segunda-feira, 5 de março de 2018

Oscar 2018


Mais um ano, mais um Oscar. Assim como no ano passado, apresentado pelo comediante e apresentador de talk show Jimmy Kimmel. Esse ano, como não poderia deixar de ser, o foco deixou de ser criticar o presidente americano em exercício e ficou todo na questão do assédio sexual, e das mulheres reclamarem seu espaço de direito na indústria, inclusive pagamentos iguais. Além disso, teve muito discurso sobre inclusão, imigração e a favor da diversidade cultura.

Só que a diversidade ficou muito mais no discurso e na escolha de apresentadores do que nos prêmios, como sempre. E nisso vale ressaltar: enquanto diretoras e diretores negros, como Lee Daniels, Jordan Peele, Dee Rees e Ava DuVernay, investem e se engajam ativamente em projetos que contam histórias de negros. E esse ano tivemos o terceiro mexicano em 5 anos a vencer um Oscar de melhor diretor. Em nenhum dos três filmes que os premiaram havia sequer um único personagem latino. Apenas em A Forma da Água tinha alguns secundários negros.

Isso reflete duas coisas: a primeira é que diretores “étnicos” são mais que bem vindos para receber prêmios (em geral) por contar histórias sobre brancos, enquanto os que contam histórias sobre outras etnias ficam esquecidos. E a segunda é que os diretores latinos não se empenham quase nada em representar suas culturas nativas, e isso inclui os brasileiros que trabalham no exterior também.

O maior vencedor da noite foi a fantasia A Forma da Água de Guillermo del Toro ficou com 4 prêmios, dos treze a que foi indicada, incluindo melhor diretor e melhor filme, seguido pelo drama de guerra Dunkirk, do diretor Christopher Nolan, que ganhou 3 prêmios técnicos.

Veja o que mais rolou no evento.


Frases da Noite


Ao Vivo do Teatro Dolby, a um pulinho do 'Hooters'.
Anúncio inicial do evento, citando o local da premiação e o restaurante famoso pelas garçonetes seminuas de patins.

Quando ouvir seu nome, não levante de imediato.
Jimmy Kimmel, fazendo alusão ao anúncio errado de La La Land, ano passado


Oscar tem 90 anos. Ele deve estar em casa a essa hora vendo Fox News.
Jimmy Kimmel, associando a idade do prêmio com o público alvo do canal de TV de direita americano.


‘Nosso foco vai ser entregar o envelope certo.’E qual era o foco nos anos anteriores?
Jimmy Kimmel, comentando a declaração da empresa de auditoria, depois do erro do ano passado.


Tonya Harding teve que quebrar o joelho de quem pra ter esse casting? Se fizessem um filme sobre mim, eu seria no máximo interpretado por Jim Belushi.
Jimmy Kimmel, sobre a escalação da bela Margot Robbie para interpretar a patinadora Tonya Harding, que era considerada "white trash" (algo tipo bagaceira) no meio da patinação. 


Não fazemos filmes como Me Chame Pelo Seu Nome por dinheiro. Fazemos para irritar o Mike Pence.
Jimmy Kimmel, citando o romance gay e o reacionário vice-presidente americano, da direita cristã. 



Não podemos mais deixar mau comportamento passar. O mundo está nos vendo. Precisamos dar exemplo. Se formos bem sucedidos e conseguirmos acabar com assédio sexual em ambiente de trabalho, mulheres precisarão lidar com assédio apenas o tempo inteiro e em qualquer outro lugar que vão.
Jimmy Kimmel, falando sobre a situação de assédio generalizada enfrentada por mulheres. 


Eu lembro de um tempo quando os principais estúdios não acreditavam uma mulher ou uma minoria poderia estrelar um filme de super-herói. A razão de eu lembrar isso é porque foi em março do ano passado.
Jimmy Kimmel, citando os recordes de bilheteria de Mulher Maravilha e Pantera Negra

Graças a Guillermo, sempre lembraremos desse ano como o ano que os homens pisaram tanto na bola que as mulheres começaram a namorar peixes.
Jimmy Kimmel, falando de A Forma da Água



E a primeira piada feita foi ‘Christopher Plummer é o mais jovem indicado de hoje’
Jimmy Kimmel, lendo uma “suposta” primeira piada contada na primeira cerimônia do Oscar, há 90 anos atrás, com o fato de Plummer ser o indicado à prêmio de atuação mais velho da história do evento.

