Segunda-feira, Fevereiro 27, 2012

Oscar 2012


John Stewart, Chris Rock, Anne Hathaway, James Franco, Steve Martin, Alec Baldwin. Não importa quem seja o apresentador do evento, nem trazer Billy Crystal de volta, que a cerimônia esse ano provou que o que não funciona mesmo é a fórmula pra lá de gasta. Cortaram as músicas, os prêmios especiais por carreira, correram como podiam, diminuíram ainda mais a tolerância dos discursos de agradecimento, mas o evento continuou longo, arrastado, cansativo. Além de enfadonho.

E cada vez mais me certifico que a cerimônia não premia qualidade, mesmo O Artista sendo um bom filme. Acho que é mais uma forma de se premiar uma tendência, do que a excelência em si. A tendência desse ano foi nostalgia. O Artista e Hugo levaram 5 prêmios cada, e são dois filmes sobre os primórdios do cinema, que certamente tocaram o coração dos eleitores da Academia, que na sua média, é masculino, branco e acima dos 60 anos de idade. E por fim meus filmes favoritos nunca vão longe. Raramente meus favoritos vencem. Disso eu já até me acostumei.

Christopher Plummer consagra-se o ator mais velho a ganhar um Oscar. Meryl vence finalmente depois de 29 anos, com um vestido quase igual ao da vez anterior. A conclusão que me fica é que a cerimônia ainda é bem status quo, só ver como a festa é tão TFP (tradição-família-propriedade), moral e bons costumes, sem transgressões ou ousadias, e o momento mais ‘‘chocante’’ (ou inesperado) é o Borat sacudindo poeira no Ryan Seacrest no tapete vermelho, e ainda usarem gays como motivo de riso, como no beijo de Billy Crystal e George Clooney, e Colin Firth anunciando prêmio. Esses roteiristas precisam ver The Celluloid Closet urgente.


Frases da noite:
Estou aqui pra te conseguir o demográfico de 18 a 24
Justin Bieber, na montagem de abertura, fazendo piada com a constante luta,
em vão, da Academia de atrair a audiência jovem para assistir o evento.


Essa abertura foi ‘Extremely Loud & Incredibly Close’. Esta é minha nona vez apresentando, então podem me chamar de ‘War Horse’.
Billy Crystal, no seu monólogo inicial.

O cinema está sempre aí para nós. É onde podemos rir, chorar... mandar SMS...
Billy Crystal, no seu monólogo inicial.

Divirtam-se esta noite! Nada pode nos fazer esquecer dos problemas econômicos mundiais como ver milionários se premiarem com estatuetas de ouro.
Billy Crystal, no seu monólogo inicial.

Nove é o novo dez.
Billy Crystal, claramente debochando da bobagem da academia de não
arredondar o número de indicados a melhor filme.

Depois de ver The Help eu queria abraçar a primeira mulher negra que eu encontrasse, mas de Beverly Hills são 45 minutos de carro.
Billy Crystal, fazendo piada e ironizando como as coisas
não mudaram tanto assim.

Você é uma mulher de sorte. Ele beija muito bem.
Billy Crystal, se dirigindo à Stacy Keibler, namorada do George Clooney,
fazendo piada com o beijo que eles deram na montagem de abertura.

Vejam só alguns dos indicados: Christopher Plummer, com 82 anos. Max von Sydow, com 82 anos. Quando meu avô tinha 82 anos a gente não deixava nem ele ir ao cinema.
Billy Crystal, falando sobre os indicados a ator coadjuvante.

Vamos dar o fora daqui.
Os vencedores de melhor montagem por Millenium (a melhor coisa do filme,
de fato), mostrando que o pessoal da parte técnica realmente
não se sente muito confortável nos holofotes.

Eu não estaria aqui se não fosse (...) por meu parceiro de cena, Ewan McGregor, um ator soberbo, e com quem eu felizmente dividiria esse prêmio se eu tivesse alguma decência, mas eu não tenho.
Christopher Plummer, recebendo seu prêmio de ator coadjuvante.

Eu prefiro um curta que seja bom pra mim a um longa que só fica lá e você tem que fazer o trabalho todo.
Kristen Wiig, junto com as demais protagonistas de Bridesmaids,
apresentando o prêmio de Curta Metragem.

Meryl... Mamma Mia! Estávamos na Grécia, nós dançamos, eu era gay, e éramos felizes. E provavelmente sou o pai da sua filha.
Colin Firth, apresentando Meryl Streep como candidata a melhor atriz
e relembrando quando contracenaram juntos.


