sábado, 16 de janeiro de 2010

Seção CINEMA // Crítica Avatar

As Cores do Vento

Avatar


Nota: 7,0

A exemplo de Gran Torino e Clube da Luta, eu vou ter que meter o dedo na ferida e incitar o ódio à minha pessoa. Ainda bem que meu blog nem é tão visitado, eu não sou famoso e a minha foto ao lado é bem enigmática, porque senão eu seria apedrejado pelas ruas. Mas mesmo assim não hei de me calar! Com toda a sinceridade, eu gosto do James Cameron. Eu amei Titanic. Mas eu vi quando eu tinha o quê? 12 anos. Seus milhões de falhas eram imperceptíveis a minha visão crítica de hoje, que agora eu só vejo como um charme a mais na obra. Titanic ainda é a maior bilheteria de todos os tempos, mas Avatar já tá em segundo. Vamos combinar que o enredo já é pra lá de batido. Tava com uma amiga tentando elaborar uma equação que correspondesse ao filme, e a gente chegou à seguinte: Pocahontas + O Último dos Moicanos + O Último Samurai + Dança com Lobos + Atari + Wii. E aí? O que acharam???

A história? Na verdade é só uma desculpa pra mostrar pra gente tudo que há de mais moderno em efeitos especiais no mercado. Eu até tentei ver em 3D, mas as sessões estavam todas lotadas por 3 dias, então vi em 2D mesmo. No filme, terráqueos (todos americanos, lógico) vão até um planeta chamado Pandora “explorar”. A equipe liderada pela Sigourney Weaver quer estudar o lugar, enquanto a equipe do Coronel Quaritch tem outros interesses pouco pacíficos.

A história é bem intencionada, mas é fraquíssima. Vamos combinar: nenhum chefia americano no oriente médio diz com todas as letras que eles estão interessados no petróleo, como o Giovanni Ribisi disse pra Sigourney que eles só estão ali atrás daquela pedra que custa 20 milhões o quilo. Disfarçam a selvageria de “ensinar a democracia” e de “guerra ao terror”, que é até nome de outro filme do mesmo naipe. Mas eu entendo que esse tipo de filme é endereçado a um público em que pensar não faz parte das suas principais virtudes, então tem que ser tudo escancarado mesmo, senão a mensagem não entra.

O protagonista, o ator australiano Sam Worthington, é um ex-fuzileiro que tem um avatar (que eu bem que tentei, mas não sei como definir exatamente o que é em palavras. Procure um dicionário, por gentileza) para circular pela área, brincar com as águas vivas voadoras, e ele, muito faceiro, acaba “fazendo amizade” com o pessoal local, e sendo ensinado por uma deles, a Zoe Saldaña, a sua cultura. Mas ele de dia é Maria e de noite é João, vive uma vida dupla, um pouco entre os humanos, um pouco entre os Na’vis.

Essa fase de descoberta é linda. Eu já tava esperando a Pocahontas ou a Vanessa Williams (ou a Daniela Mercury) entrar cantando As Cores do Vento. Tudo é tão colorido e fluorescente que não duvidaria nada que o vento tivesse cor também. Engraçado que em Crepúsculo o vampiro-purpurina brilha no sol, já em Avatar tudo brilha no escuro. As plantas, os bichos, tudo! Você é presa de algum predador? Se lascou! Brincar de esconde-esconde? Sem chance! De repente eu olhei pra baixo, e a minha havaiana tava brilhando também. Se eu tivesse colocado o pé para o alto o pessoal ia achar que tava vendo o filme em 3D.

E cá entre nós, essa tecnologia que o James Cameron criou pra transformar atuações reais (os atores, pessoas em carne e osso) naqueles bonecos azuis é revolucionária, inovadora, mas ao utilizar a ferramenta o bom gosto passou longe. Ficou muita informação. Parecia caixa de lápis de 36 cores. E com exceção das plantas (que não passavam de palmeiras, bananeiras, coqueiros, avencas, samambaias e afins), os animais não pareciam de verdade. Pareciam mais personagens de Playstation. Achei as criaturas de Evolução (aquela comédia com a Julianne Moore e o David Duchovny) mais realistas. Mas evidentemente isso daí vai ser aprimorado. Daqui a pouco não precisarão mais de maquiagem pra transformar um ator em alguma biografia. Os efeitos especiais se encarregarão disso. Também não haverá mais gente feia no cinema. Qualquer um vai poder ser lindo e esbelto, de acordo com o padrão de beleza vigente. Toda uma expectativa de inclusão e aceitação da diversidade...

