terça-feira, janeiro 13, 2015

Globo de Ouro 2015

E mais um Globo de Ouro foi celebrado esse fim de semana, com o seu já típico e peculiar clima de festa da firma. Amy Poehler e Tina Fey apresentaram o evento pela terceira e última vez seguida, com seu estilo  irônico, cínico, porém politicamente correto e feminista. Comediantes inteligentes.


Fases da noite

Hoje celebramos os programas de TV que conhecemos e amamos e os filmes que a Coréia do Norte aprovou.
Tina Fey, citando o caso das ameaças norte-coreanas.

A Coréia do Norte ameaçou um ataque caso a Sony lançasse A Entrevista, forçando nós todos a fingir que queríamos vê-lo.
Amy Poehler, no número inicial do evento.

Uma das famosas pinturas de Big Eyes está em mostra aqui hoje. Vamos conferi-la!
Tina Fey e Amy Poehler, fazendo piada 
com a Emma Stone e o novo filme do Tim Burton.

Boyhood prova que ainda há bons papéis para mulheres
acima dos quarenta, desde que você seja contratada antes dos quarenta.
Amy Poehler, comentando o papel de Patricia Arquette no filme.

O visual do Steve Carrell em Foxcatcher demorava duas horas para ser feito, incluindo cabelo e maquiagem. Em comparação, eu demorei 3 horas hoje para me preparar para estar aqui no papel de mulher humana.
Tina Fey, no número inicial do evento.

Como de costume, Wes chegou aqui numa bicicleta feita de partes de trombone retrô.
Amy Poehler, comentando a famosa 
excentricidade do diretor de O Grande Hotel Budapeste.

Amal é uma advogada de direitos humanos, que
trabalhou no caso Enron, consultora do Kofi Annan
em relação à Síria, e foi selecionada para
uma comissão de 3 pessoas das Nações Unidas
que investiga crimes de guerra na faixa de Gaza.
E hoje à noite, é o seu marido quem está recebendo um
prêmio em reconhecimento pela carreira.
Tina Fey, comparando as realizações 
profissionais de George Clooney e sua nova esposa.

Iñarritu! Só um take, 2 horas seguidas, sem parar!

Linkletter! 5 minutos, uma vez por ano!
Amy Poehler e Tina Fey, brincando de quem elas 
prefeririam (pegar),  comparando e  fazendo insinuações 
com as características dos filmes dos dois diretores.

O filme Selma é sobre o movimento de direitos civis nos anos 60, que funcionou perfeitamente, e hoje está tudo bem.
Tina Fey, ironizando o racismo.

Eu não gostei de Gone Girl (Garota Exemplar). Eu vou pro cinema pra uma fuga, e não pra me ver na tela.
Amy Poehler, comentando o novo filme 
de David Fincher, sobre uma mulher psicótica.

Em Into The Woods, Meryl faz uma bruxa que manda camponeses numa busca mágica para coletar os itens que ela precisa para ganhar mais um globo de ouro.
Amy Poehler, brincando com o recorde 
de indicações e premiações da Meryl Streep.

Eu acho que só tenho 45 segundos. Calem-se!
J.K. Simmons, ao receber seu prêmio de ator coadjuvante.

Esse é o momento que o telespectador em casa 
vira pra pessoa lado e pergunta: quem é esse?
Theo Kingma, presidente da HFPA em seu discurso institucional.

Meryl, obrigada por me dar um abraço.
Espero que seu DNA tenha se transferido para mim.
Patricia Arquette, ao receber o prêmio de atriz coadjuvante.

Quando você chega aqui, você é cumprimentado por todos. Mas algumas horas depois 80% de nós perde. Somos perdedores, e ninguém mais nos olha nos olhos nas festas posteriores, e somos consolados no dia seguinte por colegas de trabalho.
George Clooney, no seu discurso de agradecimento do prêmio pela carreira, 
delineando a lógica do pensamento pequeno-burguês americano, 
onde só os “vencedores” são relevantes.

Droga... Duas coisas que eu disse que não iria fazer: chorar e fazer aspas com as dedos.
Michael Keaton, emocionado ao falar do filho 
após receber o prêmio de melhor ator em comédia.


Melhores momentos

1. Matt Bomer, ganhando o prêmio de coadjuvante por The Normal Heart, foi provavelmente a primeira vez que um ator (e galã) gay menciona explicita e publicamente seu esposo e filhos em um agradecimento de premiação. Uma realidade ainda longe de se concretizar aqui no Brasil, infelizmente.

2. O seriado da Amazon, Transparent, ganhando o prêmio de melhor comédia. Raridade um tema como transexualidade ser retratado com seriedade, sem chacota, deboche ou humilhações.