Quando meu nome foi anunciado eu pude sentir que metade do país dizia ‘Oh, não! Por que ela de novo?’
Meryl Streep, aceitando o prêmio de melhor atriz.



Top 5 – Melhores Momentos:

1. Octavia ganhando melhor atriz coadjuvante (vídeo aqui). Pelo menos uma verdadeira torcida minha tinha que se concretizar.

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2.
Os vídeos dos atores contando suas memórias de infância sobre cinema. Esse de cima foi o primeiro deles, mas houve diuversos espalhados na transmissão. Apesar de ter alguns atores lá, tipo Adam Sandler, falando com tanta propriedade que até fazia parecer que eles têm alguma coisa que preste no currículo.

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3.
O vídeo satírico de uma platéia teste de O Mágico de Oz, cheio de comediantes ótimos e esquecidos pela academia, como Eugene Levy, Christopher Gues, Catherine O'Hara e Jennifer Coolidge. E cá entre nós a academia nunca gostou de comediantes.

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4.
Emma Stone apresentando o prêmio de melhor efeitos especiais. Mesmo com o Ben Stiller do lado.

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5. Esperanza Spalding cantando What a Wonderful World para os falecidos.



Top 5 – Piores Momentos:

1. Meryl vencendo melhor atriz. Jamais imaginei ficar triste de vê-la ganhando um Oscar, levando em consideração que as duas vezes que ela venceu eu nem era nascido, mas esse ano torci de corpo e alma pela Viola Davis.

2. Rio perdendo canção pra aquela sentinela sem graça dos Muppets.

3. Estragarem a montagem sobre cinema, que começou tão bem com A Princesa Prometida, Lendas da Paixão, Amélie e Ghost, colocando depois todos os comediantes podres de Hollyood. Ben Stiller, Adam Sandler, Mike Myers, Eddie Murphy... Não esqueceram nenhum!

4. Ver Melissa Leo de novo.

5. A Árvore da Vida perdendo melhor fotografia.



Constatações:

- Emma Stone é a nova Julia Roberts. Pelo menos a simpatia dela parece ser autêntica.

- Nick Nolte: de Sexiest Man Alive, em 1992, a Papai Smurf.

- Gwyneth já é uma assombração, não precisava ir vestida de fantasma...

- Sandra Bullock tá japonesa, Brasil! Tá passando pelo processo de plastificação que Nicole Kidman passou alguns anos atrás, e ainda bem parece ter deixado de lado.

- Até Barbra Streisand caprichou no bisturi agora.

- E Tom Cruise também mergulhou no botox.

- Angelina Jolie continua doentiamente esquálida. E tá ficando a cara da Joan Collins.

- Rooney Mara esteve linda no Globo de Ouro, mas foi pro Oscar com um franjão de Maria-Mijona.

- Dujardin, que tinha minha torcida, me pareceu, dessa vez, canastrão e pedante. Devia ter torcido pelo George Clooney.

- Até agora não entendi porque Cameron Diaz e Jennifer Lopez viraram as costas (no caso da J-Lo, o bundão) pra platéia antes de entregar o prêmio de maquiagem. Cá entre nós, A maquiagem de Harry Potter era muito melhor.

Obs: Mistério esclarecido! J-Lo pagou peitinho e virou de costas pra se arrumar. Cameron ficou de costas em solidariedade.

- Berenice Bejo fica melhor em preto e branco.

- Jessica Chastain estava linda.

- Glenn Close e Janet McTeer se passando por homens em Albert Nobbs é assim, tão convincente, quanto a ‘exótica cantora’ de The Crying Game.

- Por mais que eu odeie admitir, o Cirque du Soleil me deu sono.

- Chris Rock tem um de voz insuportável. Ele pode dizer bom dia, que já desperta minha antipatia.

- Rubens Ewald continua bem enjoadinho, como por exemplo chamar Christopher Plummer de canastrão (mesmo que outrora), mas quando ele espinafrou a Rooney Mara e o Millenium, eu não vou mentir que concordei...