Eu sou do Paquistão e de Iowa, dois lugares que ninguém em Hollywood sabe encontrar no mapa.
Kumail Nanjiani, antes de apresentar um dos prêmios com Lupita Nyong'o.


Mark Whalberg foi pago 1,5 milhão de dólares para refilmar suas cenas, já Michelle Williams foi paga 80 dólares por dia. Pela mesma coisa. E eles são representados pela mesma agência. Se não pudermos confiar em agentes, em quem confiaremos?
Jimmy Kimmel, exemplificando a desigualdade de pagamento na indústria. 


Presidente Trump chamou Corra! de melhores primeiros três quartos de um filme desse ano.
Jimmy Kimmel, falando sobre o suspense anti-racismo de Jordan Peele. 


Eu fiz tudo sozinha.
Allison Janney, recebendo seu prêmio de atriz coadjuvante.


- Eu estou usando esses sapatos desde 11 da manhã. E você?
- E eu desde o Critics’ Choice Awards.”
Tiffany Haddish e Maya Rudolph, reclamando do salto alto.


Alguns dos meus filmes favoritos são de caras héteros brancos, sobre caras héteros brancos. Agora caras héteros brancos podem ver filmes estrelados por mim e se identificarem com eles. Não é tão difícil. Eu fiz isso a vida toda.
Kumail Nanjiani, no clipe sobre representavidade.


Quando Thelma e Louise foi lançado a previsão era de que tudo ia mudar, muitos mais filmes estrelados por mulheres ia aparecer. Isso não aconteceu. Mas agora esse é o momento.
Geena Davis, no clipe sobre representavidade.


Aos que dizem que somos uma elite hollywoodiana fora de realidade, saibam que cada um dos 45 milhões de cristais Swarowski aqui no palco representa humildade.
Jimmy Kimmel.


Vocês poderiam diminuir a luz um pouco para que eu possa voltar pros meus 40 anos?
Sandra Bullock, antes de apresentar o prêmio de fotografia.


O que acham desses cenários? Eles parecem os meus orgasmos em Barbarella.
Jane Fonda, falando do palco grandioso antes de apresentar o Oscar de melhor ator com Helen Mirren.


Streep. Ela deu uma de Tonya pra cima de mim.
Jodie Foster, explicando as muletas.

Olhem ao redor, pois todas nós temos histórias pra contar e projetos que precisam de financiamento. Não fale conosco sobre isso hoje nas festas, nos convide para seus escritórios daqui uns dois dias, ou vocês podem vir nos nossos, como for melhor pra vocês, e contaremos tudo sobre eles.
Frances McDormand, no seu discurso de melhor atriz.




Melhores Momentos


1. O discurso de Frances McDormand, que pediu para todas as mulheres indicadas se levantarem;


2.  Tiffany Haddish e Maya Rudolph. Se queriam piada, podiam colocar as duas pra apresentar o evento inteiro;


3. O prêmio de melhor filme estrangeiro para o chileno “Uma Mulher Fantástica”, estrelado pela transexual Daniela Vega.



Piores Momentos

1. O clipe de filmes de guerra em homenagem a exército, soldados, et al. Nada contra as pessoas dos soldados, porque eles nada mais são que vítimas do sistema, a maioria vindos de famílias de baixa renda, mas esse tipo de homenagem sempre se lê como uma valorização de militarismo, que (quase) sempre são a manipulação de vidas do cidadão comum em detrimento de interesses mercantilistas ou religiosos de Estados e corporações. Na história a gente via que antigamente exércitos existiam para defender o território de invasores, ou para anexar territórios. No caso dos EUA hoje em dia, só a última opção prevalece.

2. A produção das canções indicadas. Nenhuma vendeu os filmes, ou fizeram jus as canções, que são todas boas, coisa que é raridade hoje em dia. A canção de O Rei do Show, 'This is Me', que era toda sobre diversidade, ficou uma coisa monocromática. Já a canção de ninar mexicana de Viva – A Vida é Uma Festa, 'Remember Me', teve Gael Garcia Bernal cantando bem meia boca a versão bonita, e logo depois veio a versão ‘Yes, Tenemos Guacamole’ pra gringo ver, cheia de sombreros e bailados. E a canção de Me Chame Pelo Seu Nome, 'Mystery of Love', que era a mais bonita e menos clichê de todas, teve a produção mais pobre. Parecia até que fizeram com má vontade.