As personagens também não foram nem de longe bem escritos. São todos planos, sem nuances. Principalmente o vilão, que é o estereótipo do estereótipo, desde a total ausência de bondade até as cicatrizes na cabeça. E pra quem lutou numa fictícia guerra na Venezuela (certamente sem nenhum interesse pelo petróleo), me espanta logo no começo o Sam dizer: Na Terra, esses caras [os fuzileiros navais] eram a principal força do Exército. Lutando pela liberdade. Mas aqui eram só mercenários ganhando seu dinheiro. Aí eu pergunto: liberdade de quem, cara pálida?

Eu poderia também escrever um livro sobre aquele planeta em si. Tem muitas coisas duvidosas ali, além do gosto. Por exemplo, se há água em abundância, como pode não haver oxigênio no ar? Por que as montanhas flutuantes não caem? Porque mosquitos voam girando? Ele poderia ter sido muito mais criativo e inovador nesse sentido. Mas aquela árvore luminosa (luxuosa! Vai ser a nova tendência no próximo Natal), superou as minhas expectativas. Eu tava esperando que ela andasse, como em Senhor dos Anéis, ou então fosse igual à vovó Willow de Pocahontas, e desse conselhos.

Os Na’vis são um capítulo a parte. Se o filme fosse meu, eu não faria dos ETs (uns smurfs gigantes) uma mistura de Timbalada com Kaoma. Na hora que a Zoe (que é linda, mas a gente não vê a cara real dela em nenhum segundo) pinta o Sam todo pra uma celebração, eu achei que ele ia começar a cantar Beija-Flor "eu fui embora meu amor chorou...". Ficou tudo muito similar ao que existe na Terra, e se existir vida além daqui, eu suponho que seja algo completamente diferente e totalmente perturbador pra gente. E talvez haja até mais de uma espécie racional, como é aqui. Sério, tem hora que eles lembram índios, pela divisão social, outros momentos as semelhanças com ritos africanos são gigantes, e Pandora, que é uma palavra grega, foi adotada por eles como o nome do planeta. Não dá pra dizer que isso foi bem estudado, né...

E eu como designer tenho que também me repugnar pessoalmente por um instante. Milhões e milhões foram gastos pra se fazer esse filme, mas o sovina do James Cameron não teve a capacidade de contratar um designer pra criar uma fonte exclusiva praquelas legendas quando os nativos falavam! Usaram aquela fonte Papyrus que tem em todo computador. Uma vergonha. Pelo menos, apesar dos pesares, o filme é anti-imperialista, anti-colonialista e anti-armamentista. E não senti sono em momento nenhum durante suas 3 horas. Bom, já falei até demais e eu até poderia continuar, mas acho que já debochei o suficiente. Bato em retirada. Etibandê Preta!

8 comentários:

  1. ótima resenha, Vi. Alguns críticos estão dizendo que o filme é racista, por ressuscitar a mística do Negro Mágico (expressão criada pelo Spike Lee, confira: http://en.wikipedia.org/wiki/Magical_negro), achei esquisito esse mosaico étnico, um amontoado de estereótipos de minorias. Tb achei tosco eles escalarem só atores negros para os papéis tribais.
    Outra coisa é a ovação americana ao homem mediano e boboca - um jeito hommer simpson de ser. Pesquisadores levam anos estudando um idioma complicadissimo, aprendendo genética e antropologia, mas, no final das contas, é o soldado raso que resolve as coisas, pois trata-se de um predestinado, etc etc.
    Adorei saber de sua percepção como designer sobre a estética do filme. Eu assisti em 3d e acho que foi generalizado o desapontamento com os poucos recursos para dar sensação de proximidade e realismo. O trailer de Alice foi muito mais emocionante que o filme inteiro do Cameron. De resto, acho que vc já disse tudo.
    beyjos!

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  2. Adorei a resenha, a única coisa que não entendi foi por que a tag do Giovanni Ribisi vem antes da do James Cameron...

