quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Seção CINEMA // Críticas diversas - parte 2

A Raposa e as Uvas

O Fantástico Sr. Raposo // The Fantastic Mr. Fox

Nota: 9,5

Na boa, as animações esse ano dando um banho nos outros filmes. Só falta eu ver o irlandês sobre o Livro de Kells (que me interessa, já que fiz um estudo sobre códices, e o de Kells é um dos mais famosos exemplares). E dos que eu vi, se dependesse de mim, indicaria os quatro ao Oscar de melhor filme, visto a quantidade de porcaria que colocaram ali. A história é ótima, analisa pontos bem interessantes, já que normalmente esses desenhos são sempre metafóricos, como as fábulas, e que a gente pode pegar as morais e aplicá-las a vida cotidiana.

No caso, é sobre um raposo, casado com a raposa e pai do raposinho. Ele era um ladrão, mas mudou de vida. Só que na vida atual ele sente falta da adrenalina da vida antiga, já que fugiu da sua natureza. Todo mundo sabe que raposa é famosa por roubar galinha de poleiros. São sorrateiras e tal. A sua esposa é companheira e organizada, o filho é estranho e deslocado (provavelmente gay, mas a história não se aprofunda nisso), e ainda tem um sobrinho que é tudo que o raposo queria que o filho fosse, o que só desperta o ciúme do coitado.

A animação é muito bonita, de bom gosto, foge do padrão 3D que a Pixar praticamente impôs a todo o mercado. Não que o padrão da Pixar seja ruim, mas é sempre bom ver outras alternativas. Que são tão boas quanto. A versão original tem dublagens de George Clooney, Meryl Streep, Jason Schwartzman, Bill Murray entre outros. A trilha sonora anos 60-70 é um primor. A direção é do Wes Anderson, que ficou famoso por Os Excêntricos Tenembaums, aquele filme chato pretensioso. Esse é muito melhor.



A História Sem Fim

A Estrada // The Road

Nota: 9,0

Viggo Mortensen precisou pagar mico como Aragorn pra poder ter a chance de fazer coisas boas. Depois fez dois filmes ótimos com o Cronemberg e agora fez esse. É mais um daqueles filmes apocalípticos, mas não tem zumbis, nem vírus, nada do tipo. Nem sustos. É só um drama sobre um futuro pós-apocalíptico, em que as causas não são explicadas. Não há comida, e os poucos que sobreviveram ou vivem escondidos, ou viraram canibais (a gente não vê as cenas de tais circunstâncias).

Nisso, pai e filho, logo depois da esposa depressiva, feita pela Charlize Theron (outra que só faz cosia boa), desaparecer resolvem sair de onde estão e ir para o sul, onde não é inverno rigoroso. Mas a estrada é longa, cheia de perigos, e eles têm que aprender a lidar com eles, e o pai tenta ensinar ao filho como cuidar de si mesmo no caso de algo acontecer.

É um filme difícil, de certa forma pesado, mas muito bonito, poético. O ponto positivo é que ele não se excede na sua metragem, sabe acabar na hora na certa. Tem um final agridoce, assim como tudo na vida. Provavelmente devido a pouca publicidade ele não recebeu nenhuma atenção nas premiações. E divulgação é fundamental pra isso. As pessoas precisam saber que o filme existe pra poderem votar nele. Por essas e outras que filmes bons estão de fora.



O Céu É Para Todos

Um Olhar do Paraíso // The Lovely Bones

Nota: 9,0

Esse novo filme do Peter Jackson foi desprezado e mal visto pela crítica. E pelo público também, aparentemente. A crítica achou de mau gosto. O público já não gostou provavelmente porque a protagonista é uma menina, o que não é adequado para um filme cheio de efeitos especiais. A gente já conhece o machismo da população, toda aquela coisa de supremacia masculina, e má vontade em lidar com os problemas femininos. Já eu adorei. Achei uma história difícil. Talvez por isso eu tenha gostado. Porque além dos efeitos, há um tema interessante sendo abordado, e de uma maneira interessante. E não tem elfos, nem duendes, nem gnomos, nem smurfs, nem anel nenhum.