A lista completa de vencedores:

Melhor filme
O Artista

Melhor diretor
Michel Hazanavicius -
O Artista

Melhor atriz
Meryl Streep por "A Dama de Ferro"

Melhor ator
Jean Dujardin por "
O Artista"

Melhor ator coadjuvante
Christopher Plummer por "Toda Forma de Amor"

Melhor atriz coadjuvante
Octavia Spencer por "Histórias Cruzadas"

Melhor Roteiro Original
Woody Allen por "Meia-Noite em Paris"

Melhor Roteiro Adaptado
Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash por "Os Descendentes"

Melhor Filme Estrangeiro
"A Separação" de Asghar Farhadi (Irã)

Melhor Animação
"Rango" de Gore Verbinski

Melhor Curta de Animação
"The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore" de William Joyce e Breon Oldenburg

Melhor Documentário
"Undefeated" de TJ Martin, Dan Lindsay e Richard Middlemas

Melhor Documentário Curta Metragem
"Saving Face" de Daniel Junge e Sharmeen Obaid-Chemoy

Melhor Trilha Sonora
Ludovic Bource por "
O Artista"

Melhor canção
"Man or Muppet" de "Os Muppets"

Melhor Direção de Arte
Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo de "A Invenção de Hugo Cabret"

Melhor Fotografia
Robert Richardson de "A Invenção de Hugo Cabret"

Melhor Edição
Kirk Baxter e Angus Wall de "Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres"

Melhor Mixagem de Som
Tom Fleischman e John Midgley de "A Invenção de Hugo Cabret"

Melhor Edição de Som
Philip Stockton e Eugene Gearty de "A Invenção de Hugo Cabret"

Melhor Efeitos Visuais
Rob Legato, Joss Williams, Ben Grossman e Alex Hennemg de "A Invenção de Hugo Cabret"

Melhor Maquiagem
Mark Coulier e J. Roy Helle de "A Dama de Ferro"

Melhor Figurino
Mark Bridges de "
O Artista"

Melhor Curta Metragem
"The Shore" de Terry George e Oorlagh George

Quinta-feira, Fevereiro 16, 2012

Crítica A Dama de Ferro

Morde e Assopra

A Dama de Ferro // The Iron Lady


Nota: 5,5

A única coisa que me fez querer ver esse filme foi a presença da Meryl Streep. Na verdade nem era querer, por assim dizer, mas uma tolerância, seria mais apropriado pontuar. Pode parecer mesquinho da minha parte, mas eu não gosto de ver biografias de pessoas “não-admiráveis”, tanto que evito filmes sobre o Hitler, por exemplo. A questão é que filmes como esse humanizam seus retratados, até porque ninguém é ruim por querer deliberadamente ser ruim, como em desenhos animados. “Eu sou mau, muaaaahahahaha!” E, sinceramente, eu não quero ter simpatia alguma por esse povo que eu desprezo, até porque todo mundo, figuras admiráveis ou não, envelhecem e perecem. E A Dama de Ferro faz isso a cada segundo, implora por compaixão pela velhota.

Bom, pra quem não sabe. Margaret Thatcher foi a primeira e única mulher a ocupar o cargo de Primeiro Ministro da Grã Bretanha. Foi nos anos 80. E apesar de ser mulher, de quebrar barreiras e chegar a tal cargo, ela está bem longe de ser um ícone feminista, ou quiçá progressista. Só por fazer parte do partido conservador, sem nem levar em consideração seu governo, já é motivo o bastante para se fazer deliberar. Quem quer progresso, mudanças e quebra de paradigmas não tem como ser conservador. O que há de tão perfeito para se conservar, afinal?

O roteiro na verdade me pareceu uma grande fantasia, pois a maior parte do filme mostra uma Thatcher já bem idosa, sofrendo com Alzheimer, alucinando aos quatro cantos com seu falecido marido, um sujeito bonachão. Ou seja, a enigmática Thatcher de hoje, reclusa, que não mais aparece na mídia. Pura especulação. Uma forma de amolecer a figura da dama-de-ferro. A megera foi domada.

Seu período como ministra, que é a parte mais interessante do filme, só chega perto do fim, e dura pouquíssimo. E, pra mim, só corrobora com o que eu já pensava dela. Depois de assoprar tanto a figura, de muito implorar por nossa compaixão, eis então que o filme morde. Apesar de muito de leve. Mas depois volta pra fase velha decrépita, pra gente amolecer de novo. Enfim, sua política neoliberal foi deplorável.