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  3. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Morri de rir da sua crônica, gatchinho!!!
    Ainda nao assisti, mas vi "Guerra ao terror" e ate que gostei. É bem capaz de levar oscar de direção mas duvido que leve de melhor filme!!!
    Tb vi "Up the air" e gostei tb!
    Clooney bem canastrao!
    Mas ... perai!! Vc foi de havaina no cinema nos EUA??? Eles deixam vc entrar com isso??? To passado!! E ninguem olha com cara feia pra vc nao na rua??
    Bjos.

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  4. Luiza, as tags aparecem em ordem alfabética. Não sou eu quem controlo não...

    Eu vi Guerra ao Terror e detestei. Vi Up in The Air e gostei, me lembrou os filmes do Cameron Crowe, mas sem o senso de humor, que é o que há de melhor neles.

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  5. Avatar é a revolução visual que anunciou, é um dos melhores filmes do ano, da década e de sempre. Não é o melhor, apenas porque a narrativa não acompanha a técnica excelsa. Mas é sem sombra de dúvidas, um marco no Cinema. Agora no Cinema há o Antes de Avatar e o Depois de Avatar.

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  6. Eu sinceramente tenho preconceito com filmes em que seus efeitos especiais são o que eles tem de melhor a oferecer. Cinema é contar histórias. Se ela não for boa, ou bem contada, tudo desanda, mesmo a intenção sendo boa.

    Acho que partindo desse ponto de vista, também há o antes e o depois de Star Wars, de Indiana Jones, de Blade Runner, de ET, de De Volta pro Futuro, de O Exterminador do Futuro, de O Sr. dos Anéis, de Matrix, de Titanic, e assim por diante. Acho que entra tudo na categoria de cinema pipoca em que atuações e diálogos inteligentes não são importantes.

    Eu acho que de fato não nasci pra nascer nerd. Ou não gostei da infância mesmo...

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  7. Olá sou o Tarcisio, eu procurei na internet criticas sobre o dito filme, de loge a sua foi a que mais me diverti! principalmente com a parte "ma mistura de Timbalada com Kaoma"..rsrsrsrsrs!!!
    Bom eu partilho da mesma opiniao que vc praticamente em tudo, um filme legalzinho de se ver, mas de longe um filme ser lembrado, ANAO SER PELO ESFEITOS GRAFICOS, que pra mim é a amesa "titica" que filmes de ação que só tem explosoes! Nao que nao seja importante tecnologia grafica! mas esse filme ficou muito, muito e muito colorido! Realmente "uma caixa de lapis de cor de 36 cores" Uma história bem intencionada porem clicheeeeee demaissss!! Ae o James se liga do cliche que criou e vai em varios jornais dizendo tenho esse roteito feito desde antes do Titanic "otemo filme, esse sim foi uma obra prima" E o cinema baby..eles estao bem ligados nas criticas!

    Como consideraçoes finais eu falo.
    Nem todos ficam sao atraidos pela luzinha da varanda como mosquitos entorpecidos!

    Nunca se esqueça, Pense!

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  8. Olá sou o Tarcisio, eu procurei na internet criticas sobre o dito filme, de loge a sua foi a que mais me diverti! principalmente com a parte "uma mistura de Timbalada com Kaoma" (rsrsrsrsrs!!!)
    Bom eu partilho da mesma opiniao que vc praticamente em tudo, um filme legalzinho, mas de longe um filme para nao ser lembradocomo todos estao disendo a nao ser "PELO ESFEITOS GRAFICOS" que pra mim é a mesma titica que filmes de ação que só tem explosoes! Nao que nao seja importante tecnologia grafica! mas esse filme ficou muito, muito e muito colorido! Realmente "uma caixa de lapis de cor de 36 cores" Uma história bem intencionada porem clicheeeeee demaissss!! Ae o "James" se liga do cliche que criou e vai em varios jornais dizendo, "tenho esse roteito feito desde antes do Titanic" nao que seja mentira mas ele so reforçou isso por perceber que a maiotia das pessoas que tem algo a cabeça, nao gostaram!

    Como consideraçoes finais eu falo.
    Nem todos ficam atraidos pela luzinha da varanda como mosquitos entorpecidos!

    Nunca se esqueça, Pense!

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