domingo, 17 de janeiro de 2010

Seção CINEMA // Crítica Amor Sem Escalas

Serpentes a Bordo

Amor Sem Escalas // Up in The Air


Nota: 8,5


Em 2001 foi publicado um livro chamado Up in The Air. A capa era (acho que ainda é) uma ilustração, e havia um homem voando em chamas. Aí veio 11/9, e arruinou a vendagem do livro, já que a capa era supostamente mórbida para o momento. Com sorte, Jason Reitman resolveu adaptar a história para as telas, e agora, quase 10 anos depois, o livro conseguiu ir bem nas vendas. O Jason acertou em cheio com Obrigado Por Fumar, mas chegou ao sucesso mesmo com Juno, que eu achei bem mais ou menos. Achei irresponsável, moralista e conservador, mas disfarçado de moderninho. Agora ele cresceu, já superou a adolescência da Juno e virou George Clooney em crise de meia-idade.

Bom, na história o George Clooney trabalha pra uma empresa que é contratada por outras para despedir seu pessoal. Ele também dá palestras sobre como ver na desgraça (a demissão) uma dádiva. Ou seja, a gente poderia chamá-lo também de filho da puta profissional. Ele passa a maior parte dos seus dias viajando, visitando as empresas que contratam seus serviços, o que o impede de ter uma vida pessoal, e de manter uma relação com seus familiares. O maior sonho dele é juntar 10 milhões de milhas. Enquanto isso a gente vai agüentando aquela overdose de merchandising da American Airlines...

A empresa em que ele trabalha contrata uma jovem promissora e recém-formada, feita pela Anna Kendrick, que já chega ameaçando o lifestyle do Geoge com um projeto de automatizar a demissão do pessoal, e ele, a contragosto, tem que ser o seu treinador durante seus primeiros meses. E ainda durante suas andanças, o George conhece a Vera Farmiga, que tem uma vida praticamente idêntica a dele, e eles iniciam um relacionamento totalmente casual.

O título nacional, como sempre, é péssimo. Dá a entender que é uma comédia romântica, quando na verdade o filme não é nem engraçado e nem romântico, apesar do clima leve, de road movie. Tem o envolvimento do George com a Vera, mas é só uma das casualidades da vida. Não é o foco da história. Tudo me lembrou muito os filmes do Cameron Crowe, desde o clima, o senso de humor das personagens, o cuidado com a trilha sonora (que é perfeita), mas o Cameron sabe como ninguém transformar situações indigestas em cenas edificantes e bonitas, e nos fazer rir com personagens cheios de vitalidade, como em Elizabethtown, por exemplo.

O principal defeito do filme é esse. Ele não se decide se é drama ou comédia, principalmente lidando com um tema difícil como esse. Na verdade ele não fica nem no meio termo, que costumam chamar de dramedy. Eu não saberia nem classificar ao certo. Ele mantém um clima leve o tempo inteiro, mas que contrasta com a reação das pessoas ao serem demitidas. Eu não vejo nada de leve ou engraçado em pessoas perdendo seu sustento, vendo a vida que elas conhecem indo pelo ralo. Mas a história também não consegue transformar isso em senso de humor de alguma forma, pra que assentasse bem com o clima todo do filme.

O filme tem sido um dos grandes da temporada, com diversas indicações a prêmios. George Clooney tá perfeito. Bem cínico, como o papel exige, e o roteiro deveria aproveitar muito mais desse carisma natural dele. Anna brilha de uma maneira que em Crepúsculo ela jamais poderia, já que lá ela não tem nada pra fazer. A personagem dela me lembrou um pouco a Joey de Dawson’s Creek, com aquele jeito chatinho e a obsessão (bem americana) de sempre fazer a coisa certa. O tipo de gente que fica totalmente perdida se qualquer coisa não sai como o planejado. Totalmente sem jogo de cintura. A Vera está bem, mas o papel é ingrato. A cada aparição ela parece ser uma pessoa diferente. Não há muita coerência no comportamento dela.

Outra coisa que me pareceu forçada foram os encontros “casuais” do George e da Vera. Pra pessoas que viviam viajando pelo país, eles se encontravam demais por acidente. Acho que no geral, o Jason fez um trabalho bem superior a Juno, e merece o sucesso que tem tido, mas também não merece prêmio nenhum. Só as indicações mesmo já estão de bom tamanho. Eu até nem acharia injusto se o George ganhasse uns prêmios de melhor ator, mas eu ainda acho o Colin Firth superior. E ainda tem o Jeff Bridges, que já chegou à idade de ganhar pelo conjunto da obra, e talvez seja a maior competição do momento, o provável vencedor da temporada.

2 comentários:

  1. Pra mim a grande descoberta do filme é mesmo a Anne, que está perfeita e transforma água em vinho. A personagem da vera é inverossímil mesmo. E o Clooney, até tentei curtir, mas falta, sabe, falta muito para uma interpretação cativante. Quanto ao enredo, acho que ele repetiu a fórmula de Juno: "irresponsável, moralista e conservador, mas disfarçado de" ousado. Adorei a resenha, muito bem escrita, vi.

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  2. Tb percebi isso! Nao é comedia, mas tb nao é drama. O Rubens Ewald Filho disse que isso é uma comedia cínica!!
    O Clooney é muito canastrao!! Ja tem um Oscar de coadjuvante no curriculo e ate o Rubens disse que a interpretação do Colin Firth é melhor do que a Jeff Bridges, mas Bridges vai ganhar o Oscar pelo conjunto da obra mesmo!!!
    Vai comentar Globo de Ouro tb??
    Bjos!

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