Cortou investimentos sociais importantes, privatizou o país inteiro (porque a inciativa privada é quem melhor cuida do país), abafou greves no cacetete, como a gente já viu em Billy Elliot, e a pior parte pra mim: na base do ufanismo, comprou a simpatia da população travando uma guerra com a Argentina, por causa de duas ilhotas gélidas que ela certamente nem sabia que existiam. Foi uma mãe pro sistema capitalista, aquele onde, como já diria o poeta, o de cima sobe e o de baixo desce. Deixou tudo correr solto. O povo? Que se dane. Que vá trabalhar. Os grandes empresários e corporações vão tomar conta de vocês. Vejam só como Wall Street está cuidando bem de nós...

Aí depois de 11 anos dessa figura pintando miséria na terra da rainha, aí me vem o FHC e seu PSDB implementar o mesmo modelo no Brasil. O resultado? Entre diversos outros, reajuste salarial de 1% em oito anos para professores universitários (educação é um ítem supérfluo), um monte de Oi, Tim e Claro e outras similares em diversos outros ramos, empestadas de país adentro, e a gente por horas no disque-consumidor pra mudar um endereço de cobrança, cancelar um serviço ou qualquer outra coisa. Porque as grandes empresas estão muito interessadas no bem estar do cliente, é só ver como aqueles sorrisos largos e contagiantes das propagandas correspondem a nossa realidade cotidiana.

Domingo, Fevereiro 12, 2012

Crítica Tão Forte e Tão Perto

A Última Cruzada

Tão Forte e Tão Perto // Extremely Loud and Incredibly Close


Nota: 8,0


Bom, o trailer me fisgou. Não tenho como negar isso. Belas imagens, um conflito aparentemente interessante transparecendo, elenco competente, Where the Streets Have No Name do U2 tocando. Tudo parecia lindo. Além disso, é do Stephen Daldry, diretor de Billy Elliot, As Horas e O Leitor, sem sombra de dúvidas três dos melhores filmes produzidos na década passada. Tudo contando a favor. Mas aí o filme estreou e veio o bombardeio. Da crítica. De público, sinceramente, não tenho idéia. Não conheço ninguém que viu, e o filme não anda muito bem de bilheteria também. Então já fui ver o filme com dois pés atrás. E na verdade isso só ajudou, pois se a expectativa continuasse como estava antes, certamente eu teria gostado menos dele.

Enfim, a história é sobre Oskar, um menino extremamente inteligente e intelectualizado, que não se dá bem com outras crianças. O típico menino metido a adulto e que normalmente é insuportável. E, além disso, ele tem uns tiques bem típicos de pessoas com distúrbios psicológicos como síndrome Asperger, TOC e similares, que eu não tenho conhecimento aprofundado para diagnosticar. Um Sheldon (do seriado The Big Bang Theory) mirim, colocando em uma perspectiva.

Ele é muito ligado ao pai, Tom Hanks em breve aparições, com quem disputa diversos jogos, tipo caça ao tesouro, e tem uma relação de certa forma distante com a mãe, feita pela Sandra Bullock. Então chega 11 de setembro, e seu pai estava nas torres gêmeas a negócios. Desde então seu mundo, naturalmente, rui. Mexendo nas coisas do pai ele encontra uma chave e acredita ser mais uma de suas caça ao tesouro, e parte por Nova York em busca de uma última hipotética mensagem que seu pai o deixou, com a ajuda do inquilino da sua avó, que curiosamente não fala, feito pelo grande Max von Sydow.

O filme tem takes lindos, como a revoada de pássaros antes do menino visitar mais uma casa na sua busca incessante, uma fotografia muito bonita. Mas o roteiro do Eric Roth, que fez Benjamin Button e Forrest Gump, se supera no quesito pieguice. Até mais do que os seus outros dois filmes mais famosos, tanto que eu, que tenho alma kitsch por natureza, não consegui abstrair. Parecia filme do Spielberg, pra ser sincero.

Mas por outro lado, devemos levar em consideração que o filme é carregado a partir do ponto de vista de um menino de 12 ou 13 anos, que acabou de perder o pai, e cheio de tiques, ainda mais. E todos nós lembramos como é ser criança: transformar tudo em fim do mundo. Imagine então depois de perder a pessoa mais importante na sua vida. Então de certa forma, a questão do tom da narrativa se levar tão a sério, numa espécie de mega-dramalhão, poderia ser justificada tranquilamente.

Mas por outro lado nada justificativa o terço final, com uma resolução, que nada tem a ver com o tom da narrativa, tão forçada. Uma coincidência elaborada demais e fantasiosa. Aí sim eu concordo que Eric Roth (ou o escritor do livro) errou na mão. Parece querer manipular o seu público a se emocionar a qualquer custo. Comigo eu posso dizer que não funcionou, mas a sala de cinema inteira onde eu fui estava se debulhando em lágrimas.

