quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Seção CINEMA // Crítica Lula, O Filho do Brasil


Pense em Mim, Chore Por Mim…

Lula, O Filho do Brasil

Nota: 6,5


Pra ver esse filme e ser completamente justo em relação à produção em si, esquecendo tudo que ela representa, a gente tem que esquecer por um momento que é ano eleitoral, que o Lula ainda é presidente e que, como todo filme feito no Brasil, ele aparentemente (ou provavelmente) foi financiado com dinheiro público pelo Ministério da Cultura, fatores que o torna em uma mera propaganda e jogada de marketing, bem aos moldes dos documentários nazistas da Leni Riefenstahl (salvando as devidas proporções, evidente).

A biografia do Lula vai desde quando ele nasceu e, ainda criança, foi para Santos com a mãe, que largou o pai alcoólatra, virou torneiro mecânico, metalúrgico, sindicalista e líder do sindicato em seguida. Até chegar a presidência. Quer dizer, o filme não vai até ele ser eleito porque senão ia ser mais longo que os três “O Senhor dos Anéis” juntos, ou muito mal contado, mas ele vai até uma parte relevante da história, e depois entram aqueles letreiros super criativos contando como tudo termina. E ainda assim é longo o suficiente pra que eu me remexesse na poltrona e olhasse pro relógio várias vezes.

O maior trunfo do filme é ter focalizado mais na figura da mãe, por dois motivos: o primeiro porque de certa forma tirando de cena o Lula, transformando o filme de alguma maneira em uma relação mãe-filho, a imagem de jogada de marketing-propaganda política é menos . E a segunda é que bota a Glória Pires em evidência, e ela é o que o filme tem de melhor, tanto a personagem, quanto a Glória como artista. Mas ainda há falhas.

A Glória convence sempre como nordestina. O sotaque é adequado, tirando um ou outro deslize, bem longe do que a gente vê naqueles estereótipos asquerosos das novelas da Globo, tipo Suzana Vieira fazendo Maria do Carmo... Já o ator que faz o pai do Lula em nenhum momento ao menos lembra um nordestino. Como um bêbado ele tá perfeito, mas falta o porte, traquejo, a simplicidade, rusticidade do nordestino do sertão.

Mas ela é bem esperta e também fala muito bem para ser uma analfabeta. Faltou um pouco de brejeirice. E nas suas cenas finais, deveriam ter envelhecido-a melhor. Ela já não mais parecia ser mãe daquele homem que o Lula virou. E o Lula é feito por um monte de atores. Cada idade é um ator diferente. O último deles, o estreante Rui Ricardo Diaz, é o melhor de todos. Até nos discursos parecem ser o próprio Lula falando.

E acho que de certa forma faltou colocar sofrimento na cara das pessoas. O Fernando Meirelles fez isso muito bem em Cidade de Deus. A gente só percebe isso na Glória. Mas nos demais não. Pareciam mauricinhos do Rio-SP encenando um livro de Jorge Amado pra aula de literatura do colégio. Por exemplo, a Cléo Pires estava muito embonecada pra convencer como uma moça humilde. Pelo menos ela disfarçou o sotaque carioca pesadíssimo dela. Mas ela mostra ter talento, sim. Eu até consegui achá-la bonita, coisa que eu não achava antes, normalmente por causa do sorriso de coringa. Um dia ela chega ao nível da mãe.

Rubens Ewald disse que esse é o melhor filme da filmografia do Fábio Barreto (indicado ao Oscar por O Quatrilho), mas pra mim o roteiro é manipulador do início ao fim. O excesso de sentimentalismo que estimula as glândulas lacrimais do público deixa difícil a gente esquecer tudo que eu disse pra gente deixar de lado no primeiro parágrafo. Minha mãe que é manteiga derretida de carteirinha assinada não sossegou um minuto. O filme implora sempre pra gente chorar, o que nos faz suspeitar de qual o motivo de tanta emoção. Aí fica até difícil de ter argumento pra defender. Mas eu como esquerdista, mesmo estando longe, ainda prefiro o PT no governo a ter que agüentar os tucanos de novo no poder depois de oito anos de FHC.

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