3. Os prêmios sem surpresa e sem zebras. Tudo muito previsível, para um ano tão disputado.



O que mais teve?



- teve requinte
(Jennifer Lawrence)


- teve roupa feia
(Gina Rodríguez e Tom Holland)


- teve roupa reluzente
(Eiza González e Ansel Egort de Baby Driver)


- teve blazer do Falcão, sem o girassol.
(o cantor Surfjan Stevens, autor e intérprete de Mystery of Love)


- teve Nicole pra presente


- teve monstro do pântano
(Salma Hayek e a criatura de A Forma da Água)


- teve Donna Summer no Studio 54
(Viola Davis)


- teve formol
(Jennifer Garner)


- teve sororidade
(Greta Gerwig e Laura Dern)


- teve ativismo
(Ashley Judd, Annabella Sciorra e Salma Hayek que fizeram denúncias de assédio)


- teve nerdices 
(elenco de Star Wars)


- teve Hollywood anos dourados  
(Eva Marie Saint, de Sindicato de Ladrões)


- teve diva com o mesmo vestido de quase 60 anos atrás
(Rita Moreno, de West Side Story)



- teve Bonnie & Clyde de novo, para reparar o basfond do ano passado
(Faye Dunaway e Warren Beatty)


- e teve jet ski de prêmio para o discurso mais curto, apresentado por Helen Mirren...



- vencido pelo figurinista de A Trama Fantasma.



Veja todos os resultados aqui.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Lady Bird – A Hora de Voar

Lady Bird – A Hora de Voar

Lady Bird

Dir.: Greta Gerwig


 
Greta Gerwig faz sua estreia na direção com Lady Bird, e já se torna uma das diretoras mulheres mais influentes no cinema da atualidade. Ela primeiro despontou como musa “indie” por estrelar vários filmes independentes de baixo orçamento, sendo Frances Ha o mais famoso deles, e também por seu trabalho como escritora e roteirista, com um trabalho sempre muito autoral. Lady Bird segue a mesma linha, um filme semi-autobiográfico, onde Gerwig se baseou em suas próprias experiências crescendo em Sacramento, capital da Califórnia, para criar a história de uma adolescente precoce e insegura, porém muito assertiva. Christine é uma adolescente que se auto-batiza Lady Bird, e vive às turras com sua mãe, por terem personalidades muitos parecidas, e preenche sua vida com a busca por uma faculdade o mais longe possível de casa, seus interesses românticos e novas amizades.


Lady Bird é uma história de autoconhecimento e amadurecimento, acima de tudo. Apesar de sua aparente autoconfiança, Lady Bird é uma adolescente insegura e está tentando se encontrar, muda de interesse muito rápido e com isso passa a experimentar novas coisas, novas amizades, renegar suas origens, desejar ser quem não é, reavaliar seus conceitos várias vezes, quebrar a cara, e aprender com suas inúmeras escolhas erradas. 


O papel título, alter-ego da diretora Gerwig, ficou a cargo da irlandesa Saoirse Ronan, que teve seu primeiro papel de destaque as 13 anos em Desejo e Reparação, que lhe garantiu uma indicação ao Oscar de coadjuvante em 2008. Como adulta conseguiu nova indicação pro Brooklyn há poucos anos atrás, e agora tem seu maior destaque da carreira, e chegando a sua terceira indicação ao Oscar.


Outros destaques no elenco são Laurie Metcalf, experiente atriz de TV e do teatro e vencedora do Tony, faz a mãe que vive eternamente preocupada com o orçamento apertado da família e com quem a protagonista nutre uma relação conflituosa, apesar de todo o afeto evidente que ambas nutrem uma pela outra. O ator e dramaturgo Tracy Letts faz o pai dedicado e depressivo. Os jovens atores Lucas Hedges e Thimothée Chalamet, de Manchester à Beira Mar e Me Chame Pelo Seu Nome, respectivamente, fazem dois dos interesses românticos de Lady Bird.


