segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Oscar 2015

Depois do sucesso do ano passado, o Oscar tinha muitas expectativas a corresponder e chamaram o Neil Patrick Harris, que tem feito sucesso apresentando o Tony (o Oscar da Broadway). Apostaram também em algumas coisas que deram certo, como as músicas famosas de trilhas sonoras de filmes (que tinham Bonequinha de Luxo, De Volta Pro Futuro, A Fantástica Fábrica de Chocolate, Top Gun, Shaft, etc.) sendo tocadas por toda a noite pela orquestra, culminando com a homenagem a A Noviça Rebelde, com Lady Gaga.

Mas Neil Patrick Harris, como o apresentador, tentou fazer uma de suas criativas apresentações, mas não funcionou tanto no Oscar como costuma no Tony. Ele parecia desconfortável e desanimado às vezes, como se não gostasse do roteiro, e suas piadas não foram tão boas quanto às de Ellen ano passado. Talvez fosse fome, já que ele anda uma saracura. Ficou aquém também a de outro showman, Hugh Jackman, em 2009.

E não foi uma noite fraca só para Neil. Foi fraquíssima de resultados (Boyhood, meus sentimentos) e de frases também...

Frases da Noite:

Hoje nós celebramos os melhores e mais
brancos. Desculpem! Os mais brilhantes!
Neil Patrick Harris, criticando 
a falta de indicados de outras etnias.


É como se metade da platéia fosse os 7 indicados
e Sniper Americano fosse a Oprah.
NPH, fazendo piada com o fato do filme ter lucrado sozinho 
US$ 300mi dos US$ 600mi que todos os indicados lucraram 
juntos e com a famosa fortuna da apresentadora.


E o Actor vai para... Oscar vai para...
Lupita Nyong'o, se confundindo com o nome 
do Oscar com o prêmio entregue no SAG awards.


Sniper Americano tem Bradley Cooper como o
mais prolífico franco-atirador da história,
com 160 assassinatos confirmados. Ou o que
Harvey Weinstein chama de uma manhã devagar.
NPH, debochando do infame ex-executivo 
da Miramax, e da atual Weinstein Company.

Atuar é uma profissão nobre.
NPH, ao entrar de cueca no palco, 
numa citação à Birdman.

Nós lutamos pelos direitos civis de todos
e é hora de existir igualdade salarial para todos
e de haver direitos iguais para as mulheres.
Patricia Arquette, no melhor discurso da noite.

Nina Simone disse que é o dever de um
artista refletir o tempo em que vive.
John Legend, ao receber seu Oscar.
Benedict Cumberbatch é não só o mais incrível
nome no showbiz, mas é o que você consegue quando 
pede para John Travolta anunciar Ben Affleck.
NPH, antes de chamar Idina Menzel ao palco, 
relembrando que Travolta errou seu nome no ano passado.

Você quer que eu leia?
Idina Menzel, insinuando que John Travolta iria errar 
ao ler os nomes dos indicados a melhor canção.

Boa música faz mais do que ajudar um filme.
Ela o solidifica em nossa memória.
Julie Andrews, antes de anunciar os indicados à trilha sonora.

Eu li um artigo que dizia que ganhar um Oscar
 pode aumentar em 5 anos a vida de
alguém. Se for verdade agradeço à Academia
pois meu marido é mais novo que eu.
Julianne Moore, ao aceitar seu prêmio.



Melhores Momentos:

1. Lady Gaga, que deu um mega tabefe na cara dos detratores cantando a homenagem aos 50 anos de A Noviça Rebelde. Quem assistiu o Grammy viu o show que ela deu no seu dueto junto com Tony Bennett também. E Julie Andrews entrando no palco logo em seguida. Botou no chinelo aquela apresentação da Pink em homenagem a O Mágico de Oz no ano passado; 

2. Patricia Arquette exigindo igualdade salarial para mulheres e Julianne Moore finalmente ganhando o seu Oscar, depois de tantas indicações e trabalhos brilhantes;

3. O discurso John Legend e Common, ao ganhar o Oscar de canção por Glory do filme Selma. Selma foi bem enfraquecido por ter sido lançado na hora errada, e a música é muito hino evangélico pro meu gosto (minha favorita era Lost Stars), mas comoveu muito a plateia (tinha até gente falando línguas) e o discurso de agradecimento valeu muito à pena.



