sábado, 6 de fevereiro de 2010

Seção CINEMA // Crítica Nine

Nem Oito, Nem Oitenta

Nine

Nota: 7,0

Nunca se deve esperar muito de algo, porque do topo só há uma única direção depois. Fellini 8 e Meio é um ótimo filme. Um grande filme. Importante e influenciador. Ganhou o Oscar de Filme Estrangeiro nos anos 60, e diversos outros prêmios. Quando eu assisti me deu sono, não vou mentir... Mas eu entendo e concordo perfeitamente porque ele é tão cultuado e aclamado. E apesar de não ter visto a filmografia inteira do Fellini, gosto de pensar que ele fez coisas superiores. Enfim. Esse filme dos anos 60 gerou um musical chamado “Nine”, que foi diversas vezes encenado em teatros do mundo inteiro, e recentemente foi feito na Broadway com o Antonio Banderas (que ficou com um bico maior do que pato porque ficou de fora do filme). E o musical foi dessa vez adaptado para o cinema pelo Anthony Minghella (de Cold Mountain, O Paciente Inglês e O Talentoso Ripley), e foi dirigido pelo Rob Marshall, diretor de Chicago (que eu venero).

Enfim, a história é a mesma do filme do Fellini, mas os personagens têm nomes diferentes. E colocaram diversas músicas no meio. Minha opinião? Não vi as produções teatrais, então não posso opinar, mas nessa versão cinematográfica não colou... Eles fizeram o mesmo esquema de Chicago, onde as músicas eram reinterpretações das cenas, onde a gente vê as situações de uma outra perspectiva, como um espetáculo. A gente assiste as duas intercaladas, a versão musical e a dramática.

Mas em Chicago os números musicais são normalmente visões paralelas fruto da imaginação da protagonista (que é obcecada em se transformar em artista de teatro de revista), e aqui não é o caso, e as canções não se encaixaram bem na história. Por exemplo, a Fergie (a cantora do grupo Black Eyed Peas) faz uma prostituta que é uma das lembranças que marcaram a infância do Daniel Day Lewis (o protagonista), enquanto acompanhamos as recordações dele, ela canta “Be Italian”. Apesar da letra combinar, as imagens que vemos não fazem muito sentido...

Bom, deixe-me explicar as personagens e a história. Daniel Day Lewis é Guido Contini, um cineasta que está prestes a começar seu novo filme, chamado Itália, mas ele está travado e não consegue escrever o roteiro. Além de ser atormentado pelas mulheres (reais ou vultos) da sua vida: Marion Cotillard, a esposa; Penélope Cruz, a amante; Nicole Kidman, a atriz favorita e musa inspiradora; Judi Dench, a figurinista e conselheira; Kate Hudson, é uma paquita. Mentira! É uma jornalista americana que é encantada por ele; Fergie, a prostituta que foi importante na sua infância; e a loba romana Sophia Loren (que deve mesmo ter alimentado Rômulo e Remo) faz a mamãezinha querida...

Já deu pra ver que o elenco é uma verdadeira constelação (a Sophia é a cadente...), e esse é um dos problemas do filme. Muita estrela sem ter o que fazer. Lembrou-me de Gosford Park nesse aspecto. Kate Hudson só paga mico e canta uma música de letra ridícula. E que foi escrita especialmente para o filme pra poder concorrer a prêmios. Mas ela tem uma voz boa. Fergie é uma figurante de luxo. E podia ser o melhor papel de todos, se ele fosse melhor aproveitado. Sophia é a pior coisa que poderiam ter colocado no filme. Não tem nada pra fazer, e ainda faz mal o pouco que lhe cabe.

Já as outras 4 têm uma participação interessante. Marion e Penélope têm os melhores papéis. Inclusive a canção da Marion é a melhor coisa do filme. A analogia entre descaso e strip-tease é um dos poucos números musicais em que a música e a cena têm nexo. A Penélope cantando me lembrou a Gretchen... Nicole tá criminosa de tão muitíssimo linda demais. Ela devia ser presa por humilhar o resto da humanidade. Um desaforo. A Judi Dench como conselheira e braço direito do Daniel também tem bons momentos, apesar do papel não exigir nada dela.

Mas o que mais me incomodou é que todas elas são objetificadas, e por um homem que também não mostra conteúdo algum. Aquela coisa machista/moralista. Quando o filme acaba fica aquela sensação de que todas elas (menos a Sophia) podiam ser melhor aproveitadas. Mas mesmo assim é um bom filme e acima da média dos musicais que têm sido produzidos recentemente. E eles voltaram à moda, depois de serem totalmente esquecidos nos anos 80 e 90. Dos recentes, Chicago e Evita continuam imbatíveis pra mim. São no nível de Hair, Cantando na Chuva e Cabaré. Hairspray tem minha afeição e Dreamgirls chegou quase lá.

Rent e Across The Universe nem chegaram aos pés das minhas expectativas. Sweeney Todd, Moulin Rouge e Mamma Mia eu desprezo. Eu lembro de ter lido a sinopse de um musical, que me interessou muito até eu descobrir que tinha a Paris Hilton no elenco. Já é informação o suficiente sobre a qualidade de qualquer coisa. Ela depois ganhou o Framboesa de pior coadjuvante por ele. É até pedrada em cachorro morto dar esse tipo de prêmio a ela. Seria muito mais interessante, por exemplo, a Sophia ganhar, não é mesmo minha gente?

4 comentários:

  1. Paquita, loba romana,....
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Adoro suas cronicas menino!!!
    To louco esperando esse filme cair na net. Aqui na roça nao passa esse tipo de filme nao....
    Assisti "A estrada" e adorei! Achei poético. Vc vai ver tb?
    Bjos goianos pra vc.

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  2. Já vi a Estrada. Tem um tempinho já. Acho que o Viggo devia ter sido indicado a prêmios. Ele e o Hugh Dancy por Adam, que ninguém viu, nem ouviu falar.

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  3. divertido e razoável, um excelente caso de amor ou ódio e uma fotografia primorosa da autoria de Dion Beebe (Chicago) Não deixa contudo de ser uma respeitosa homenagem aos filmes italianos de 60 e 70 e especialmente a 8½ de Federico Fellini na sequência de créditos final. Contudo, não deixamos de sentir um ligeiro desagrado e a certeza que Rob Marshall podia ter feito melhor.

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  4. Eu gosto de 8 1/2. Tem o lance das divas misteriosas e diáfanas não serem personagens bem definidas. Elas são para ele. Mas o ele (Mastroianni, no de Fellini e Daniel Day Lindo, em nine) realmente é algo.
    beijo!

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