Muitos críticos reclamam que o filme não merecia a indicação ao Oscar de melhor filme, mas eu não sei. Sendo sincero, já vi muita coisa pior ser indicada. E ganhar. Tão aí Avatar e Crash que não me deixam mentir. E dentre a lista dos nove indicados, nem de longe ele é o pior. Mas que havia outros filmes superiores que nem na lista entraram, isso é inegável. Aí então entra o peso dos nomes envolvidos no projeto, aliados a uma campanha de marketing eficiente para que a indicação aconteça.

Sexta-feira, Janeiro 27, 2012

Crítica Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres

Você Não Soube Me Amar

Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres // The Girl With The Dragon Tattoo


Nota: 6,0


A mania que os estúdios americanos têm de refazer as obras só para agradar seu público (e a si mesmos), que não gosta de ler legendas, é algo de uma petulância ímpar. O único caso em que a fórmula deu certo foi Os Infiltrados, porque adaptaram tudo à uma realidade mais ou menos semelhante a deles. Transpuseram a idéia central para Boston, e transformaram a máfia chinesa em gângsteres irlandeses, etc. Ou seja, transformaram uma idéia. Houve um processo de criação em cima da obra original. Mas aqui refilmaram tudo da mesma maneira que é no livro e no filme original. Mesmas locações, etc. Tudo bem que na Suécia todo mundo fala inglês, mas eu D-U-V-I-D-O que eles falem inglês entre si. Então colocaram todo mundo (até os atores americanos) fazendo um sotaque nórdico, que eu nem sei se está, por falta de referência e familiaridade, mas arrisco que deve ser bem no nível de Javier Bardem se passando por brasileiro em Comer, Rezar e Amar.

Pra você que não sabe, a história é sobre um jornalista, aqui feito pelo 007 Daniel Craig, que é contratado por um senhor idoso, o Christopher Plummer, para descobrir o paradeiro da sua sobrinha preferida, que sumiu há mais de 40 anos. Para tal tarefa, ele acaba recrutando a ajuda de uma hacker gótica e anti-social, a semi-novata Rooney Mara, que é expert em descobrir informações sigilosas e burlar/violar formas de segurança.

Por que não trouxeram a história para Nova York, Chicago, Filadélfia? Lisbeth Salander poderia ter virado uma Elisabeth Sanders, ou algo do tipo. Fica tudo tão forçado e fake, como aquele monte de chinês da dinastia Frango Xadrez falando inglês em O Último Imperador, do Bertolucci. Como o Brasil está em ascensão, capaz de virem filmar aqui. Oh wait! Já fizeram isso em O Beijo da Mulher Aranha...

Uma das principais falhas do filme, fora as que eu já citei, foi cortar justamente a melhor cena da versão original, lá perto do fim, depois que ela e o jornalista desvendam e discutem entre si o mistério, que explica muito da enigmática Salander. Sem ela, nesse aqui, a famosa – e controversa – cena do estupro fica puramente gratuita, sem qualquer sentido. Outro erro foi esse cartaz de divulgação misógino e, também, gratuito, que nada tem a ver com a história. Também não gostei do desfecho entre os dois protagonistas.

Como nada é tão ruim assim, a fotografia e montagem do filme ficaram muito boas. Os créditos iniciais ao som de (um cover de) Immigrant Song do Led Zeppelin até prometiam, mas ficou só na promessa mesmo. Com a falta de liga de todo o resto, a qualidade dos dois setores acabou por transformar o filme num mega-videoclipe com belas tomadas e imagens, e pouco conteúdo pra mostrar. Por isso não entendi a indicação da Rooney Mara ao Oscar. Achei desrespeitoso demais com a produção sueca essa jogação de confete pra um remake, principalmente levando em consideração que não foi trazido algo de diferente que acrescentasse ou distanciasse as duas obras. A caracterização física ficou mais chocante, mas em todo o resto ela fica muito aquém à Noomi Rapace. É só Hollywood cultuando seu próprio umbigo.

Faltou profundidade. No fim das contas eu já achava que estava assistindo uma candidata à America’s Next Top Model fazendo caras e bocas para um daqueles ensaios fotográficos (excelentes) que elas fazem. A cena do assalto na escada rolante, então, parecia coreografada (e é mesmo), mas pra se colocar em videoclipe de desfile de uma Fashion Week da vida. Não é à toa que foi o diretor David Fincher que dirigiu Freedom 90 do George Michael, um dos meus videoclipes favoritos, diga-se de passagem.