O argumento dos críticos é que o filme passa a mensagem que há muitas coisas esperando por meninas de 14 anos que são brutalmente estupradas e assassinadas. Que seus assassinos são heróis na verdade, que as libertará para uma vida após a morte em um universo mágico, um país das maravilhas, e procure já o seu aliciador! E pra onde eles queriam que elas fossem? Pro purgatório? Ou virar assistente de palco de satanás, cantando "Ritmo de Festa"? Acho que qualquer pessoa com o mínimo de bom senso sabe que isso é uma ficção. Se alguém realmente quiser partir desta pra melhor dessa maneira, pra poder desfrutar de todas aquelas “maravilhas”, essa menina tem sérios problemas mentais.

Certamente aquela profundidade da odisséia do anel seja algo muito mais interessante pro ponto de vista deles. Sinto discordar... Enfim, a história é sobre uma menina de 14 anos (feita pela Saoirse Ronan, uma das melhores atrizes teens da atualidade, que já foi indicada ao Oscar por Desejo e Reparação), e acontece com ela tudo que descrevi no parágrafo anterior. Só que enquanto ela está no “país das maravilhas”, segundo eles, a família dela, por nossas bandas, sofre com o seu desaparecimento, já que seu corpo não é encontrado.

Mas mesmo lá nesse mundo especial, ela não se sente feliz, e consegue de uma maneira se comunicar com o seu pai (o Mark Wahlberg, na sua melhor atuação desde Os Infiltrados), e dar pistas do que aconteceu. A mãe dela é a Rachel Weisz, Oscar de coadjuvante por O Jardineiro Fiel, que enlouquece e precisa se distanciar da família pra poder racionalizar a perda. Ela ainda tem dois irmãos menores, e a avó "banda-voou", que é o alívio-cômico do filme, feita pela Susan Sarandon. Eu gostei do filme o suficiente pra vê-lo outras vezes. Achei a história dolorosa, mas com um desencadear tocante e envolvente. Só não gostei do fim de uma das personagens.

4 comentários:

  1. eu gostei do sr. raposo, achei o filme charmoso e muito bem feito. Mas queria comentar mesmo The lovely bones - acho que as pessoas é que tem mau gosto, como podem deturpar deste modo a mensagem do filme? Acredito que isto acontece porque a mente padronizada e programada delas não aceita que temas como a magia da infância e o aliciamento de menores coexistam na mesma trama, como se isto comprometesse uma coisa com a outra. Desconsiderando a construção narrativa e abordagem metaforica da coisa. Céus, onde está a capacidade de abstração e interpretação do povo, hein? Haja Clint Eastwood e James Cameron - muita explicação desnecessária e narração em off redundante - na veia para garantir o contentamento da galera.

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  2. Tb achei "A estrada" poetico Queria outras adaptacoes do Cormac McCarthy na telinha "Meridiano de sangue", que tem um juiz albino careca de 2 metros que mata seus oponentes e depois toca rabina. Segundo Harold Bloom, esse livro define toda a violencia e odio do povo dos EUA.
    Uma pena que vc odeia ler livros.
    Bjos.

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  3. Oh pa, foi das melhores críticas que li a THE LOVELY BONES, quando este aparentemente desiludiu meio mundo. Curioso.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  4. Dai, amém!

    Asnalfa, ler não é comigo mesmo. Nunca tive paciência. Só coisas breves.

    Roberto, eu gostei muito, como deu pra ver. Mas eu normalmente vou totalmente contra o senso-comum, então não posso ser considerado como parâmetro para sucesso de um filme. Os filmes comerciais que arrecadam rios de dinheiro muito raramente me agradam. Esse é o motivo de eu ter gostado do filme, ele tem muito mais pra passar do que a velha história da luta do bem e do mal.

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