O filme estreou no festival de Telluride, na segunda metade 2017, e tem conquistado tanto público quanto a crítica. Levou o prêmio de melhor comédia do ano no Globo de Ouro, e o prêmio de melhor atriz em comédia para Ronan. No Oscar 2018, conseguiu a indicações de melhor filme, melhor direção para Gerwig (apenas a quinta mulher na história a receber indicação na categoria), atriz (Ronan), atriz coajuvante (Metcalf) e roteiro original (também para Gerwig).

domingo, 21 de janeiro de 2018

Três Anúncios Para Um Crime

 
Três Anúncios Para Um Crime

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri

Dir.: Martin McDonagh


Terceiro longa metragem do diretor e dramaturgo anglo-irlandês Martin McDonagh, depois dos longas In Bruges (Na Mira do Chefe) e Seven Psycopaths (Sete Psicopatas e um Shih Tzu), Três Anúncios Para Um Crime é mais uma drama policial repleto do seu característico humor negro, muito similar ao trabalho dos Irmãos Coen, o que deve ter sido um dos atrativos do projeto para a ótima Frances McDormand (vencedora do Oscar de melhor atriz há 21 anos atrás por Fargo), que é casada com Joel Coen, e quase sempre faz parte dos projetos deles. Além de McDormand, o elenco conta com os veteranos Woody Harrelson (da série Detective e vários filmes, como Jogos Vorazes), Sam Rockwell (de filmes como À Espera de Um Milagre e A Condenação), John Hawkes (indicado ao Oscar por The Sessions) e o anão Peter Dinklage, mais conhecido pelo seriado Game of Thrones, e o jovem Lucas Hedges, que ano passado foi indicado ao Oscar por Manchester À Beira Mar (que eu acho muito superestimado).


No Globo de Ouro 2018, marcado pelas mulheres todas vestidas de preto em protesto contra o assédio, maus tratos e pagamentos inferiores na indústria, o tema sobre o descaso da polícia com estupro e feminicídio caiu como uma luva na ocasião, e acabou se sagrando o maior vencedor da premiação, levando os prêmios de melhor filme drama, atriz dramática (McDormand), ator coadjuvante (Rockwell) e roteiro, para o diretor McDonagh.


O filme trata de Mildred Hayes, uma mãe inconformada com os meses de falta de empenho da polícia em dar respostas sobre o estupro e assassinato da sua filha, e aluga três outdoors na entrada da pequena cidade de Ebbing, no Missouri, cobrando uma posição do xerife Willoughby, o que acaba por atrair a atenção da imprensa, dividindo a opinião pública geral e enfurecendo o departamento de polícia e as autoridades.


Certamente este é melhor trabalho de McDonagh no cinema. Os outros foram bastante bem recebidos pela crítica, mas não foram grande sucesso de público. Na Mira do Chefe ficou mais restritos ao circuito de filmes cult, enquanto Sete Psicopatas chegou a ter mais divulgação comercial. Três Anúncios consegue manter as qualidades artísticas dos anteriores e também trazer mais apelo comercial e o chamado “Oscar buzz” (aquela sensação de filme com cara de Oscar), saindo do nicho de arte.
 

O filme também é notório por abordar questões sociais muito atuais e importantes, aliando bem seriedade e humor, assim como Eu, Tonya. As críticas em momentos pontuais da trama ao comportamento racista e homofóbico da polícia, além do despreparo dos oficiais e falta de empatia com causas minoritárias, mostram bem como racismo e homofobia caminham sempre de mãos dadas com o machismo/misoginia, que é o tema principal do enredo, onde a honra de um homem é mais importante que a vida de uma mulher. O uso de linguajar chulo, pejorativo e depreciativo ao se referir às minorias, tratamento diferenciado com cidadãos (desigualdade perante a lei), são uma crítica clara a um sistema ainda muito discriminador. O filme também aborda questões como violência doméstica.


McDonagh se inspirou em anúncios similares que viu viajando pelo sul dos EUA, e escreveu o roteiro com McDormand em mente. O curioso é que McDormand queria que sua personagem fosse avó, e não mãe, da vítima. O filme foi lançado comercialmente no fim de 2017, depois de ter sido exibido nos Festivais de Veneza, Londres, Toronto, San Sebastian e Zurique. Pré-estreia nos cinemas brasileiros marcada para o dia 24 de janeiro.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Me Chame Pelo Seu Nome

Me Chame Pelo Seu Nome 

(Call Me By Your Name) 