Piores Momentos:

1. A esnobada colossal em Boyhood, que só foi lembrado pela performance de Patricia Arquette, enquanto Whiplash e O Grande Hotel Budapeste saíram com 3 e 4 prêmios cada um, respectivamente. Um desses momentos que serão sempre lembrados como injustiças da Academia;

2. A canção do Lego Movie, aquela pataquada estridente Everything is Awesome, vulgo a coisa mais irritante da face da Terra. O momento vergonha alheia da noite. Até tentaram fazer um momento à la Happy, como no ano passado, mas não tem nem como comparar. Mas eu queria um Oscar de lego daquele que eles distribuíram na plateia;

3. O número de abertura de Neil Patrick Harris, Moving Pictures, foi ótimo (apesar de umas escorregadas aqui e ali na afinação), com todas as citações a filmes famosos e estrelas icônicas do cinema, Jack Black e Anna Kendrick participando também. Mas é a hora que Hollywood dá uma banana para o resto do mundo, porque é uma apresentação rápida e intraduzível, impossível para estrangeiros comentarem, e só países de língua inglesa aproveitam de fato o número. Depois ficam se gabando que o Oscar é o show mais assistido do mundo, com os direitos de transmissão vendidos pra um zilhão de países.



O que mais teve?

- Nicole Kidman, que deve ter molhado a chapinha na chuva ao entrar no tapete vermelho;

- Teve uma tábua de passar roupa com um vestido rosa em cima para desamassar;

- Tim McGraw, com muito chapéu pra pouca cabeça. E deve ter entrado em umas dessas novas dietas mirabolantes da moda;

- Neil Patrick, também resolveu mostrar o resultado da dieta, e usou citação a uma cena de Birdman como desculpa;

- Teve Margot Robbie, no palco com Miles Teller de Whiplash, que tenta, mas não consegue ficar tão linda sem a ajuda das equipes dos seus filmes e seriados, como em O Lobo de Wall Street e PanAm;

- Teve Jesus Cristo;

- Emma Stone, com seu Oscar de lego de consolação;

- Patricia Arquette, linda, humana, gente como a gente, com rugas, dentinho torto, de óculos, descabelada e batom cagado, fazendo discurso feminista;

- Meryl e J-Lo aplaudindo Patricia;

- Zoe Saldaña, que foi de esquálida Avatar à curvilínea Raquel Welch em um ano;

- Jessica Chastain, bem Jessica Rabbit;

- Jennifer Hudson, reciclando canção de Smash totalmente fora de contexto,  “encafonando” a homenagem aos falecidos, igual Bette Midler no ano passado;

- Jennifer Aniston, com fantasia de sereia da Versace, dizendo pra Academia que tá pouco se lixando pra ser indicada, depois de ser esnobada por Cake. Junto a ela, David Oyelowo, também esnobado por Selma;

- David Oyelowo chorando com Glory;

- Chris Pine também;

- Adele Dazim, ops! Idina Menzel;

- John Travolta também;

- Se ele pode ir de peruca pro Oscar, quando eu for convidado eu também irei. A minha fica mais natural;

- Scarlet Johansson, com colar estragando o visú;

- Lady Gaga, desejando a todas inimigas vida longa;

- Julie Andrews, no formol;

- Eddie Murphy, ZzZz...;

- Graham Moore, roteirista de O Jogo da Imitação, dando muita pinta;

- Eddie Redmayne, sendo bocó. Pior discurso;

- Julianne Moore, linda, nua, só adornada com umas flores pretas;

- Birdman, ganhando tudo.


Para ver os resultado completos, clique aqui.

domingo, fevereiro 22, 2015

Indicados ao Oscar 2015 // Boyhood

Feitiço do Tempo

Boyhood

Nota: 10


Richard Linklater é desses diretores que gravitam entre diversos estilos. O filme que o trouxe notoriedade foi Jovens, Loucos e Rebeldes, uma espécie de American Grafitti, Vidas Sem Rumo ou Picardias Estudantis dos anos 90, que revelou nomes como Matthew McConaughey, Bem Affleck, Milla Jovovich e ainda tinha Renée Zellwegger numa ponta. Eu, particular- mente, acho o filme um lixo pró-bullying. Só a trilha sonora classic rock se salva. Mas já no filme seguinte ele deu um giro de 180 graus e filmou um romance quase minimalista, o cult Antes do Amanhecer com Ethan Hawke e a francesa Julie Delpy, que desde então colecionou fãs e ganhou duas sequências, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite. Outro de seus filmes bem conhecidos é A Escola do Rock, com Jack Black. Mas, sem dúvida, Boyhood é (e provavelmente será) o seu Magnum Opus.

O que muita gente não sabia é que durante vários anos, e a filmagem de vários dos seus filmes, ele tinha um projeto em paralelo que ele filmou aos poucos por 12 anos. Boyhood é sobre a transição entre a infância e a idade adulta de um garoto. Sua vida familiar, escolar, a relação com os pais, a irmã, as frequentes mudanças da adolescência.