Obs: Numa nota a parte, já partindo pro lado pessoal, o filme me fez constatar como minha memória funciona, além de toda a minha futilidade e serventia como fonte de cultura inútil, quando eu reconheci a terceira colocada do Miss Universo há 14 anos atrás fazendo figuração como repórter numa tela de TV. Fui pesquisar no IMDB e não é que era ela mesmo?

Quarta-feira, Janeiro 25, 2012

Crítica O Artista

Meia-Noite em Hollywood

O Artista // The Artist


Nota: 9,0


Em uma época onde todos os filmes são em cores, com diálogos, e, cada vez mais, extrapolam de recursos e efeitos visuais, reutilizar uma estética e tecnologia primitiva, já fora de uso há mais de 8 décadas, e fora do circuito alternativo ou de arte, era algo impensado. Até esse filme francês (sempre eles) conseguir a proeza. A idéia e equipe são francesas, mas o filme foi rodado e financiado em Hollywood, e utiliza um elenco misto. Nomes famosos como John Goodman e Penélope Ann Miller fazem participações importantes, mas os dois maiores astros são dois desconhecidos do público, um francês, Jean Dujardin, e uma argentina, Bérénice Bejo. Ou seja, algo surreal de acontecer na indústria. E normalmente quando Hollywood se permite a ousadia, dá certo.

A história é sobre um ator de extremo sucesso do cinema mudo nos anos 20, que se recusa a se adaptar à inovação do cinema falado e acaba ficando obsoleto, e ainda vê sua protegida, mais moderninha, brilhando e emplacando filmes (todos com nomes deliciosamente frívolos, bem peculiares à época) de sucesso seguidos, enquanto ele amarga seu vertiginoso declínio.

O filme brinca com a história do cinema. As quantidades de citações só são comparáveis as de Tarantino e aos momentos mais inspirados de Scorsese, no circuito mainstream. De fato, lembra demais Cantando na Chuva, como muitos já disseram, e ainda mescla tons e transporta filmes clássicos de décadas passadas para a ótica do cinema mudo. Uma declaração de amor à sétima arte e aos anos dourados de Hollywood, algo tipo Paris, Je T’aime ou New York, I Love You, e, futuramente, Rio, Eu te Amo (medo!), mas com um enredo único.

Tem trechos de Crepúsculo dos Deuses, os famosos musicais da Metro, pode lembrar Baby Jane, e servir de “paródia” para a vida de diversos artistas conceituados da época. E o roteiro também tira sarro de si mesmo diversas vezes, por exemplo, quando Bérénice Bejo diz que o cinema falado permite romper o modelo “caras e bocas” do cinema mudo, enquanto é tudo isso que eles mesmos fazem durante a projeção inteira.

O elenco todo brilha em perfeita sintonia. Dujardin faz uma espécie de Rodolfo Valentino e Bejo é de uma fotogenia extrema. Um casal extremamente carismático e charmoso. Fica a dúvida se eles terão um futuro em Hollywood, como têm Javier Bardem, Marion Cotillard e Penélope Cruz, ou se ficarão pelo caminho, como Roberto Benigni (Deus é pai!), Adriana Barraza e Rinko Kikuchi. Por estrelarem um filme em que suas vozes e sotaques são incógnitas, a resposta ao questionamento fica no ar.

O filme tem sido extremamente elogiado e arrebatado todos os prêmios da safra 2012, e caminha tranquilamente para o Oscar. De inventivo não tem absolutamente nada. Mas é extremamente criativo. Talvez o maior trunfo e mérito do filme seja a direção do francês Michel Hazanavicius. Seria fácil, fácil deslizar e cair num pastiche preguiçoso de Carlitos, ou transformar Dujardin numa caricatura de Gene Kelly. Colocando em proporção, O Artista é, mais ou menos, para cinema o que Amy Winehouse foi para a música pop há alguns anos atrás. Uma sessão nostalgia que certamente desagradará ao público em geral, alérgico à “velharias”, mas para quem ama cinema é como se perder com Owen Wilson à meia-noite em Paris.