Dir.: Luca Guadagnino

O primeiro amor é dos temas mais recorrentes da história do cinema. Já foi retratado de diversas formas, desde clássicos da literatura e dramaturgia, como Romeu & Julieta de Shakespeare, e suas diversas adaptações e derivações, a filmes infantojuvenis, como os açucarados clássicos dos anos 80 aos moldes de John Hughes (Gatinhas e Gatões, A Garota de Rosa-Shocking, etc.). Um dos meus favoritos é Lucas (título brasileiro A Inocência do Primeiro Amor), de 1986, com o falecido Corey Haim, Charlie Sheen (quando ele ainda não era a figura repugnante de hoje) e marcou a estreia de Winona Ryder no cinema. O que há em comum em quase todos eles é a simplicidade, singeleza do sentimento e romantização das relações afetivas, características que fatalmente se perdem nas relações adultas, devido a maturidade, outras expectativas, complicações e percalços naturais da vida a dois. Talvez o tema seja tão recorrente por ser de identificação universal, rito de passagem que faz parte da história da maioria das pessoas, sendo de fácil vendagem, e que remete à nostalgia, juventude, quando a vida era mais simples.


Me Chame Pelo Seu Nome é mais um filme a tocar nesse assunto, com roteiro escrito pelo diretor veterano James Ivory (da tradicional produtora britânica Merchant Ivory), baseado fielmente no livro homônimo de André Anciman, ainda sem tradução e lançamento no Brasil. O enredo se passa nos anos 1980 e fala de Elio, um adolescente judeu ítalo-americano de dezessete anos que mora com seus pais intelectuais em um vilarejo da Itália. A família tem por costume receber jovens pós-graduandos todos os verões para orientação de produção científica, e sua vida muda quando eles hospedam por algumas semanas Oliver, um escritor americano, e Elio passa a desejá-lo e a despertar sentimentos por ele.


O principal trunfo da história é trazer novas nuances e problemáticas para uma temática já extensivamente abordada, consegue aliar a falta de familiaridade de Elio com o despertar de novos sentimentos e a descoberta da sexualidade, a ambivalência no desafio da autoaceitação, e também reproduzir o mesmo erotismo da obra literária, sem perder o romantismo e a ingenuidade, conseguindo sobretudo captar e transmitir essa ingenuidade tão peculiar ao primeiro amor.


Só a abordagem da sexualidade traz todo um espectro diferente ao filme, já que por muito tempo a produção de histórias sobre homossexualidade era ínfima, em nichos restritos, e com abordagens muito distintas a essa. Só recentemente a temática passou a povoar a produção mainstream do cinema internacional, então para o público geral ainda fica mais fácil classificar a obra como “romance gay”, e não como uma história sobre sentimentos universais e intrínsecos a natureza humana. A descoberta da sexualidade diversa sempre pesa mais, mas pelo menos traz mais visibilidade à causa LGBT, retratando a diversidade sem cair nos fáceis estereótipos e clichês (vide novelas rede Globo).


Uma produção multinacional, além de escrito por Ivory, o filme foi coproduzido e financiado independentemente, com baixo orçamento, por produtoras de cinema da França, Itália, EUA, Reino Unido, e inclusive pelo brasileiro Rodrigo Teixeira e sua RT Features. Foi rodado na Itália e dirigido pelo italiano Luca Guadagnino, com elenco de americanos, franceses e italianos.


O destaque do elenco fica por conta do nova-iorquino Timothée Chalamet, conhecido pelo seriado Homeland, que faz seu primeiro protagonista. Chalamet dá humanidade a um complicado Elio, um rapaz precoce e intelectualizado, que lida com sentimentos e sensações que são das poucas coisas que ele não sabe nada a respeito e nem consegue dominar. Menções também para Armie Hammer, descoberto em A Rede Social e alçado a astro e galã devido à sua beleza clássica hollywoodiana, mas sem obter grandes sucessos, fazendo de Oliver seu melhor trabalho da carreira, e o veterano Michael Stuhlbarg, como o pai de Elio, que tem um monólogo poderoso no desfecho do filme.


O filme fecha a “trilogia do desejo” do diretor Guadagnino, depois de Um Sonho de Amor e Um Mergulho No Passado, ambos estrelados por Tilda Swinton. Estreou no festival de Sundance, em janeiro de 2017, e foi exibido nos tradicionais festivais de Berlim, Toronto e Nova York, sendo lançado comercialmente apenas no fim de 2017 para fazer campanha durante a atual temporada hollywoodiana de prêmios.