3. Artistas veteranos e importantes como Richard Linklater e Julianne Moore, eternos “perdedores” e esquecidos, vencendo. Mas confesso que estava torcendo pela Jennifer Aniston na categoria drama (e pela Julianne na de comédia).


Piores momentos

1. A piada sobre a Coréia do Norte foi engraçada só na primeira vez, mas a repetição contínua (e depois com a participação de Margaret Cho) ficou muito “disco arranhado”. Passar a noite inteira voltando ao tema pareceu pouco criativo, além de desrespeitoso.

2. O discurso verborrágico do Kevin Spacey. Parece que foi escrito pela finada Leila Lopes, tamanha a megalomania, pieguice e egocentrismo, além das doses equivalentes de androcentrismo, típicas dele. Gente que se leva a sério demais me dá preguiça...

3. Birdman perder Melhor Filme Comédia/Musical. Não que O Grande Hotel Budapeste seja ruim, muito pelo contrário, mas não só Birdman é superior, como Wes Anderson tem filmes bem melhores na sua filmografia (o meu favorito é O Fantástico Senhor Raposo). Mas vale lembrar que Iñarritú ganhou (injustamente) por Babel, anos antes. Então dessa vez não quiseram repetir o prêmio.


O que mais teve:

•    Jennifer Lopez, que continua sua metamorfose para drag queen. Ou Viúva Porcina. O que acontecer primeiro;

•    Jessica Lange, que fica cada dia mais com cara de madrasta da Branca de Neve;   

•    Jane Foda, com 150 anos e o corpo que toda menina de 20 vive de dieta pra ter;

•    Kevin Hart, na sua primeira aparição no prêmio, e já se mostrando um xarope. E Salma Hayek, podre de rica, mulher de magnata bilionário da moda, cagando o visú com fulô no cabelo;

•    Boyhood, que parece ser o filme do ano, mesmo. A ousadia de se tomar 12 anos contando uma história parece encantar ainda público e crítica;

•    A Kevin Spacey, com Kate Mara a tiracolo, achando que engana alguém;

•    Ruth Wilson, que é a cara da Rainha de Copas. Ela ganhou o prêmio de atriz dramática em TV por The Affair, e falou que ficou decepcionada por não vencer na primeira vez que foi indicada, anos antes. Além das feições acolhedoras, ela deve ser uma flor de pessoa;

•    Catherine Zeta-Jones, provando que o divórcio faz bem às estrelas de Hollywood;

•    George Clooney ganhando prêmio da carreira, que acho que deram com uns 15 anos de antecipação;

•    Katherine Heigl, ressurgindo das cinzas;

•    Reese Witherspoon, que estava sem inspiração e se fantasiou como ela mesma em Legalmente Loira;

•    Prince, que deve ter chegado no evento em uma kombi hippie;

 
•    Kate Hudson, seminua e com nariz mal-recortado;

•    Os irmãos Gyllenhaal. Não, não tenho piadinha dessa vez;

•    Jared Leto, reaproveitando a fantasia de garçom que ele usou no Oscar passado;

•    Jennifer Aniston, recebendo sua primeira indicação à prêmios por trabalho em cinema;

•    Propaganda (até no vestido) de 50 Tons de Cinza;

•   Adam Levine, deslocado, apresentando prêmio com Paul Rudd;

•    Jessica Chastain, a mais linda da noite;

•    Keira Knightley, que precisou de 30 pessoas para fazer essa fantasia de oferenda devolvida;

•    A camaradagem de Michael Keaton e seu filho Sean Douglas.

Para ver todos os vencedores, clique aqui.

sábado, junho 21, 2014

Crítica de The Normal Heart

Faça a Coisa Certa

The Normal Heart

Nota: 9,5

O novo filme da HBO se chama The Normal Heart, e já está passando na progra- mação do canal periodica- mente desde o começo do mês. Ele é originalmente uma peça autobiográfica (com per- sonagens de nomes fictícios) que Larry Kramer raivosa- mente escreveu em 1984, quando a epidemia de AIDS ainda nem tinha nome, as vítimas eram todos homens gays, que morriam sem a mínima assistência governamental. Ou seja, para quem gosta de chorar com filme, o drama é prato cheio. A peça estreou em 1985, em Nova York, e os seus direitos de adaptação acabaram caindo nas mãos de Barbra Streisand, que (egocêntrica como ela só, vide O Príncipe das Marés e O Espelho Tem Duas Faces) queria de qualquer jeito que a história se focasse na médica que atendia os doentes (ela interpretaria), mas Kramer bateu o pé e se recusou. A peça só voltou à tona quando ela finalmente estreou na Broadway, em 2011, e retornou pras rodas de discussão.

Ryan Murphy, o criador de filmes como Correndo com Tesouras (que eu amo) e Comer, Rezar, Amar (que eu nunca tive o interesse de ver) e do seriado Glee (no me gusta para nada... sorry) foi o responsável pela direção, com Brad Pitt (entre outros) na produção. Devido ao histórico pouco favorável, o nome de Ryan me deixou um pouco com pé atrás, mas dei uma chance, pelo material original ser bom. E não me arrependi.