O filme não tem grandes acontecimentos e momentos de tensão ou catarse. Ele encanta pela simplicidade. Por como o cinema pode ser um veículo de identificação, onde a gente pode assistir não só robôs, alienígenas, monstros, crimes hediondos, planos mirabolantes, mas ver pessoas com vidas comuns, com cotidianos como o seu e o meu.

Vários são os aspectos louváveis do filme. A ousadia de se passar 12 anos construindo uma história, conseguindo a confiança e o comprometimento de uma equipe inteira em embarcar nesse projeto, que não tinha um enredo, um financiamento sólido, um final estabelecido, não é uma realização fácil. Um projeto bem arriscado, mas Linklater sabia bem do que fazia. O fato de a produção ser tão espalhada por anos, simplicidade era a palavra-chave do sucesso. É tão singelo que em vários momentos a gente acredita estar vendo uma fita amadora de festa de família. Inventar situações complicadas e extraordinárias em que a equipe tivesse de lidar durante um período tão extenso de tempo provavelmente iria causar dispersão, perda do foco e do interesse. Além de descartar todas as sutilezas que a passagem do tempo por si só traz.

Patricia Arquette brilha como a esforçada mãe de família, que tropeça em si mesma na ânsia em acertar. Ethan Hawke, como o pai amoroso, porém infantil, que vai encontrando seus próprios eixos, tem provavelmente seu papel mais simpático na carreira. E as transformações de Lorelei Linklater e principalmente de Ellar Coltrane vão muito além do físico. Testemunhamos crianças talentosas se transformando em atores, entre tantos outros aspectos. Os exemplos de atores infantis que não conseguiram ou se perderam na transição para a carreira adulta são incontáveis, e talvez eles acertaram na loteria com esse filme, que não os limitou à uma só imagem.

A aclamação praticamente universal mostra bem o que Boyhood significa hoje para o cinema, e para a indústria. O futuro é difícil de antecipar, mas acho que se há um filme da safra desse ano que pode perdurar e virar clássico, esse filme é Boyhood, que inova por não tentar inovar. É um dos favoritos ao Oscar esse ano, e polariza opiniões com Birdman. Recebeu seis indicações ao Oscar, incluindo filme, direção e roteiro original, e com uma premiação de Arquette como coadjuvante praticamente já confirmada. Não é o mais indicado do ano, justamente por não ter excessos técnicos que o qualificassem para tais categorias, mas tudo o que é necessário para um filme existir, comunicar, e encantar está lá.

sábado, fevereiro 21, 2015

Indicados ao Oscar 2015 // O Grande Hotel Budapeste

Corra Que A Polícia Vem Aí

O Grande Hotel Budapeste // The Grand Budapest Hotel

Nota: 8,5

Wes Anderson é um desses diretores que você só precisa ver 5 minutos de filme para reconhecer que é sua obra. O seu estilo é peculiar a tal ponto. Para mim, ele é sempre 8 ou 80. Raramente fica no meio termo. O Grande Hotel Budapeste é uma dessas exceções. Ele ganhou notoriedade com seu terceiro filme, Os Excêntricos Tenembaums, filme que eu não consigo assistir 30 minutos. Mas ultimamente ele tem acertado mais. Adorei O Fantástico Senhor Raposo (talvez por ser uma animação, e seu estilo me pareça mais apropriado para esse meio) e Moonrise Kingdom é muito simpático. Apesar das minhas opiniões, ele parece ser bem querido da classe artística, pois seus filmes sempre reúnem uma quantidade grande de atores respeitados. Budapeste também segue o exemplo.

Só pra ter idéia, o filme conta no elenco com Ralph Fiennes, o protagonista, e, em papéis menores, Jude Law, Edward Norton, Adrien Brody, Willem Dafoe, Bill Murray, Harvey Keitel, Tom Wilkinson, Jeff Goldblum, a diva Tilda Swinton, Saoirse Ronan, a menina de Atonement, Um Olhar do Paraíso e Hanna, e ator teatral F. Murray Abraham, vencedor do Oscar por fazer o Salieri de Amadeus há uns bons 30 anos atrás, fez Scarface e O Nome da Rosa, e hoje faz o seriado Homeland.

A história é sobre um zelador de prestigioso hotel (Fiennes) em país fictício do leste europeu que é colocado no inventário de uma habitual hóspede do hotel (Tilda). Ao chegar à leitura do documento, ele recebe como herança um valiosíssimo quadro, levando à ira o filho da finada (Brody), que forja um assassinato para culpá-lo do crime. Então se inicia uma série de perseguições e desventuras.

