segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Seção CINEMA // Crítica O Segredo de Kells

Divinos Segredos

O Segredo de Kells // The Secret of Kells


Nota: 9,5


Se esse desenho não tivesse sido indicado ao Oscar, acho que dificilmente eu tomaria conhecimento dessa animação irlandesa de Tomm Moore. Mas ela foi umas das maiores surpresas que eu tive, e talvez o melhor filme que vejo em meses. Visualmente, então, é uma obra prima. Cada frame é uma pintura, uma obra de arte. Rico em cores, texturas, as tonalidades de cores meio aquarela, muita influência de Arts & Crafts, detalhes Art Nouveau, como nos longos cabelos da Aisling, as ondas do mar são puro Ukiyo-e (que muito inspirou Art Nouveau) texturizado, além da própria estética códice que tudo tem a ver com o enredo. Tudo muito rico e bem cuidado. As figuras humanas me lembraram um pouco do estilo utilizado pela Disney em Hércules, mas tudo aqui é bem superior. Tanto o roteiro quanto a produção gráfica. Foi uma verdadeira tortura escolher as imagens para ilustrar o post. Deu vontade até de escrever mais pra poder ter mais espaço para ilustrar.

A história é sobre a abadia de Kells, na Irlanda. Nela há um conflito de interesses, o abade preocupa-se em fortificar e proteger o território de possíveis invasores, e seu jovem sobrinho Brendan se entusiasma em ajudar na criação de um livro, o que o faz desobedecer a seu tio constantemente e se aventurar na floresta, em busca de matéria prima, onde ele faz amizade com a menina Aisling, que em irlandês significa “visão”, e é na verdade o espírito da floresta. Em Avatar, por exemplo, ela ganhou o nome de Eywa, mas não é personificada. Em Pocahontas é a Vovó Willow, uma árvore.

O filme tem um ritmo mais lento do que o padrão Disney/Pixar que a gente tá acostumado. É um filme europeu, for Christ sake! Mas é bem curto, 1 hora e 15 de filme, a história não é enfadonha em momento algum, e é muito rica. Metafórica e poética. A história é uma adaptação do livro Brendan and The Secret of Kells e além das lendas e folclores celtas, tem como base a produção do livro de Kells, um dos códices mais antigos do mundo, e um dos mais importantes na atualidade por ser um dos raros exemplares ainda existentes.

Para quem não sabe, códice é a forma mais antiga do formato de livro que hoje existe. O livro de Kells, especificamente, foi feito por volta de 800 d.C. Eram artefatos caros, por serem ricamente ornamentados, e feitos manualmente pelos raros indivíduos alfabetizados. O material também era caro, usavam tintas raras (tudo era de difícil acesso naquele tempo), como lápis-lazúli, pedras e metais preciosos. Por tal motivo, eram peças únicas e normalmente encomendadas por pessoas de grande poder aquisitivo.

Só depois da invenção do papel, e de Gutenberg, no século XV, criar a primeira forma de impressão por tipos móveis, que a forma atual de livros foi criada. Sua praticidade tornou possível criar diversas cópias de uma obra, o que impulsionou a disseminação do conhecimento e iniciou o processo de erradicação do analfabetismo. E assim como a maioria dos códices, adivinha qual o teor dos primeiros livros que Gutenberg produziu? Acertou quem respondeu a Bíblia e outros textos religiosos... Só depois que textos universitários vieram a ser impressos.

A confecção do livro é contextualizada com a história da Irlanda, na época em que a ilha era alvo constante de invasões vikings. A abadia de Kells representa a cristiandade e a floresta o misticismo, paganismo, as culturas célticas. A metáfora que Aisling logo na primeira cena diz “Eu vi o livro que transformou trevas em luz”, nada mais significa o que o livro de Kells representou historicamente, a propagação da cultura.

Eu gosto de interpretar a metáfora referindo-se ao livro mais na sua forma do que no conteúdo, porque para mim religião (ou a grande maioria delas ou todas que eu conheça) nada mais é que cultuar e semear preconceitos, segregação e opressão, disfarçada de vontade divina. Os livros, além de disseminar valores religiosos, foram importantes para se registrar todas as formas de cultura, como bem sabemos. E livros, muito mais que os papiros egípcios, pergaminhos, entre outros, são mais resistentes, duradouros e de fácil manuseio.

Tudo bem que o filme retrata os vikings como meros bárbaros saqueadores (e longe da imagem que Obelix antes mostrara, aqui eles parecem Darth Vaders) que invadiam vilarejos em busca da sua riqueza. Apesar de essa ser a visão mais difundida deles, hoje se sabe que eles deixaram contribuições diversas para a civilização ocidental, mas essa é também a visão que o povo irlandês tinha deles. Como vocês acham que os índios ou os negros viam os portugueses durante a colonização, independente de qual legado cultural eles deixaram para a sociedade atual?

E voltando ao filme, eu sinceramente se fosse votante do Oscar, teria sérios problemas em escolher um dos filmes indicados a animação. Por mim todos eles teriam sido indicados a melhor filme. Acho que dos cinco indicados, o único que não votaria seria Coraline, não por achar ruim, mas simplesmente por achar os outros superiores. Up era barbada, todos sabiam que ganharia, e a Pixar, além de competente, é extremamente forte, tem um lobby poderoso, e é americana, o que por si só já desequilibra a disputa, mas os demais não deixam nem um pouco a desejar.

E gostaria de deixar uma notinha final sobre o mascote do filme, Pangur Bán. O nome vem de um antigo poema irlandês, que um monge escreveu sobre o seu gato branco homônimo, e uma tradução aproximada seria "Lã branca". Todo desenho animado, principalmente os não estrelados por animais, tem seus cativantes mascotes, mas esse supera todos os níveis de carisma. Quer dizer, menos para os desalmados que não gostam de gatos. Ou de animais em geral... Quando eu tiver um gato de novo com certeza pensarei seriamente em batizá-lo de Pangur. Ou de Cruel...

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