sábado, 19 de dezembro de 2009

Seção CINEMA // Crítica Direito de Amar


Um Homem Chato


A Single Man

Nota: 8,0


Se eu for realmente sincero tenho que admitir que esperava bem mais desse filme. É o primeiro filme do estilista Tom Ford. Ele produziu, escreveu e dirigiu. Conhecendo bem o trabalho dele, principalmente com as suas famosas (e polêmicas) propagandas, só procurar no google pra conferir o estilo dele, e vendo o trailer (que eu achei poético, flui muito bem), já dava para esperar algo bem ousado, só não achava que ia ficar só nisso. A história é uma adaptação de um livro homônimo, da década de 60, creio eu, mesma época que o filme se passa.

No filme, um professor universitário, feito pelo Colin Firth, recebe a notícia que o seu pareceiro, o Matthew Goode, morreu num acidente de carro. E ele fica desolado. E a história fica só nisso... Aperecem mais algumas pessoas no filme (talvez pra não virar um monólogo), pessoas que convivem com ele, intercaladas com os diversos flash backs com o Matthew, como a Julianne Moore, que faz a melhor amiga dele, e tem sido muito elogiada, inclusive bem cotada nas premiações. Mas ela não faz nada no filme. Só tem uma cena importante, mas não é nada como a Viola Davis em Dúvida, por exemplo, algo que surpreende e comove.

Além do trio, ainda tem o Nicholas Hoult, que fez Um Grande Garoto e O Sol de Cada Manhã (que é tenebroso), e era o "vilão" do seriado britânico Skins, que eu adorava mas inventaram de dar uma de Malhação na terceira temporada, mudando todos os personagens e a história, aí eu parei de ver. Ele faz um aluno que joga todo seu charme (e grifes) pra cima do Colin. Tanto que sempre que ele aparece aumentam a saturação da imagem, pra colorir um pouco a vida dele (do Colin).

Ele sempre me lembrou um pouco o James Marsden, mas no filme ele tá tão embonecado, almofadinha, bronzeado e com o cabelo clareado, que eu só lembrava do Zac Efron. Com melhores interpretações, óbvio. Talvez fosse alguma citação a alguem e eu não reconheci. Tem das citações claras, como a Brigite Bardot americana, fumando na sala de aula, ou o James Dean espanhol na cabine telefônica do estacionamento do supermercado. Achei meio clichê. E tem também a Ginnifer Goodwin, que fez Johnny e June e Ele não Está Tão A Fim de Você, mas ela só faz acenar pros vizinhos nas duas (ou três) cenas que ela tem.

Um filme feito por um estilista, não podia pecar no visual. Se o filme não tem muita história pra contar, cenas silenciosas e plasticamente belas é o que não falta. Ele é primoroso nesse aspecto. Merece um Oscar de fotografia. Mas é uma estética bem gay. Nota-se pelo cuidado excessivo com a moda e em cenas como a que o Colin não consegue parar de olhar pra dois homens jogando tênis. A trilha sonora (incindental) também é ótima. Tudo é perfeito, calculado. Os figurinos, os cenários, tudo muito bem cuidado. Mas chega a ser tão perfeito que beira o kitsch, o cafona. Parece uma versão filmada de uma revista Vogue. Uma propaganda de perfume de uma hora e meia. Perfumes de grife, nada de Boticário, Água de Cheiro e afins...

Um lado bom também é que as cenas silenciosas do filme exploram muito as expressões faciais dos personagens. Todos estão ótimos nesse sentido, e no pouco mais que há pra se fazer. O Colin foi indicado ao Globo de Ouro, e é um dos favoritos ao Oscar também, mas acho difícil premiarem dois papéis gays seguidamente. Engraçado que tirando ele, trocaram as nacionalidades de todos (que falam) no filme. A Julianne, que é americana, faz uma inglesa, e o Matthew Goode e o Nicolas Hoult, que são ingleses, interpretam americanos.

E no fim das contas o homem solteiro, é só chato. Chato no sentido de apático. Não dá pra entender o comportamento dele. Ok, até dá, mas não exatamente pra concordar. Tudo bem ele sentir falta do que perdeu, mas parar de viver é que não dá. Além de muito esquisitão. Quem fica observando seus vizinhos pela janela enquanto tá na privada? Tudo é muito surreal. Só tem gente linda e esquálida, tirando o Colin, mas que também tá longe de ser no mínimo acima do peso, e não dá pra acreditar muito na história, faz tudo parecer muito fácil, como se oportunidades batessem na porta todo dia. Achei pouco verossímil. OK, vou ficar por aqui pra não entregar mais nada do filme.