O estilo caricatural peculiar de Anderson novamente se faz presente aqui, dando uma qualidade de animação stop-motion ao filme. Tecnicamente, é muito bem cuidado. Fotografia, design de produção, figurinos, trilha incidental, tudo muito bem feito. O elenco estelar corresponde às expectativas. É freqüente filmes com muitos famosos acabarem não fazendo jus a nenhum eles, como Assassinato em Gosford Park, por exemplo. Os destaques ficam com Ralph Fiennes e o novato Tony Revolori, como o seu fiel escudeiro. Adrien Brody e Willem Dafoe como vilões também rendem risadas.

É um roteiro bem pitoresco, de uma história inofensiva, onde o maior atrativo é o humor dos tipos humanos e suas esquisitices. Concorre a 9 prêmios no Oscar, incluindo trilha sonora para o francês Alexandre Desplat, parceiro de Anderson, que é indicado quase todo ano, roteiro original, diretor e filme. Com a polarização de opiniões entre Birdman e Boyhood, há quem aposte que eles dividam votos e se anulem, podendo uma zebra acontecer. E aí os mais cotados para essa hipótese seriam Budapeste e Whiplash. Aguardemos pelo desenrolar dos fatos.

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Indicados ao Oscar 2015 // A Teoria de Tudo

Dançando no Escuro

A Teoria de Tudo // The Theory of Everything

Nota: 8,5


Assim como O Jogo da Imitação, A Teoria de Tudo, novo filme do diretor inglês James Marsh, vencedor do Oscar pelo documentário O Equilibrista, é uma biopic inglesa sobre a vida de célebre estudioso. Stephen Hawking é um dos acadêmicos mais famosos do mundo na atualidade, e é conhecido pelo seu bom humor também. O fato de o filme ser sobre Hawking e o próprio título em si só me fazem lembrar The Big Bang Theory, já que a música-tema do seriado tem título bem parecido (The History of Everything) e Hawking, além de ser frequentemente citado e satirizado no seriado, também já fez participação especial. Mas ao contrário de Sheldon Cooper, ele não tem nada de anti-social.

Além de ser um dos estudiosos mais importantes da atualidade, o que torna a história de Hawking digna das telas é o fato de ele ter uma doença degenerativa congênita, a doença do neurônio motor, que o faz perder a coordenação motora e os movimentos, paralisando o corpo. Assim que foi diagnosticado, com pouco mais de 20 anos, ele foi logo desenganado pelos médicos, que o deram apenas dois anos mais de vida. Pois hoje ele já passa dos 70.

Ao contrário de O Jogo da Imitação, que foca em um determinado momento da vida de Alan Turing, esse filme é bem amplo ao abordar a vida de Hawking. Começa logo que ele inicia a faculdade e recebe o diagnóstico da sua doença, o casamento, o sucesso como físico, até os momentos mais recentes de sua vida.

Essa não é a primeira obra a falar sobre Hawking. O roteiro de Anthony McCarten foi baseado no best seller escrito por sua ex-esposa, Jane Wilde Hawking, interpretada no filme por Felicity Jones. Mas não sei se ele mesmo foi tão ativo na produção dos demais quanto foi neste. Ele não só aprovou o filme, como proveu a voz mecânica com a qual ele hoje se comunica para o terço final do filme.

Eddie Redmayne, que foi revelado em My Week With Marilyn e depois despontou em peças na Broadway, ganhando o Tony, e no musical Os Miseráveis, lutou pelo papel de Hawking. Ele além de ser bastante parecido fisicamente com o cientista, consegue fazer um trabalho de caracterização física muito competente, como fez Daniel Day-Lewis em Meu Pé Esquerdo. Isso faz dele favorito ao Oscar de melhor ator, um pouco a frente de seu maior concorrente, Michael Keaton por Birdman

Resta saber quem que os acadêmicos irão preferir, o jovem talento ou o veterano que deu a volta por cima. Eu votaria em Keaton, por achar que Redmayne ainda tem muita carreira pela frente e pelo clichê de sempre premiar biografias. Teoria ainda concorre a melhor filme, atriz para Felicity Jones, roteiro adaptado e a trilha sonora, do islandês Johann Johannsson.

O filme é um simples retrato de uma vida difícil, apesar de levada com muito humor por Hawking. Já o filme não tem humor nenhum. Nem siso, também. Tem um tom documental até demais. Não levanta grandes questionamentos ou dá margens para debates, como faz Still Alice, por exemplo, que nos faz ponderar até onde vai a dignidade e qualidade em viver diante da debilidade. A escolha (ou falta dela) varia de acordo com as possibilidades de cada um. Mas a própria vida de Hawking já nos provou que no caso dele, ele escolheu viver, por ter muito o que produzir, apesar do obstáculo.