Na história, Ned Weeks é um escritor que começa a ver todos os seus amigos morrerem aos poucos devido a uma misteriosa epidemia que assola a comunidade gay de Nova York no início dos anos 80. Ele coleta dados sobre a epidemia com a médica Emma Brookner, e junto com amigos resolve criar uma organização para pressionar autoridades a reconhecer a situação e tomar atitudes. O problema é que a urgência e o estresse da circunstância os levam a ter diferentes opiniões em como lidar com a situação, criando constantes atritos.

Talvez o principal atrativo para o público seja o elenco escalado. É uma verdadeira constelação. Eu achei um pouco irreal, faltou gente mais "normal". Quem acompanha séries badaladas do momento e filmes populares com certeza reconhecerá boa parte deles. Ned Weeks é interpretado pelo galã Mark Ruffalo. Julia Roberts é a médica Emma Brookner (Barbra já deve ter colocado o nome dela na boca do sapo). Além deles o elenco ainda conta com Matt Bomer, de Magic Mike e do seriado White Collar, Jim Parsons, o Sheldon de The Big Bang Theory, Taylor Kitsch, da série Friday Night Lights e Jonathan Groff, protagonista de Looking. Joe Mantello, que fez o Ned Weeks na adaptação recente para a Broadway, aqui assume o papel de Mickey.

Deles todos, Matt Bomer rouba a cena. Apesar de já ter uma carreira expressiva por alguns anos, os papéis que ele sempre fazia eram de homem mais bonito da face da terra. Ainda lhe faltava um papel de peso, que atestasse de fato a sua competência. Julia Roberts também se destaca como a médica deficiente física. Os dois serão provavel- mente os coadjuvantes laureados nas premiações que estão por vir.

A trilha sonora é sempre algo que me chama atenção em filmes. Desde que li a peça e a assisti nos EUA, a canção Praying For Time do George Michael me vinha à cabeça, e eu acabei associando as duas. Infelizmente, Ryan Murphy não teve a mesma idéia e Praying não está na trilha, mas tem outras coisas muito boas da época. Tem Simon & Garfunkel, Roxy Music, Culture Club, Rolling Stones, Sylvester e até Johnny Mathis.

A relevância histórica e política da obra são maiores do que ela, na verdade. Ainda hoje a comunidade gay luta por direitos. É sempre um bom alerta para as pessoas que alegam que gays devem se misturar às outras pessoas e viverem normalmente vejam que a luta da classe não é questão de gays se “guetificarem”, mas de perceberem que ainda são uma minoria, e como todas elas (negros, mulheres, algumas religiões, índios, etc.), não são tratados igualmente pela sociedade e pelas legislações. Precisam se organizar entre si e exigir essa igualdade das autoridades. Naquela época a pauta era a AIDS, mas hoje existem outras tão relevantes quanto.

Eu vi a peça no teatro, e a platéia era composta por pessoas de meia idade, que sobreviveram essa época e viram muitos amigos padecerem. A ausência de jovens era notória. E isso me entristeceu. A geração atual não conviveu com o pânico da epidemia e, ou ignoram, ou não atentam para o que a doença representa, correndo riscos desnecessários. Não se preservam, se esquecendo que a AIDS, apesar de ser controlável hoje em dia, ainda não tem cura.

sexta-feira, maio 23, 2014

Crítica de Praia do Futuro

Horizonte Perdido

Praia do Futuro

Nota: 8,5


O cinema nacional não é dos meus favoritos, infe- lizmente. Acho que talen- to no Brasil existe de sobra (eu incluso, rs). Faltam incentivos e in- vestimentos para que se construa uma indústria de fato. A gente logo reco- nhece um filme nacional pelos milhares de anún- cios de patrocinadores bem no início, quase to- dos órgãos públicos que distribuem incentivos à cultura. Não há planejamento para se construir produtora e estúdios de fato como no exterior, além da Globo Filmes. E essa falta de investimentos é notável, no nível de capacitação profissional, especialmente na área de roteiros. Nem as novelas, que outrora eram referência mundial, conseguem mais atingir o alto nível de antes. Basta só dar uma olhada no canal Viva e ver Dancin’ Days, de 1978. Ela dá um banho em todas as demais produções atuais, e boa parte daquele elenco ainda atua hoje em dia, mas infelizmente não tem um material à altura para trabalhar. E acho que o roteiro é o tendão de Aquiles dessa nova aventura do diretor Karim Aïnouz também.