Terça-feira, Janeiro 24, 2012

Indicações ao Oscar 2012

As indicações saíram hoje de manhã, anunciadas pelo presidente da Academia, Tom Sherak, que não pára de inventar moda todo santo ano, mudando regras e mais regras, e sempre errando no ponto, e pela atriz Jennifer Lawrence, que ano passado foi indicada à Melhor Atriz por Inverno da Alma. Esse ano a academia resolveu de brincar de "olha como somos imprevisíveis", colocando em toda categoria uma zebra. E na verdade, as surpresas foram em sua grande maioria desagráveis. Mas essa tendência pode significar outras coisas.

Vamos a lista com alguns breves comentários meus:



Melhor Filme
Os Descendentes
Histórias Cruzadas
Tão Forte e Tão Perto
A Invenção de Hugo Cabret
O Homem Que Mudou o Jogo
Cavalo de Guerra
O Artista
Meia-Noite em Paris
A Árvore da Vida

Mais uma invenção da Academia. Primeiro alteraram de 5 para 10 o número de indicados na categoria. E agora inventam que o número será variável dependendo da quantidade de votos, e blá blá blá... Aí, por fim, indicam 9 filmes. Por que não colocaram mais outro arredondando pra 10 de uma vez? Pelo menos há bons filmes na lista. O mais fraco, com certeza, é o drama de cavalo piegas do Spielberg.

Por outro lado, essa onda de surpreender da Academia pode significar também que queiram fugir do "óbvio", que no caso seria premiar o filme francês
O Artista, que tem levado tudo até aqui, e no meio do caminho surgiur um Crash da vida. E isso seria nada mais que uma confissão assinada de xenofobia da indústria, na minha opinião. Então, pelo visto, tudo pode acontecer. Fica difícil até de arriscar um chute.


Melhor Diretor
Michel Hazanavicius (O Artista)
Alexander Payne (Os Descendentes)
Martin Scorsese (A Invenção de Hugo Cabret)
Woody Allen (Meia-Noite em Paris)
Terrence Malick (A Árvore da Vida)

Legal ver o Terrence Malick na lista e o cafona do Spielberg de fora. Talvez Tate Taylor (por Histórias Cruzadas) merecesse ser lembrado também. Um filme com um elenco tão afiado não se dirige sozinho. Não vou mentir que minha torcida é do Woody Allen, mas qualquer um, menos o Payne, merece, no meu ponto de vista.

Melhor Ator
Demián Bichir (A Better Life)
George Clooney (Os Descendentes)
Jean Dujardin (O Artista)
Gary Oldman (O Espião Que Sabia Demais)
Brad Pitt (O Homem Que Mudou o Jogo)

Gary Oldman é fenomenal, e nunca foi lembrado por premiações antes, então é um reconhecimento mais que merecido. Mas, por outro lado, cadê Leonardo DiCaprio e Michael Fassbender? O mexicano Bichir é um mistério, e os amigos George Clooney e Brad Pitt são bons, mas medianos. Nada memoráveis. Nem reclamo muito por Ryan Gosling, porque eu não consigo transpor a carapaça de arrogância dele nos seus filmes.


Melhor Atriz
Glenn Close (Albert Nobbs)
Viola Davis (Histórias Cruzadas)
Rooney Mara (Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres)
Meryl Streep (A Dama de Ferro)
Michelle Williams (Sete Dias Com Marilyn)

Eu tenho é nojo... Acho de uma megalomania e egocentrismo doentios a Academia, que desprezou o filme original, indicar Rooney Mara, que brinca de Noomi Rapace num remake sem nenhuma personalidade. E ainda ignorararam Charlize Theron, Elizabeth Olsen, e, principalmente, Tilda Swinton. No mais, minha torcida, mais uma vez, é toda da Viola.


Melhor Ator Coadjuvante
Kenneth Branagh (Sete Dias Com Marilyn)
Jonah Hill (O Homem Que Mudou o Jogo)
Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)
Nick Nolte (Guerreiro)
Max von Sydow (Tão Forte e Tão Perto)

Essa sim uma surpresa sem nenhum efeito colateral. Max von Sydow é icônico. Mas ainda assim, o vencedor, merecidamente, deve ser Christopher Plummer. Nick Nolte dá a volta por cima, depois de ter sido preso e virado motivo de chacota pública.


Melhor Atriz Coadjuvante
Bérénice Bejo (O Artista)
Jessica Chastain (Histórias Cruzadas)
Janet McTeer (Albert Nobbs)
Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)
Melissa McCarthy (Missão Madrinha de Casamento)

O Oscar seguiu às indicações do sindicato dos atores e ignorou a Shailene Woodley em Os Descendentes. E olha que a Academia sempre costuma indicar infanto-juvenis. Mas é uma lista justa e boa. Talvez eu tiraria a Melissa McCarthy, mas não pelo trabalho dela ser ruim, mas por antipatia pela personagem (e pelo filme), mesmo.