UPDATE: Um detalhe que eu esqueci de comentar. Acho que o pior pecado do filme é a valorização exgerada (talvez imposição) da juventude e riqueza como padrão de beleza. Tanto que o Colin e o Matthew foram parceiros por 16 anos, mas nos flashback da cena que eles se conheceram, eles não mudaram nada. Esse é pra mim o pior lado do mundo da moda, que é algo muito forte nesse filme.


UPDATE 2: O título brasileiro é Direito de Amar. Quem foi o gênio que teve essa idéia de jerico? Parece nome de novela da rádio dos anos 50...


UPDATE 3: A "Brigite Bardot americana" é interpretada pela modelo brasileira Aline Weber. Ela não faz nada no filme além de fazer pose com o cigarro. Não tem nenhuma fala.

8 comentários:

  1. no quesito fetichismo o filme parece ser bom demais. quero ver!

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  2. Colin é gatin sim menino!!!
    Tb to louco pra ver. Esperando cair na net.
    Adoro esse tipo de filmes. Tomara que tenha beijo gay! Brasil precisa de escandalos! Fica mais chic.

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  3. O filme é uma bem impactante visualmente, talvez pela falta de impacto da história. As imagens são mais interessantes do que o roteiro. mas já que o roteiro não fornece grandes acontecimentos, pelo menos dá boas cenas pros atores, como eu disse. Em muitas cenas as interpretações são baseadas apenas em olhares, gestos e expressões, o que diz muito sobre a qualidade de um ator. Robert Pattinson, Keanu Reeves, Daniel Racliffe ou Zac Efron não se sairiam bem num filme como esse.

    Asnalfa, eu não disse que o Colin é feio, só disse que ele é o único diferente do perfil do restante do elenco.

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  4. "Direito de Amar".

    Deu uma dor no ovo agora, ui!

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  5. Falta de impacto da história... te convido a ver Blow Up ou mesmo Exotica, e reescrever teu comentário.

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  6. Concordo com varias coisas que você escreveu, principalmente no quesito fotografia e imagens impactantes, estéticamente perfeitas. Porém acredito que alguns pontos que envolvem o personagem possuem uma simbologia muito além do que um simples olhar sob o filme pode revelar. A casa onde George mora, possui influencias modernistas, com acabamentos e equipamentos high tech, destoando do resto da vizinhança que é composta por casas tipicamente americanas.. isso nao apenas ressalta o fato do homossexualismo ser algo 'novo' como também rejeitado pela sociedade. Como você mencionou, de primeira vista parece ser algo besta, um homem chorar por 8 meses a perda do seu parceiro (em dias atuais isso realmente seria besteira) mas ha 50 anos atras, tudo era bem diferente nao achas? Um homem sem familia, de poucos amigos, recluso em uma casa 'estranha' infeliz com seu emprego, debochado pelos vizinhos e que acabou de perder a unica pessoa que esteve com ele por 16 anos, vivendo e amando intensamente. Pra mim, A single man, vai muito além do que uma simples historia, ele transborda perfeiçao nos cenarios,figurinos, cenas tensas, sexualidade sem vulgaridade, além de ser um filme totalmente imprevisivel.

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  7. Ah e outra, vc comentou que o personagem do Colin Firth, o George observava os vizinhos pela janela do banheiro. Senti que esse comentario ficou superficial, dando a entender que o cara possui alguma doença mental.

    Nessa cena, em que George ta no banheiro, ele se depara com simples situaçoes do cotidiano de seus vizinhos, chegando a se questionar e imaginar se sua vida nao teria sido diferente e menos sofrida, caso ele nao tivesse tido um relacionamento homossexual.
    Sao reflexoes que vao muito além do que se ve na tela.

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  8. Ricardo, eu entendi tudo isso aí que você falou, mas escrever isso numa resenha é meio que spoiler. Eu até concordaria plenamente com tudo o que você escreveu, se ele tivesse ficado completamente sozinho de fato. Mas oferta de substituição do Matthew foi o que não faltou. O que de certa forma é meio inverossímil, naquela época, tanta gente se jogar pra cima dele. E em lugares comuns. Não eram guetos, ambientes marginalizados ou redutos gays. E ainda considerando as situações sem pensar se elas poderiam ser reais ou não, qualquer pessoa normal teria correspondido àquelas investidas.

    E eu não quis dizer que ele tinha alguma doença mental. Ele podia muito bem observar a vida dos vizinhos da janela da sala. Mas uma janela daquele tamanho, no banheiro, e do lado da privada, é esquisito demais. Acho que não conheço uma pessoa que se sentiria confortável pra fazer aquilo. Em qualquer casa ela viveria permanentemente fechada. Mas nunca se sabe...

    E não achei o filme imprevisível. Pelo andar da carruagem, o único desfecho esperado era aquele mesmo. Enfim, acho uma história muito boa, reflexiva, mas que poderia ter se importado um pouco mais com os detalhes do enredo, além dos visuais.

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