Praia do Futuro, nome de uma idílica praia cearense, conta a história de Donato, um salva-vidas de origem humilde, muito ligado ao irmão mais novo e a mãe (muito mencionada, mas que nunca aparece), que numa missão consegue resgatar uma vítima de afogamento, mas perde outra. Isso o afeta profundamente, mas também cria uma cumplicidade entre ele e a vítima sobrevivente, o turista alemão Konrad, e eles acabam se envolvendo afetivamente. O que o leva a largar tudo para o alto e ir para Alemanha sem dar mais notícias.

O roteiro aposta em poucos diálogos. Muitos silêncios, olhares e gestos, que são marca registrada de cineastas orientais, e alguns europeus, mas não dos nossos. Brokeback Mountain, dirigido pelo taiwanês Ang Lee, e Felizes Juntos, do chinês Wong Kar-Wai, são magistrais nesse aspecto. E o filme se assemelha muito a Brokeback. A cena da discussão entre Donato e Konrad, inclusive, parece até cópia dos desentendimentos entre Jack Twist e Ennis Del Mar, mas bem aquém do ‘rival’. O que livrou Praia da comparação completa foi o ressurgimento do irmão da metade do filme em diante, que muda o rumo da história.

A fragmentação em capítulos enfraquece o filme como unidade. É como se estivéssemos vendo curtas-metragens, ou episódios de uma minissérie. Por ser um filme de menos de uma 2 horas, essas divisões me pareceram desnecessárias. Sem elas a história seria mais coesa, e o público facilmente entenderia os saltos de tempo e mudanças de ambientes também.

A familiaridade com as línguas foi algo que me incomodou também. Posso estar enganado, mas o ator alemão não parecia saber português. Ele parecia ter decorado suas falas, e pronunciava algumas delas de forma incompreensível. O mesmo talvez possa ser dito a respeito de Moura, mas ele teve bem menos diálogos em alemão. De um ponto em diante do filme, parece que resolveram abandonar essa tática de verossimilhança e deixar os atores falar nas línguas que se sentiam mais confortáveis, mesmo criando diálogos bi, e até, trilíngues. 

A fotografia é bela, especialmente nas cenas na Alemanha, e nas tomadas com as motos. Já a fotografia do Ceará me pareceu menos cuidada. Ficou a sensação de que o Ceará era menos belo do que deveria ser, apesar de esse contraste servir à jornada de Donato, sua mudança. Pode ser um elemento criativo válido, um contraponto importante, de como um lugar tão belo pode se tornar feio, e a Alemanha a sua Shangri-La.

Como designer gráfico, posso opinar que não entendi a escolha da paleta de cores e fonte usadas no título e créditos tinham a ver com o filme. Remetiam-me aos anos 80, pôster de shows de Spandau Ballet, Duran Duran ou Wham!, abertura de novelas da Globo e capa de disco da Xuxa.

Essa semana, qualquer pessoa interessada em cinema ficou sabendo da recepção hostil do público à estréia do filme. Na sessão em que estive, em São Paulo, pessoas saíram do cinema resmungando durante as cenas de sexo, reação semelhante das relatadas em Niterói. Em Aracaju, pagantes quase agrediram o gerente e pediam reembolso. Em João Pessoa cinemas carimbavam “avisado” nos ingressos após informarem o conteúdo do filme. E num episódio à parte, mas que não poderia ter acontecido numa melhor hora, um aluno da PM foi impedido de jurar, por ter feito uma dança no vestiário. 

E é desse ambiente que Donato foge. Que ainda é intolerante às diferenças e é extremamente heteronormativo, onde tudo é preto e branco e os milhares de tons de cinza entre esses moldes são estigmatizados e discriminados. E olhe que o Brasil é dos poucos países no mundo onde o casamento entre o mesmo sexo é legal. Imagine os maus bocados que homossexuais no mundo afora passam.

O filme, a priori, não me fez morrer de amores. Mas depois das reações Brasil afora, ele ganha um novo elemento emocional que o valida, e com certeza tocará a quem o assistir sem preconceitos daqui em diante. É quando percebemos que o filme veio na hora certa. Logo após Félix “comover” o país, e praticamente brindarem o fim da intolerância, Praia mostrou que não é bem assim. Felix, além de mal escrito, é, infelizmente, uma caricatura das mais antigas da história da dramaturgia. The Celluloid Closet já falou disso bem antes, há uns 20 anos atrás.

Praia vai bem ao cerne do problema dos “diferentes”: para ser si mesmo, é preciso fugir. A outra alternativa  é usar máscaras, viver nas sombras, cultivando segredos e mentiras, sempre à míngua, pois a sociedade não se assume como preconceituosa, mas não tolera a diversidade. E põe por terra o pobre argumento de muitos para maquiar o seu preconceito, “tudo bem ser gay, mas precisa desmunhecar?”. Donato e Konrad estão longe de “desmunhecar”, mas nem assim escaparam do linchamento moral.