomi Watts tem chances, fala-se muito na Jennifer Lawrence, mas tem a Annette e a Julianne, as duas sempre preteridas pela Academia, e a Natalie Portman, que já deveria ter vencido por Closer.

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  3. Vi o filme quarta no aconchego do meu sofá, com duas amigas. A aprovação foi unânime.
    Além do filme já ser maravilhoso por todos os motivos bem descritos por vc, pra mim foi mais tocante ainda já que fui bailarina por 18 anos.

    Vc esta certo quando supõe que Natalie não tem nem de longe a técnica de primeira bailarina, por isso pra mim foi facil identificar bem o uso de dubles nas cenas mais afastadas, pra dar mais veracidade ao filme.

    A interação da vida da personagem paralelamente com a historia da obra foi feita no tom perfeito.


    Ela merece sem duvida o oscar esse ano!!!!!!

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  4. Nota inteiramente merecida. É um clássico instantâneo!

    A minha crítica:
    http://cineroad.blogspot.pt/2011/02/cisne-negro-2010.html

    Roberto Simões
    CINEROAD

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