Melhor Roteiro Adaptado
Os Descendentes
A Invenção de Hugo Cabret
O Homem que Mudou o Jogo
Tudo Pelo Poder
O Espião Que Sabia Demais

Ignoraram Histórias Cruzadas, e indicaram George Clooney, já que foi cortado das categoria de melhor filme e melhor direção, com o seu Tudo Pelo Poder. O Homem que Mudou o Jogo sobra na lista, mas no mau sentido.


Melhor Roteiro Original
O Artista
Missão Madrinha de Casamento
Meia Noite em Paris
A Separação
Margin Call - O Dia Antes do Fim

Eis a chance de Woody Allen sair premiado. Será que ele confirma seu favoritismo? Ou a antipatia da Academia por ele vai se sobrepor?


Melhor Animação
Um Gato em Paris
Chico & Rita
Kung Fu Panda 2
Gato de Botas
Rango

Aí a Academia indica duas animações praticamente desconhecidas e (o que não é necessariamente ruim) e ignora Tintim, e ainda confirma que Hollywood não gostou mesmo de Rio.


Melhor Filme Estrangeiro
Bullhead (Bélgica)
Monsieur Lazhar (Canadá)
A Separação (Irã)
Footnote (Israel)
In Darkness (Polônia)

A Pele Que Habito fazendo falta, e A Separação se isolando como franca favorita, ainda mais por conquistar uma indicação de roteiro também.


video

Melhor Canção
Original
Man or Muppet (Os Muppets)
Real in Rio (Rio)

Outra papagaiada da academia: ignoraram todos os indicados do Globo de Ouro (já vêm fazendo isso tem um tempo) e só indicaram duas míseras canções. era melhor abolir a categoria. Aí então dão o prêmio de consolação para Rio, indicando sua canção composta pelos brasileiros Sérgio Mendes e Carlinhos Brown e pela americanca Syedah Garrett, que é famosa por compor músicas do Michael Jackson, como o hit Man in The Mirror.

Mas por outro lado, a outra indicada é uma baboseira bem medíocre dos Muppets, que são extremamente populares nos EUA, e nunca levaram Oscar, apesar de terem sido indicados antes nos anos 80. E a canção ainda é cantada pelo Jason Segel, do seriado How I Met Your Mother, e pelo Jim Parsons, o Sheldon de The Big Bang Theory. Então eu não criaria muitas expectativas, não.


Demais indicados:

Melhor Documentário
If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front
Paradise Lost 3: Purgatory
Pina
Undefeated
Hell and Back Again

Melhor Documentário - Curta
The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement
God is the Bigger Elvis
Incident in New Baghdad
Saving Face
The Tsunami and the Cherry Blossom

Melhor Curta-Metragem
Pentecost
Raju
The Shore
Time Freak
Tuba Atlantic

Melhor Curta de Animação
Dimanche/ Sunday
The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore
La Luna
A Morning Stroll
Wild Life

Melhor Direção de Arte
O Artista
A Invenção de Hugo Cabret
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2
Cavalo de Guerra
Meia Noite em Paris

Melhor Fotografia
O Artista
Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
A Invenção de Hugo Cabret
A Árvore da Vida
Cavalo de Guerra

Melhor Figurino
O Artista
A Invenção de Hugo Cabret
W.E. - O Romance do Século
Anônimo
Jane Eyre

Melhor Maquiagem
Albert Nobbs
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2
A Dama de Ferro

Melhor Montagem
Os Descendentes
O Homem que Mudou o Jogo
A Invenção de Hugo Cabret
Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
O Artista

Melhor Trilha Sonora
As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne
O Artista
O Espião que Sabia Demais
Cavalo de Guerra
A Invenção de Hugo Cabret

Melhor Edição de Som
Cavalo de Guerra
Drive
Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
A Invenção de Hugo Cabret
Transformers: O Lado Oculto da Lua

Melhor Efeitos Sonoros
Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres
Transformers: O Lado Oculto da Lua
Cavalo de Guerra
A Invenção de Hugo Cabret
O Homem Que Mudou o Jogo

Melhor Efeitos Visuais
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte II
A Invenção de Hugo Cabret
Gigantes de Aço
O Planeta dos Macacos: A Origem
Transformers: O Lado Oculto da Lua