terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Seção CINEMA // Crítica Preciosa

Bem Vindo À Casa de Bonecas

Preciosa: Uma História de Esperança // Precious: Based On The Novel Push By Sapphire

Nota: 9,5

Assim que ouvi falar de Precious, na época do festival de Cannes, onde ganhou o prêmio do público, eu me interessei, mas ele foi meio abafado por todo a falação em torno do novo filme do Tarantino, que eu gostei só até uma parte, e pelo filme do Michael Haneke, que ganhou a Palma de Ouro e tem sido indicado nas categorias de filme estrangeiro das premiações. Mas ele estreou de fato em Sundance, antes de Cannes, onde ganhou o prêmio do júri, do público e um prêmio especial de melhor atriz para Mo’Nique, e até recebeu ajuda da Oprah e o Tyler Perry pra alcançar os cinemas. O filme é uma adaptação do livro Push, best-seller nos anos 90, e dirigido pelo Lee Daniels, que produziu A Última Ceia, que deu o Oscar a Halle Berry.

Sapphire, que no filme virou Miss Blu Rain, a autora do livro, é uma professora que trabalhava alfabetizando estudantes defasadas no Harlem, e escreveu o livro baseada nas experiências que ela viveu durante o período. A história é sobre Clareece Precious Jones, feita pela Gabourey Sidibe, na sua estréia no cinema, uma jovem de 17 anos abusada sexualmente pelo pai desde a infância, de quem já tem uma filha e engravida do segundo. A mãe dela, interpretada pela apresentadora e comediante Mo’Nique, tem ciúme da preferência do namorado (pai da Precious) e odeia a filha, a quem ela tortura física e psicologicamente.

Só por essa breve descrição já dá pra ver a barra que é o filme. O elenco ainda conta com dois cantores famosos: Mariah Carey, que foi massacrada na sua estréia no cinema, com o filme Glitter, que apesar de eu adorar a Mariah, tenho eu admitir que o filme é muito ruim mesmo. Mas ela deu a volta por cima nos seus filmes posteriores. Aqui ela está muito bem, e visualmente envelhecida e sem maiores vaidades. Talvez fosse sua aparência se não fosse famosa. Ela interpreta uma assistente social que lida com o caso da Precious. O roqueiro Lenny Kravitz faz um enfermeiro que se afeiçoa pela protagonista.

Como já disse, o filme ganhou o prêmio de público em Cannes, e na sessão que eu estava, todo mundo soluçava. Quem Quer Ser Um Milionário ganhou o Oscar de melhor filme esse ano, mas Precious é um filme que mostra pessoas da mesma camada social e seus problemas, sem apelar pro fantástico, o fantasioso, e mostra que contos de fadas só existem nos sonhos mesmo. A realidade é sempre outra. Um é uma bela fábula, o outro é um belo filme, daqueles que nos fazem querer dedicar duas horas da nossa semana entregando sopa no albergue municipal ou dando aula de geografia na periferia, ao invés de torcer pra que algum favelado ganhe na loteria ou um prêmio do Silvio Santos.

O elenco inteiro, apesar de não ser extenso, é soberbo, principalmente as duas protagonistas, que poderiam levar o Oscar facilmente. E merecidamente. Acho mais fácil a Mo’Nique levar (o que eu torço até o momento), porque a Gabourey tem concorrência grande. Meryl Streep por Julie & Julia, que ganhou seu último Oscar há 27 anos, já merece outro faz tempo, e coleciona 15 indicações até esse ano, e a Sandra Bullock, que finalmente, depois de tanto tempo, mostrou a que veio. Mas só de imaginar a Gabourey ganhando, acho que nem a Meryl ia se importar de esperar mais um ano ou dois.

Acima de tudo, Precious é um filme sobre a vida, sobre a maioria das pessoas que habitam esse planeta, que celebra a riqueza de 5% da humanidade. Enquanto o cinema brasileiro estagnou numa visão extremamente unilateral e cheia de mea-culpa da pobreza e violência, apontando sempre para os lados errados, Hollywood investe na vida dos ricos e poderosos, e nas ficções científicas infantilóides metidas à filosofia. Mas do nada sempre surge um filme pequeno e independente, que mostra o que as taças de Veuve Clicquot nas telas do cinema embaçam da nossa vista.


P.S.: O título brasileiro, como quase sempre, é péssimo.

2 comentários:

  1. To louco pra ver esse filme, menino!!!
    Aqui no Brasil, os filmes do Oscar so chegam depois que acontece a festa.

    ResponderExcluir
  2. Ah proposito, o Rubens Ewald Filho teve uma opiniao bem parecida com a sua. Ele tb adorou!

    http://blogs.r7.com/rubens-ewald-filho/2009/12/30/precious-filmes-que-podem-ganhar-premio/

    ResponderExcluir